Trocando experiências

O australiano Stanley John

Pearce chegou no Brasil em 1977. Ele foi contratado por uma empresa fabricante de máquinas agrícolas para implantar o sistema de colheita mecanizada. Mesmo sendo de um país onde tudo que se produz é colhido mecanicamente e apesar da experiência na área, a iniciativa não deu certo. O baixo custo da mão-de-obra era um grande incentivo à colheita manual. Depois desta tentativa frustrada voltou a Austrália e só retornou ao Brasil no início dos anos 90. Com abertura das importações, Mr.

Pearce voltou para trabalhar em outra empresa e acabou como um dos responsáveis pela nacionalização do primeiro modelo de colhedora adaptado a cultura da cana-de-açúcar brasileira. Conhecendo a realidade de dois países de clima tropical e dimensões continentais, ele fala de plantio e colheita mecanizadas, de produção e otimismo para mercado sucroalcooleiro.

JornalCana – Quais são as diferenças e as semelhanças entre o setor canavieiro da Austrália e do Brasil?

Pearce – As semelhanças são poucas, mas as diferenças são muitas. Primeiro, no Brasil a quantidade de cana produzida é oito vezes maior. Segundo, aqui a maior parte da cana é cultivada em terras das Usinas e na Austrália não chega a 5%, as áreas são muito maiores no Brasil e ainda as Usinas prestam serviço para os fornecedores, seja colhendo, carregando e até transportando a cana para ser processada. Isto não acontece na Austrália, onde tudo é feito pelo fornecedores. Lá, tem leis que controlam a indústria. Não tão rígidas como eram, mas elas existem. Outra diferença bem evidente é na hora da venda do produto. Na Austrália, temos uma mesa de negociação que vende o açúcar para todo mundo. No Brasil, têm muitos agentes comercializadores. Lá não tem concorrência para venda (é centralizado).

JC – O trabalho na área agrícola também é diferente nos dois países?

Pearce – Na Austrália, a área agrícola, falando em preparo de solo, plantio, adubação e até o trato contra doenças, tudo é 100% mecanizado. Lá não tem ninguém colhendo cana inteira, toda produção é picada há cerca de 25 anos. No Brasil ainda não é possível ter a colheita mecanizada em toda área plantada, mas podemos esperar mudanças. No futuro próximo, eu acho que em cinco anos, o setor já vai estar 100% mecanizado.

JC – O Brasil está preparado para a colheita mecanizada?

Pearce -As máquinas nacionais para colher cana são eficientes, o problema é que estão colocando-as para trabalhar em áreas que não estão preparadas para a colheita mecanizada. É preciso corrigir este erro. É necessário também treinar bem o pessoal para operar a máquina, porque se estes trabalhadores não fizerem com muito cuidado e carinho podem colocar em risco um equipamento que vale US$ 220 mil. Hoje, alguns operadores não sabem nem ler e escrever. É preciso fazer a escolha certa do melhor operador. Esta preocupação está ligada com produtividade, ou seja, operador treinado significa melhor desempenho da máquina.

JC – Os fabricantes de máquinas poderiam colaborar para a especialização desta mão-de-obra?

Pearce – Eu acho que a indústria açucareira brasileira tem falta de uma estrutura de treinamento de pessoal. Isto poderia ser feito já a partir dos 18 ou 19 anos, seja com agrônomos ou técnicos agrícolas para que eles operem as máquinas adequadamente e valorizem o próprio emprego. Na Austrália, o operador é um técnico treinado com conhecimento desde as operações até a manutenção da máquina, o que proporciona um melhor resultado final. Lá o operador ganha por tonelada colhida e não por dia, por semana ou por mês, assim ele não deixa a máquina quebrar de jeito nenhum.

JC – Como o senhor vê as perdas na colheita mecanizada?

Pearce – Neste tipo de operação sempre vai existir perda. Colheita mecanizada não é simplesmente comprar uma colhedora e colocá-la para trabalhar, é preciso entrar no sistema desde o começo. Se não houver um planejamento desde os cuidados com o solo, preparação da mão-de-obra e o próprio plantio, as perdas serão acima do normal.

JC -E o plantio mecanizado é viável para o produtor?

Pearce – Desde que as operações sejam feitas com critério, é perfeitamente possível partir para a utilização deste sistema. O plantio mecanizado no Brasil está sendo feito por dois tipos de plantadoras, uma de cana inteira e a outra de cana picada. Para pequenos produtores a plantadora de cana inteira é uma boa saída , porque com ela tem como baratear o custo do hectare plantado. No caso do plantio mecanizado de cana picada o segredo é a colheita de mudas, tendo este cuidado ainda é preciso ter cana em pé e reta. Cana deitada não pode ser colhida para o plantio mecanizado. O tolete de cana também deve ser de qualidade. Na hora de plantar cana picada, dois aspectos podem influenciar na brotação e germinação, um é o gene da planta, o outro é o tolete, que deve ser cortado sem ser danificado. Outra preocupação é com as facas do picador que devem estar sempre bem afiadas para não machucar a cana e o tolete não apodrecer dentro do solo.

JC – Em qual situação o senhor recomenda o plantio mecanizado?

Pearce – Entre os meses de fevereiro, março e primeira semana de abril. Isto se tiver umidade no solo. Sem umidade, o plantio mecanizado é um gasto de dinheiro desnecessário e sem retorno. Os principais segredos no plantio mecanizado são a quantidade de cobertura do solo em cima do tolete e o peso que se usa para compactar o solo sobre o tolete. Estes fatores influenciam diretamente na germinação e brotação da plantação.

