“Temos um pré-sal de cana”, afirma Marcos Landell, do Centro de Cana IAC

Landell durante palestra na segunda edição do Usinas de Alta Performance Agrícola realizada em agosto, em Sertãozinho, pela ProCana Sinatub (Foto: Arquivo)

Referência mundial em melhoramento genético da cana-de-açúcar, Marcos Landell detalha o que chama de camada pré-sal biológica do setor sucroenergético  em entrevista para a edição 298 do JornalCana

A entrevista com Marcos Landell, do Centro de Cana IAC, integra a série “Quem é Quem” no setor sucroenergético.

 

Por que o setor vivencia poucas perspectivas positivas? 

Quando nos deparamos com um cenário de baixos preços do açúcar, em decorrência do excesso de produção mundial, associado a uma produtividade de pouco mais de 10 toneladas de açúcar por hectare na região Centro-Sul, invariavelmente somos lançados a um quadro quase desolador e de poucas perspectivas positivas. Isso traz reflexões sobre os caminhos que devemos adotar.  

Quais devem ser esses caminhos?  

No primeiro momento o nosso impulso é tentar equilibrar a conta via corte de recursos para investimento e para insumos de produção. Essa ação gera uma consequência mais nefasta para a área agrícola, pois é aí que residem os maiores custos da agroindústria. E aí começam os nossos “problemas sistêmicos.” 

O corte na área industrial não tem o mesmo impacto? 

O corte de investimentos em áreas da engenharia industrial tem seus efeitos bem quantificados, pois os impactos são restritos e normalmente nos meses posteriores a essa ação pode haver reversão com um novo ciclo de investimento no momento seguinte.  

Isso não ocorre na área agrícola? 

Não. O impacto negativo de ações como essa [corte de investimentos] se estende durante anos e a reversão, invariavelmente, passa por um investimento que envolve o “repovoamento” do canavial, ou seja, precisaremos lançar mão de novos plantios ou mesmo de estratégias de replantio, como aquelas que se utilizam de mudas pré-brotadas (MPB) para ocupar as falhas do canavial depauperado pelos tratos culturais insuficientes dos ciclos anteriores, principalmente em nutrição mineral.  

Essas estratégias são insuficientes? 

Mesmo com essas ações para repovoamento do canavial, a eficácia é restrita à “desconstrução” efetivada com os maus tratos anteriores. Um canavial desnutrido reduz a capacidade de perfilhamento, ou seja, independente de falhas esse canavial poderá ter até 30% a menos de colmos que aquele que recebe condições plenas de manejo nutricional.  

A redução do perfilhamento independe das variedades? 

Este efeito negativo é muito dependente do perfil varietal, mas se considerarmos 20% de redução de colmos em um canavial com potencial de população de 75 mil colmos por hectare, isso trará uma redução de 15 mil colmos por hectare/ciclo. Se considerarmos um canavial em ciclos intermediários, esse colmo pesará próximo de 1,5 kg, o que redundará em uma diminuição de produtividade agrícola de 22,5 t/ha/corte.  

Esse problema estende-se para outros cortes? 

Esse fato funesto não acaba em um único ciclo (corte), mas se estende aos cortes posteriores e, na sua somatória, isso poderá totalizar números acima de 100 t/ha.  

Quais outras consequências? 

Há consequências secundárias da “despopulação”, dentre as quais a menor eficiência da colheita, o que redunda em atos de compensação como o aumento da velocidade da colhedora, o que, por sua vez, acaba impactando na população das touceiras. Isso porque a maior velocidade poderá ocasionar um aumento do “arrancamento” de touceiras, incorrendo no aumento da “despopulação” para o ciclo seguinte.  

Quais são as consequências de um canavial com baixa população? 

Traz implicações terríveis quando considerarmos a otimização de insumos para os ciclos seguintes. O adubo será distribuído em toda a área (não estamos considerando tecnologias de distribuição variável), proporcionando um grande vigor para as plantas daninhas que se desenvolverão nos espaços de um canavial com baixa população.  

Quais outras consequências? 

Isto nos faz conviver com as baixas produtividades atuais do Brasil. Alguns até podem argumentar que “para uma canavicultura de sequeiro os nossos números não são ruis, já que a Índia possui dois a três ciclos de colheita e nossa produtividade alcança 10,5 toneladas de açúcar por hectare com média de mais de seis ciclos.” 

A meu ver esse não deve ser o nosso parâmetro de eficiência. Devemos identificar o nosso “estado da arte” em tecnologias fitotécnicas e tentar entender onde podemos chegar com todo o “arsenal tecnológico” disponível.  

Dê exemplos desse “arsenal”, por favor.  

Temos programas de melhoramento genético atuando há décadas no Brasil que proporcionam uma “gama” de variedades para todas as condições edafoclimáticas dos quase 10 milhões de hectares ocupados com cana-de-açúcar no Brasil. Várias dessas novas variedades têm atendido o perfil de maior população de colmos, deslocando os nossos canaviais para mais de 80 mil colmos já no primeiro ciclo. Nesse caso, o potencial de produtividade agrícola é elevado em mais de 20 t/ha. 

É possível adequar esse novo potencial ao “pacote fitotécnico”? 

Sim. Isso já tem ocorrido com vários produtores do Centro-Sul. Na região de Campo Florido (MG), um grupo de produtores tem inovado com adoção de pacotes nutricionais e de proteção antes somente pensado para culturas de “alta resposta” como milho e soja.  

O que ocorreu? 

Suas produtividades atingem mais de 15 toneladas de açúcar por hectare na média de oito cortes, ou se quiserem transformar em etanol, obtêm algo acima de 10 mil litros por hectare. É um novo “pré-sal”, mas agora biológico, como sempre sonhamos.  

Comente mais sobre esse “pré-sal biológico” 

Promovido por essas altas produtividades no campo agrícola, esse “pré-sal” nos transportará para uma realidade mais independente dos preços estabelecidos pelo contexto de produção mundial de açúcar. E nos permitirá novos caminhos na produção do açúcar, do etanol e da bioeletricidade.  

 

 

Mais sobre Marcos Landell, do Centro de Cana IAC

 

Natural de Campinas (SP), Landelll possui graduação em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp, em 1979), mestrado em Agronomia (Produção Vegetal) pela Unesp (1983) e doutorado em Agronomia (Produção Vegetal) pela Unesp (1989).

É pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, e diretor do Centro de Cana do IAC.  

Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Melhoramento Vegetal, atuando principalmente com cana-de-açúcar, melhoramento genético, variedades e seleção.  

Landell é coordenador do Grupo Fitotécnico de Cana-de-Açúcar,  criado em 1992 e que integra hoje 100 instituições e empresas representantes de estados como São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O Grupo foi gerado no interior do IAC, mas, conforme o coordenador, pertence ao setor sucroenergético.  

Premiação 

Recebeu o Prêmio MasterCana Centro-Sul 2018 na categoria “Quem é quem no setor”, que constitui homenagem às personalidades do setor sucroenergético nos últimos 30 anos. 

Em 2011 integrou a lista dos “100 Mais Influentes do Setor”, eleitos por meio de pesquisa MasterCana. A premiação ocorreu durante o Prêmio MasterCana Brasil. 

Em 2013, foi condecorado na categoria “Mais Influentes” do setor sucroenergético no Prêmio MasterCana Brasil, promovido pela ProCana, empresa que edita o JornalCana 

 

 

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