Semeadura de divisas

No futebol, independentemente dos resultados o Brasil redescobre sua arte em consoante: os erres percorrem atalhos e perpetuam o gol.

Na vida, o País se reencontra com suas raízes e se conscientiza que sua independência começa pelo início do alfabeto. O A de agricultura, de agroindústria e de agronegócio alimenta o nosso sonho de ver desperto o gigante adormecido em berço esplêndido.

Foi assim que me senti ao participar do 1º Congresso de Agribusiness nos últimos dias 12 e 13 de junho em São Paulo. Participei de debates, li artigos, conversei com muita gente, ouvi relatos de experiências e me rendi diante das estatísticas.

É bem verdade tratar-se da rendição de um predisposto. Afinal não raras vezes tenho defendido que o agronegócio é a nossa verdadeira vocação econômica. Mais do que carros, softwares, hardwares, nós sabemos mais do que ninguém lavrar a terra, plantar, colher, processar e tecer uma cadeia sofisticada de produtos e serviços em torno do que mais abundante temos nesse país continental: terra e água.

A “terra à vista”, lá dos primórdios gerou os primeiros agronegócios. Lá se foram milhares e milhares de hectares de pau-brasil num extrativismo primitivo. E desde então nossa história sempre teve as digitais dos produtos agrícolas em ciclos econômicos que ajudaram a talhar a trajetória de um povo: cana-de-açúcar, couro, fumo, cacau, borracha e café.

Da agricultura herdamos muitos dos nossos vícios coronelistas, cartoriais e patrimonialistas. Mas seu legado não se resumiu a defeitos. Apesar e até por causa deles desenvolvemos virtudes que nos garantem a certeza de que o futuro que nos aguarda – ali na esquina, é promissor e inevitável. Aprendemos com peculiar competência a aproveitar as dádivas do clima e soubemos desvendar os mistérios das terras menos férteis. Pesquisa, trabalho e competência nos abriram os cerrados, onde floresceu a soja e abrigou novas fronteiras para os canaviais. Temos por baixo cerca 90 milhões de terras agricultáveis a serem ocupadas com milho, soja, algodão, cana-de-açúcar, laranja, fruticultura, outras oleaginosas etc. Terras para gerar alimento capaz de saciar parte da fome do mundo. Terras com capacidade de gerar energia suficiente para nos libertar da égide do petróleo – finito, poluidor e concentrado em regiões conflituosas do planeta.

Hoje, os indicadores econômicos da agricultura já são fantásticos. A balança comercial agropecuária registrou saldo de US$ 14,74 bilhões de janeiro a dezembro de 2001, 28% a mais que o saldo do período anterior, de US$ 11,43 bilhões. Nesse mesmo espaço de tempo as exportações cresceram 14,73% em dólar e 30,95% em volume, resultando respectivamente em US$ 19,13 bilhões e 55 milhões de toneladas. Numa economia com números pífios de crescimento, a agricultura cresceu 8,65% em 2001. Nesse período vale destacar a performance do complexo soja, açúcar, couro, milho e algodão.

E o potencial é inimaginável. Há, no entanto, obstáculos e o principal deles é a globalização capenga que exclui os produtos agrícolas. Derrubar as barreiras protecionistas no âmbito da Organização Mundial do Comércio é uma tarefa imprescindível para que possamos explorar nosso potencial e crescer de forma sustentada.

O fato indiscutível é que “uma notícia vem chegando lá do interior…” e ao contrário do preconizado na música cantada por Milton Nascimento, já deu no rádio, no jornal, na televisão… e na internet. O mundo sabe e nos teme. O futuro nos pertence.

Arnaldo Jardim, deputado estadual – E-mail: arnaldojardim@uol.com.br

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