Recomendações no uso de calcário e gesso em cana-de-açucar.

RESUMO

A resposta da cultura da cana-de-açúcar à aplicação de calcário vem sendo bastante estudada. O gesso em menor escala. Inúmeros trabalhos de pesquisa mostram a elevada tolerância da cana-de-açúcar aos fatores responsáveis pela acidez do solo. A correlação da produção com os teores de cálcio no solo foi mostrada por alguns pesquisadores.

O “Projeto Calagem”, trabalho desenvolvido por Benedini na Copersucar (Cadernos Copersucar – Nº16); definiu nova fórmula para recomendar calcário, níveis críticos de cálcio e magnésio no solo, possíveis respostas a maiores doses em solos com teores de cálcio baixo em profundidade; bem como necessidade de monitoramento de soqueiras em solos de baixa CTC.

A análise dos dados do trabalho de Penatti, também na Copersucar, confirma as proposições de Benedini. A resposta em produtividade a maiores doses que as recomendadas poderão aparecer em solos com baixos teores de cálcio no perfil. Por outro lado, solos com teores satisfatórios de cálcio + magnésio, mesmo que com Saturação em Bases baixa ou CTC elevada, não respondem à calagem.

Portanto, a fórmula da Copersucar ( NC=(3-(Ca+Mg))x100/PRNT ) é a mais econômica e tecnicamente a mais recomendada para definir doses de calcário para a cana-de-açúcar. Solos com baixos teores de cálcio no perfil responderão a maiores doses independentemente da CTC ou Saturação em Bases do solo.

Os trabalhos de pesquisa com gesso, visando quantificar os benefícios no aprofundamento de bases no solo, em especial o cálcio; devem isolar o efeito do enxofre como nutriente. Quando esse efeito é isolado, as vantagens do gesso aparecem em solos com teores extremamente baixos de cálcio no perfil, o que restringe bastante a sua utilização. Nunca utilizá-lo isoladamente. A sua utilização em solos férteis deve ser rigorosamente avaliada, pois pode acarretar em prejuízos na lixiviação de outros cátions, principalmente o potássio.

1 – INTRODUÇÃO: O uso de calcário em áreas cultivadas com cana-de-açúcar é rotineiro, principalmente após a expansão do seu cultivo para solos menos férteis, inclusive com aplicações também em soqueiras. O gesso, em menor escala, também vem sendo utilizado. A resposta da cultura à aplicação de calcário vem sendo bastante estudada, porém os critérios de recomendação de doses divergem. Com o objetivo de contribuir para um consenso e diminuir dúvidas entre usuários, elaboramos este trabalho.

2 – RESULTADOS DA PESQUISA COM CALCÁRIO:A pesquisa em cana-de-açúcar sobre calcário pode ser considerada extensa. Inúmeros trabalhos foram publicados e projetos de pesquisas desenvolvidos, especialmente pela Copersucar, a partir de 1980.

a) Trabalhos diversos:

Marinho e Albuquerque (1981), utilizando 21 ensaios de experimentos de campo, obtiveram boa correlação da produção relativa de cana com os teores iniciais de cálcio e magnésio do solo ao eliminarem quatro solos com teores de alumínio trocável superior a 1,3 meq/100cm3 que, apesar de possuírem cálcio + magnésio elevados, apresentaram respostas em produção; concluindo assim sobre os efeitos nocivos do alumínio trocável no solo.

Porém, com os dados do trabalho, observamos que a calibração exclusiva para o cálcio é significativa. Percebe-se que os teores de cálcio nos solos eliminados são baixos, apesar da soma cálcio + magnésio estar elevada devido aos altos teores de magnésio, pouco comum. Portanto, a resposta à calagem deveu-se ao adequado suprimento de cálcio e não, especificamente, à correção dos teores de alumínio no solo.

Esta mesma conclusão também foi obtida por Marinho e outros (1980) em casa de vegetação ao demonstrarem que a produção da cana, cortada aos cinco meses de idade, não foi afetada, quando suprida adequadamente com sulfato de cálcio (gesso), mesmo com teores de até 6,7 meq/100cm3 de alumínio no solo e pH de 4,1 meq/100cm3. Outros trabalhos também demonstram a elevada tolerância da cana-de-açúcar às condições adversas de solo.

Hetherington e outros (1986), na Austrália, trabalhando com 34 cultivares de cana de diversas origens, em solo com teores tóxicos de alumínio para outras culturas; concluíram que a cana-de-açúcar possui alta tolerância ao alumínio, não apresentando nenhum sintoma visível de toxidez nas raízes analisadas de qualquer um dos cultivares testados.

Haysom e outros 1986) trabalhando com solos ácidos e com altos teores de alumínio trocável, observaram que a resposta à calagem só surgia quando os teores de cálcio trocável estavam abaixo do nível crítico de 0,65 meq/100cm3, na profundidade de 0-25cm; concluindo que a recomendação econômica para o uso de calcário deve se basear no teor de cálcio trocável do solo até que se provem os efeitos nocivos do alumínio.

Martin & Evans (1964), em solução nutritiva, constataram restrição no crescimento radicular da cana quando exposta à concentração de 50 a 500 ppm de alumínio. Resultados semelhantes foram obtidos por Azeredo & Sarruge (1994), também em solução nutritiva, com teores menores que 10 ppm prejudicando alguns cultivares. Concluíram haver variação entre as variedades estudadas quanto à tolerância ao alumínio. Porém comentam também que, quando a cana é cultivada no campo, o alumínio não se constitui em fator limitante, pois as concentrações de alumínio na solução dos latossolos do Brasil, quando com teores satisfatórios de cálcio e magnésio, encontram-se normalmente em torno de 0,51 ppm; valores estes bem menores (mais de vinte vezes mais baixo) dos que apresentaram problemas em solução.

b) O “Projeto Calagem”:

b.1 – Resultados obtidos (níveis críticos de Ca+Mg).