JC – A mecanização, de uma forma geral, acaba fazendo a compactação do solo. Como enfrentar este problema?

Pearce -A compactação do solo é um problema da indústria sucroalcooleira de todo o mundo, maior ou menor dependendo do solo, da umidade e do tipo do transporte. É preciso que os veículos que entram na lavoura tenham os pneus adequados para evitar ao máximo a compactação.

JC – Este ano na região Centro-Sul teremos queda da produção por causa de um longo período de estiagem. Parar a colheita mecanizada pode ser uma alternativa para evitar maiores perdas?

Pearce – Quem está pensando nisto, acho que não fez os cálculos entre custo e benefício. Quem já fez investimentos na colheita mecanizada tem que continuar melhorando o processo. Parar máquinas caras e colocar mão-de-obra, mesmo este ano que a cana está muita fraca, vai fazer o custo por tonelada colhida ficar maior.

JC – O planejamento da safra é importante?

Pearce – O planejamento é o primeiro passo para evitar perdas. O produtor deve preparar a cana para ser cortada por máquinas, tem que plantar a quantidade certa para que ela não se quebre quando for colhida, ou seja, tem que cultivar certo para a colheita mecanizada como forma de investimento na lavoura.

JC – Em relação a colheita mecanizada, novas tecnologias estão surgindo?

Pearce – As tecnologias estão sendo aprimoradas. Hoje existe uma necessidade: não podemos mais jogar cana no chão. É preciso evitar o contato direto com a terra para não carregar impurezas junto com a cana. As pesquisas apontam para que num futuro próximo tudo que for colhido vai ser cortado e limpo dentro da própria máquina. Será uma grande mudança na industria sucroalcooleira que deve melhorar a qualidade da matéria-prima que vai chegar na Usina.

JC – O espaçamento na área de plantio é importante para a colheita mecanizada?

Pearce – O ideal de uma linha é o tradicional 1.6 metros, mas na maioria dos países está sendo praticado 1.5. O importante não é o espaçamento adotado, mas sua uniformidade, conservando o paralelismo entre as linhas em toda a lavoura. Aqui no Brasil tem três tipos de plantio: manual e os de cana picada e inteira mecanizados. No sistema manual faz-se a sulcação, que na maioria das vezes é de três linhas, mas que nem sempre, ou quase nunca, existe um paralelismo entre as linhas, o que dificulta a colheita porque a máquina acaba passando por cima da cana. A maioria dos implementos para cultivo é para duas linhas, os de sulcação são de três linhas e é isto que causa problema na hora da colheita mecanizada.

JC – Na Austrália também é assim? Não, na Austrália o plantio é mecanizado há 50 anos e já não tem este problema.

JC – E o plantio mecanizado no Brasil?

Pearce – Nas terras brasileiras o plantio mecanizado está engatinhando. Aqui, só se adotou este sistema recentemente porque a mão-de-obra ainda é barata. Diferente da colheita mecanizada, que foi implantada porque manualmente se perdia mais cana do que toda a colheita Australiana. Em época de safra era cana espalhada na estrada, dentro dos carregadores, na lavoura e para todos os lados. Nas áreas de cana inteira é assim até hoje, mas isto tende a mudar.

JC – Como o senhor analisa a fabricação de outros produtos, como o açúcar orgânico por exemplo?

Pearce – Este é um tipo de açúcar que está sendo procurado por países desenvolvidos, mas ainda é uma fatia de mercado pequena. Se as usinas brasileiras quiserem ampliar as vendas do açúcar orgânico terão que rever o preço. É um produto caro para os países do terceiro mundo.

JC – Como o senhor classifica o mercado de açúcar e álcool do Brasil?

Pearce – Se o Brasil tivesse como organizar melhor o setor, teria condições de controlar o preço do álcool e do açúcar dentro do país e ainda o preço do açúcar no mercado internacional. O Brasil é um dos melhores em termos de qualidade. O açúcar brasileiro é hoje um produto muito procurado e deve continuar conquistando espaço. Mas enquanto reinar a desorganização, tudo vai continuar igual. Para outros fabricantes de açúcar, no mercado internacional, o país tem influência para melhor e para pior. Pelo fato dos tratos culturais adequados que não foram feitos, a seca na região Centro-Sul e a falta de plantio nos últimos três anos deve mexer com o mercado mundial. Veja por exemplo a grande oferta de produtos do setor em 98 e 99. Naquele período muita gente quase quebrou, não só aqui no Brasil, mas em outras regiões produtoras do mundo. A recuperação deste choque ainda vai levar algum tempo.

JC – Em relação ao álcool, o senhor acha que é um bom produto?

Pearce -Claro que sim. Minha dúvida é se as industrias brasileiras querem se organizar para obter lucros com a fabricação do produto. Ainda falta um planejamento para enfrentar os altos e baixos característicos do setor.

JC – O que isto significa?

Pearce – Nos tempos difíceis sempre tem um impacto, mas quando passam, muita gente esquece tudo o que foi feito anteriormente e acaba saindo em busca de recuperação a qualquer custo.

JC – Seria interessante, neste momento, direcionar a produção para a mistura álcool-gasolina?

Pearce – Eu acho que esta é a última saída para o setor. E o que é melhor, hoje existe uma preocupação com relação ao meio-ambiente. Quem quiser um combustível menos poluente vai ter que aderir a adição do álcool na gasolina.

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