São Martinho vai ao BNDES buscar recursos para energia

A crise energética no País, exposta por problemas ocorridos desde o início da década, alertou o Grupo São Martinho para o desenvolvimento do mercado de energia elétrica com fontes renováveis. Das três usinas mantidas pelo grupo (São Martinho e Iracema, no interior de São Paulo, e Boa Vista, no interior de Goiás), a de Boa Vista detém hoje a maior capacidade de produção do insumo entre todas, e a produção deve dobrar até 2011, segundo o diretor financeiro da companhia, João Carvalho do Val.

“A Usina de Boa Vista é a que tem mais energia elétrica. Neste ano vendemos no mercado livre, mas em 2010 temos o primeiro leilão e a venda confirmada de 21 megawatts (MW)”, diz. A Usina de São Martinho, mais modesta, produz hoje apenas 5 MW. A energia, segundo Val, é gerada do vapor da fermentação da cana.

Os contratos de distribuição de energia para 2010 e 2011 já estão fechados – nos leilões serão assinados com! os compradores -, afirma ele, o que melhora o preço obtido com as vendas em contratos de longo prazo, normalmente de 15 anos. “No mercado livre eu acabo entrando no spot, e o preço da energia varia muito”. Para 2011 já foram vendidos 42 MW, o que gera mais receita, mas também mais investimentos. “Terei de aumentar a moagem da cana para dobrar a capacidade”, diz.

Boa Vista exigirá investimentos, que devem ser feitos já em 2010, de R$ 90 milhões para ampliação da capacidade dos atuais 2,5 milhões de toneladas de etanol por safra para 3,4 milhões. O dinheiro ainda não existe, mas o mais provável é que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que já emprestou recursos à empresa para estocagem da commodity durante a crise, faça o financiamento. “Ainda está em fase de estudos, mas devemos ter [o capital] aprovado até março.”

Mais embrionário ainda é o projeto de co-geração de energia elétrica na Usina de São Martinho, com potencial de 100 MW por s! afra e que demandaria R$ 400 milhões, mas sair do papel ainda levará tempo, segundo Felipe Vicchiato, gerente de Relações com Investidores. “Ainda não há nada concreto”, afirma.

Avessos a captações no mercado de capitais, os executivos da empresa classificam o BNDES de o instrumento mais conveniente para financiamentos. “Não lançaremos ações. Os acionistas estão satisfeitos e os recursos do BNDES são bastante convenientes”, diz Vicchiato. Os bancos comerciais também estão no bolo. Segundo Val, há um acerto com o HSBC para a liberação de R$ 20 milhões para capital de giro.

A retomada dos preços do etanol e o aumento da demanda externa por açúcar deve colocar novamente os papéis da empresa em ascensão, depois das fortes quedas – quase 60% em dezembro de 2008 – durante a crise financeira. “Com a melhora do preço e das vendas de etanol no mercado internacional, o preço dos papéis deve melhorar. Na crise, o setor inteiro caiu”, alerta Vichiatto, sem dar projeções numéricas! de quanto o ativo, que ontem fechou cotado a R$ 17,68, deve atingir no fim do ano – 70% das ações da São Martinho negociadas na BM&F Bovespa estão nas mãos de instituições.

A volatilidade do mercado de commodities imprime às empresas a necessidade de rápida adaptação. De olho na experiência provocada pela crise financeira, a companhia decidiu que as Usinas de São Martinho e Iracema dividirão, no curto prazo, a capacidade total de moagem para produzir quantidades equânimes – ou seja, 50% de etanol e 50% de açúcar. Atualmente, dos 8,5 milhões de toneladas produzidos por safra em São Martinho, 55% viram açúcar, enquanto dos 3 milhões gerados em Iracema, apenas 30% são etanol. Os 2,5 milhões de Boa Vista permanecem destinados exclusivamente ao combustível.

Para o diretor financeiro da companhia, os investimentos de R$ 18 milhões nas usinas paulistas permitirão a equiparação já na próxima safra. “Fizemos isso porque o preço do açúcar no mercado internacional está muito! bom e o retorno é rápido, em torno de seis meses. E porque com essa estrutura posso tirar o máximo de cada um dos ativos, não dependo tanto de um só mercado”, avalia.

Para financiar seus investimentos em energia elétrica, a produtora de álcool prefere tomar recursos no BNDES a captar no mercado.

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