Setor de açúcar aposta em eventual abertura de mercado na Europa

O mercado exportador de açúcar aposta numa eventual abertura de mercado da União Europeia nos próximos meses. A expectativa é de que haja um leilão para a importação de 300 mil toneladas da commodity. A medida evitaria a escassez do produto em países do bloco e aumentaria a pressão de alta sobre os preços, que já estão aquecidos em função de déficits de oferta provocados por quebras de safra na Ásia.

O leilão foi defendido pela autoridade reguladora da commodity na Comissão Europeia, o suíço Martin Van Driel, durante um congresso do setor sucroalcooleiro em Versalhes, Paris, no dia 9 de maio. Palestrante do evento, o presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari, voltou de lá com a notícia de que “estão preocupados com os baixos estoques de açúcar, e existe a possibilidade de ser realizado um leilão”.

A expectativa do mercado ficou evidente na última conferência da Datagro, dia 18 de maio no hotel Waldorf Astoria, em Nova Iorque. Numa enquete da consultoria com 202 participantes, entre eles traders, autoridades políticas e líderes do mercado exportador, como executivos da Coopersucar e Biosev, mais da metade (57%) apostou que a Europa abrirá seu mercado à importação de açúcar nos próximos quatro meses.

Um volume de 300 mil toneladas estaria sendo cogitado, de acordo com Nastari, ou quase 75% do total exportado pelo Brasil à União Europeia em 2015 (492,4 mil toneladas). “O regulador [Van Driel] não estipulou a quantidade. É uma especulação do mercado”, ponderou o consultor, para quem “a decisão está pendente”. O volume representa a metade do volume que o País está autorizado a exportar para o bloco pela OMC (uma cota anual de 600 mil toneladas).

Procurada pela reportagem no dia 17 de maio, a chefe de Assuntos Internacionais da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Geraldine Kutas, chegou a confirmar a intenção europeia de importar as 300 mil toneladas da commodity. “Esse mecanismo é usado há vários anos, sempre que há preocupação com a falta de açúcar no mercado”, disse a francesa do seu escritório em Bruxelas, capital da União Europeia. “Os importadores fazem ofertas para a Comissão, e os que oferecerem as melhores tarifas são autorizados [a importar]”, explicou. Dois dias depois, por meio da assessoria de imprensa da entidade, a responsável pela negociação das usinas brasileiras com o mercado europeu disse que a Comissão Europeia “decidiu que, por enquanto, não abrirá leilão, como previsto anteriormente”.

A possibilidade de uma abertura “excepcional” do mercado europeu foi reforçada pelo relatório divulgado pela Datagro nesta semana, a respeito da sua última conferência em Nova York. “A Comissão Europeia está considerando um leilão de importação para evitar a escassez localizada antes do início da próxima safra”, afirma o documento, referindo-se ao próximo ciclo da beterraba, matéria-prima do açúcar produzido na Europa, entre setembro e janeiro. “O que preocupa a União Europeia é o estoque de passagem, principalmente em agosto. O leilão daria condições para garantir o abastecimento nesse período”, comentou Nastari, indicando que a compra deve ser feita ainda em junho, já que os prazos de entrega costumam ser de 45 dias.

O receio da Comissão Europeia de que haja escassez de açúcar em alguns países membros se deve às atuais quebras de safra na China, Índia e na Tailândia, influenciadas pelo fenômeno El Niño. Neste ano, estima-se um déficit de 6,45 milhões de toneladas nos estoques mundiais, e um rombo de 6,09 milhões no ano que vem, de acordo com a Datagro. Segundo um alerta do trader inglês Johnatan Drake, palestrante do evento do dia 18, em Nova York, esses déficits podem ser ainda maiores. “Houve uma discussão muito grande sobre a oferta da Índia na safra de 2016/2017, que pode ficar ainda abaixo do previsto”, contou Nastari.

Na contramão do mercado, os produtores europeus de beterraba, que preferem evitar a concorrência internacional, “reagiram imediatamente contra” a medida anunciada pela Comissão Europeia em Paris, no dia 9, segundo o presidente da Datagro. “Eles estão aumentando a produção de beterraba neste ano”, indicou Nastari. O congresso de Versalhes foi realizado em frente à Associação Mundial dos Plantadores de Beterraba e Cana-de-Açúcar (AMPBCS, na sigla em francês), que representa a base europeia.

No dia seguinte ao anúncio, o jornal francês especializado “La France Agricole” publicou uma reportagem intitulada “Clima tenso entre Bruxelas e os produtores de açúcar”, em que um membro alemão da AMPBCS classificou o leilão como uma “declaração de guerra” contra os interesses do mercado doméstico. “O objetivo é evitar uma disparada de preços”, defendeu Van Direl, o regulador do mercado açucareiro no âmbito da Comissão Europeia, na reportagem.

Sobreoferta após 2017

Devido à atual escassez de açúcar no mercado internacional, explicado primordialmente pela influência negativa do fenômeno El Ninõ sobre as safras asiáticas, a commodity vem se valorizando na Bolsa de Nova York desde o início do ano. Ela valia US$ 0,1446 por libra-peso em janeiro; US$ 0,1574 por libra-peso na primeira semana de maio e, nos últimos dias do mês, os principais vencimentos operavam acima de US$ 0,17 por libra-peso, de acordo com o contrato nº11 ICE.

A situação atual do mercado pode levar uma reversão deste ciclo de alta depois de 2017, pondera a Datagro no seu relatório mais recente. A consultoria destaca um consenso do setor de que uma previsível “inundação do mercado com açúcar europeu” deve afetar a indústria sucroalcooleira, junto com o aumento da capacidade de moagem na Ásia e na África. Mais de 80% dos que responderam à enquete da conferência em Nova Iorque, por meio de um aplicativo especial, concordam com essa tendência, cujo risco maior é que os preços, desta vez por excesso de oferta, despenquem no futuro.

O presidente da Biosev, Rui Chammas, por exemplo, não duvida de que a animação com as cotações atuais possa levar a uma superoferta de açúcar. Para ele, a queda nos preços pode ocorrer já no ano que vem, segundo declarou à Globo Rural na sede da companhia, ligada à Louis Dreyfus Commodities. “O mercado é cíclico, e tem sua previsibilidade”, declarou o executivo.

Por enquanto, contudo, ele observa que as usinas brasileiras devem se beneficiar dos déficits acumulados nas safras de 2015/2016 e 2016/2017. A pressão maior da demanda mundial sobre uma oferta reduzida coincidiu com as melhores condições climáticas que beneficiariam, neste ano, a base produtiva do Centro-Sul do Brasil, responsável por 95% da produção nacional. “O custo de produção do País é o mais baixo. O novo açúcar virá naturalmente da nossa origem”, afirmou Chammas.

Segundo ele, o trade total de açúcar no mundo é de mais ou menos 50 milhões de toneladas e o consumo, de 180 milhões. “Há muita demanda cativa, então o que se exporta no mundo está na faixa de 50 milhões. O Brasil fornece metade disso. Metade do açúcar que flui no mundo sai do Brasil”, explicou Chammas.

Fonte: (Revista Globo Rural)

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