A reinvenção da Petrobras

Não há, ainda, uma decisão, mas a Petrobras caminha para transformar a BR Distribuidora numa empresa de controle privado. É o único jeito, especialmente no momento em que a empresa é pivô daquele que é considerado o maior escândalo de corrupção da história, de atrair sócios e tornar a subsidiária uma companhia eficiente.

Desde a mudança de comando da estatal, no início de 2015, diversas consultas foram feitas ao mercado sobre um modelo de parceria com o setor privado para a BR. A resposta foi unânime: os investidores têm, sim, interesse em se associar à empresa, mas desde que possam ser controladores junto com a Petrobras. A venda, portanto, de uma participação minoritária, mantendo-se o controle nas mãos do governo, não interessa.

Que modelos de sucesso há no Brasil de empresas originalmente estatais com co-controle privado? BB Seguridade, Cielo e Brasilprev são três exemplos. Nessas companhias, o Banco do Brasil (BB) detém a maior fatia do capital total – 75% no caso da Brasilprev -, mas os sócios privados possuem a maioria das ações ordinárias, que dão direito a voto. Sendo empresas privadas, essas subsidiárias têm liberdade e orçamento para contratar os melhores profissionais, conquistar eficiência e competir.

O negócio é bom também para a Viúva. Num ambiente como o atual, qualquer investidor tem receio em ser sócio minoritário da Petrobras. Para ele, a BR vale 60, em vez dos 100 avaliados pelo governo. Digamos que se ponha à venda 40% do total e o novo sócio compre essa fatia integralmente, ou seja, 40% de 60, o que dá 24. No modelo em que o futuro acionista detenha o co-controle da empresa, seu valor de mercado será 100 e não os 60 calculados com desconto. Se vender 25% do capital total, a Petrobras arrecadará mais (25), tendo oferecido uma parcela bem menor da subsidiária.

O comando da Petrobras já fechou questão em torno do modelo em que a BR se torna uma empresa privada. Falta, ainda, convencer os escalões técnicos da estatal, receosos com a mudança – eles deveriam consultar seus colegas do Banco do Brasil.

A Petrobras vive momento curioso. Seus números são pavorosos. A empresa registrou em 2015 o maior prejuízo de sua história, mas há luz no fim do túnel. O que se assiste lá é um processo de arrumação, uma tentativa de mudança de mentalidade, que definirá a trajetória da empresa nos próximos anos e, talvez, décadas.

Movida por um preço espetacular de petróleo, e confiando que não cairia aos níveis atuais, a Petrobras tomou uma série de decisões equivocadas, inclusive, recentemente, quando a crise já era uma realidade – em 2013, decidiu investir em mais uma planta de fertilizantes, um negócio estranho à sua vocação original, que é explorar, produzir e refinar petróleo.

A Petrobras entrou também nos segmentos de biocombustíveis e etanol. Decidiu construir quatro refinarias ao mesmo tempo, sendo que, em duas (Premium Maranhão e Ceará), a nova diretoria deu baixa total; em outra (Comperj) baixou mais R$ 5 bilhões agora e, na maior de todas (Rnest ou Abreu e Lima), opera à metade da capacidade planejada. No Porto de Suape, criou uma subsidiária (Citepe), para fabricar polímeros e filamentos de poliéster e resina para embalagens PET, que só deu prejuízo desde a fundação.

Há inúmeros negócios onde a estatal não possui sócios – gasodutos, oleodutos, terminais de regaseificação, distribuição de combustíveis em vários países (Chile, Colômbia, Uruguai, Paraguai, Argentina) etc. A mentalidade precisa mudar: a estatal não necessita ser dona de tudo. Na exploração de petróleo da camada pré-sal, um negócio que vem se mostrando cada vez mais produtivo, tudo é feito em parceria com outras empresas, o que ajuda a dividir riscos.

Há coisas que parecem acontecer apenas à Petrobras. Um auditor fiscal aplicou uma multa bilionária, alegando que a lei usada pela estatal para justificar um procedimento fiscal é inconstitucional. Não houve decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito, mas o fiscal achou por bem antecipar-se.

As antigas diretorias faziam pouca provisão das perdas em questões tributárias classificadas no balanço como possíveis. O novo comando mudou essa prática e, por isso, o balanço de 2015 veio tão carregado de perdas nessa área. No ano passado, tirou proveito também de programas de anistia tanto do governo federal quanto estaduais, o que inflou os gastos.

O contencioso tributário segue impressionante – cerca de R$ 160 bilhões. A decisão da empresa é a seguinte: todas as causas onde não for feita provisão serão levadas à Justiça. A ideia é adotar uma visão que gere – para o acionista, o controlador e para quem compra bonds da Petrobras lá fora – uma previsibilidade, para eles saberem exatamente o que estão comprando e vendendo. De fato, com aumento da incerteza, o mercado exige mais prêmio de risco. A companhia só pode responder a isso com mais conservadorismo.

Na área trabalhista, o contencioso é igualmente gigantesco – estima-se algo em torno de R$ 20 bilhões. Mas, aqui, também “há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar”: como um dirigente sindical pode ter atuado como diretor de recursos humanos por anos seguidos? É o paroxismo do corporativismo e a conta é paga por todos – na Petrobras, definiu-se que um operador de refinaria deve ganhar três vezes mais que um ministro do STF!

Agente principal do escândalo que vem abalando as estruturas do poder em Brasília há quase dois anos e que deve ser, em última instância, o leitmotiv da crise que pode destituir o atual governo, a Petrobras é uma obesa em processo de rápido emagrecimento. Seu investimento foi cortado a menos da metade em 2015. Em 2016, a dieta continua. Daí, o plano audacioso de desinvestimento – de US$ 14,4 bilhões neste ano.

A palavra “custo” é compulsivamente citada nas reuniões de diretoria. Para 2016, a estatal trabalha com um preço médio do petróleo (Brent) de US$ 45 o barril. Para ser competitiva, precisa ter um custo entre US$ 35 e US$ 40, que é a faixa de preço com que se trabalha, internacionalmente, para o Brent no longo prazo. O pré-sal, cada vez mais produtivo, ajuda muito.

Pode soar “poesia numa hora dessas” um plano para reerguer a grande estatal. Não é não. Aconteça o que acontecer, a Petrobras precisará ser reinventada e esse processo, felizmente, já começou.

Fonte: (Valor)

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