Usinas tentam renegociação de suas dívidas com os bancos

A associação que representa as usinas sucroalcooleiras do Paraná (Alcopar) está intermediando a repactuação das dívidas do setor com as instituições financeiras. Não há ainda um levantamento sobre o volume desse endividamento, mas somente nos últimos dois anos, o setor paranaense investiu US$ 2,8 bilhões para ampliar a capacidade de moagem em 57%, de 33 milhões de toneladas para 52 milhões de toneladas.

“Desde o início de setembro os bancos fecharam liberações, inclusive de capital de giro. As usinas do estado estão atrasando salários dos funcionários e fornecedores”, afirma Adriano Dias, superintendente da Alcopar. Ele conta que tem usinas que não conseguiram iniciar a safra no segundo semestre por falta de capital e que se a situação persistir a saída entre as que estão em operação será o início de demissões.

Na última semana, representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estiveram na sede da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e, de acordo com fontes do setor sucroalcooleiro, na pauta estaria também a renegociação das dívidas das usinas do Centro-Sul, que representam a maior parte da produção brasileira de açúcar e álcool. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Unica negou que essa seria a pauta com o BNDES e que a reunião foi para tratar de empréstimos já aprovados para empresas do setor.

Maurílio Biagi Filho, presidente da Maubisa, relata que quase todas as empresas do setor precisam neste momento renegociar suas dívidas, necessidade que, no entanto, não está sendo atendida. Para Biagi, a crise atingiu indistintamente todos os setores, uns mais, outros menos, “até porque tem muito de psicológico em tudo isso”. Segundo ele, “o que agrava a situação é que os bancos, que em alguns casos induziram as empresas a fazer operações perigosas, agora não dão sustentação alguma aos clientes”. Segundo ele, essa é uma prática utilizada principalmente por bancos estrangeiros.

“O filme se repete. O setor financeiro sempre age assim em época de crise: deixa a porta de entrada aberta e a de saída, fechada”, diz Biagi, presidente da holding que tem sede em Ribeirão Preto participações em uma dezena de empresas sucroalcooleiras do País.

O grupo Santelisa Vale, o segundo maior produtor mundial de açúcar e álcool, é uma das companhias do setor atingidas mais seriamente pela crise. Resultado da fusão entre a Companhia Energética Santa Elisa e a Companhia Açucareira Vale do Rosário, o grupo passou a última semana tentando renegociar uma dívida de curto prazo no valor de US$ 300 milhões. Segundo a assessoria de comunicação do grupo, a dívida é parte do R$ 1,1 bilhão que os controladores gastaram para exercer o direito de preferência sobre as ações de sócios minoritários, quando da fusão das companhias, em meados do ano passado. Metade da dívida já estava paga mas, o restante, atrelado ao dólar, cresceu de tamanho com a variação cambial. O grupo esclareceu, por meio da assessoria de imprensa, que tem estoques de açúcar e álcool que podem lhe render em exportações neste ano um montante igual ao da dívida, equivalente a US$ 300 milhões. Afirmou também que pretende não adiar os investimentos em novas usinas. Controlada pela holding Santelisa Vale S/A (que tem como sócios as famílias Biagi, Junqueira, o banco Goldman Sachs, além de minoritários), o grupo Santelisa Vale tem 100% das usinas paulistas Santa Elisa, Vale do Rosário, MB, e Jardest. Tem ainda 65% da Usina Continental, na região de Barretos (SP), 50% da Tropical Bioenergia, em Edéia (GO) e 72,6% da Crystalsev, responsável pela comercialização e logística de mais de uma dezena de usinas do Centro-Sul do País. Em sociedade com grandes fundos de investimento estrangeiros, o grupo tem ainda 27,7% de participação na CNAA, que constrói quatro novas usinas no País.

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