Os resultados obtidos por Benedini (1988) no “Projeto Calagem” foram publicados nos Cadernos Copersucar Nº16, com o título de “Novo conceito no uso de calcário em cana-de-açúcar”. Trabalhando com dados de 11 ensaios próprios, instalados em usinas cooperadas e 13 da literatura; concluiu que a cultura da cana-de-açúcar é pouco sensível aos fatores que determinam a acidez do solo (pH, saturação em bases, saturação em alumínio e teores trocáveis de alumínio no solo) e que os teores de cálcio + magnésio e os teores de cálcio isoladamente no solo foram os fatores que determinaram a resposta da cana-de-açúcar ao uso de calcário, definindo níveis críticos de 1,4 meq/100cm3 de cálcio + magnésio no solo e de 1,0 meq/100cm3 de cálcio isoladamente, suficientes para atingir 97% da produtividade máxima esperada.

No mesmo trabalho, em outros 18 ensaios ainda não colhidos na época, demonstra a elevada e rápida lixiviação de bases na aplicação de doses elevadas de calcário (triplo da dose recomendada pelo método da saturação em bases), em solos que na maioria apresentavam baixa CTC (4 a 5 meq/100cm3). Cita que, na dose máxima (triplo), com apenas dois meses após a aplicação do calcário, os teores adicionais de cálcio + magnésio encontrados na segunda camada (25 a 50 cm) correspondia a 1,3 toneladas de calcário, representando 20% da dose aplicada de 6,5 ton/ha.

Quando mostrou a lixiviação em bases, o autor comenta que é provável que esta beneficie a cultura, nos solos com baixos teores de cálcio + magnésio em profundidade, podendo resultar em maiores produções que as esperadas pela correção apenas na camada arável, pois, vários trabalhos já demonstravam os benefícios no maior e mais profundo enraizamento das plantas com conseqüente melhor aproveitamento de água e nutrientes, quando o solo é corrigido em seu perfil quanto ao teor de cálcio.

b.2 – Fórmula recomendada.

Esses resultados culminaram na recomendação de calcário pela fórmula:

______________________________________

NC = (3-(Ca+Mg))x100/PRNT

______________________________________

A recomendação desconsidera o poder tampão do solo e os fatores responsáveis pela sua acidez. A elevação da saturação em bases no solo não apresentou boa correlação com a resposta da cultura à aplicação de calcário.

b.3 – Classes de teores de cálcio + magnésio.

As correlações obtidas para cálcio + magnésio e cálcio isoladamente permitiram classificar os teores no solo, conforme a tabela abaixo:

Classes de teores de cálcio + magnésio e cálcio (meq/100cm3)

Classes Ca + Mg Ca

Muito Baixa < 0,28 < 0,19

Baixa 0,28 a 0,60 0,19 a 0,43

Média 0,61 a 1,41 0,44 a 1,00

Alta 1,42 a 3,20 1,01 a 2,28

Muito alta > 3,20 > 2,28

Benedini recomenda também o monitoramento dos teores de cálcio + magnésio nos solos com CTC inferior a 5-6 meq/100cm3, pois esses solos não são capazes de reter teores satisfatórios desses cátions durante o ciclo da cultura (5 ou mais anos).

b.4 – Ratificando os resultados obtidos.

Como existe correlação positiva entre V% e Ca+Mg, é necessário haver uma distribuição proporcional de solos com diferentes Capacidades de Troca Catiônica quando estes forem estudados, pois em solos com baixa CTC; pequenas quantidades de cálcio + magnésio modificam significativamente a saturação em bases e nos de CTC elevada, somente altas quantidades desses cátions modificam o V%, devido ao seu alto poder tampão.

Partindo deste raciocínio, Benedini e Korndorfer (1992) analisaram nove ensaios de CTCs proporcionalmente distribuídas escolhidos de acordo com as faixas de CTC < 4,0 meq/100cm3; de 4 a 7 meq/100cm3 e > que 7 meq/100cm3. Concluem, mais uma vez que o Cálcio + Magnésio e Cálcio isoladamente são os parâmetros que melhor expressam a necessidade de calcário para a cana-de-açúcar, com valores de coeficientes de correlação para ambos os casos de 0,73. Para o Índice de Saturação em Bases e Saturação em Alumínio os coeficientes foram respectivamente de 0,22 e 0,12, confirmando que esses parâmetros não são satisfatórios na previsão da resposta da cana à aplicação de calcário.

b.5 – Resumo dos dados dos ensaios conduzidos.

A tabela 1 resume os dados dos ensaios do “Projeto Calagem”:

TABELA 1 – Resumo dos dados do trabalho de Benedini (1988) com calcário:

Obs: Ensaios de 1 a 11: incluídos na curva de calibração do “Projeto calagem”

Ensaios 12 a 23: lixiviação nas doses altas. Colhidos posteriormente

c) Outros trabalhos Copersucar.

Penatti (1993), objetivando estudar o gesso e confirmar os resultados obtidos para calcário por Benedini; trabalhou com 12 experimentos em cana planta e 7 em soqueiras, obtidos a partir de outro grupo de ensaios. Conclui que a fórmula da Copersucar é a mais indicada para a cana-de-açúcar, inclusive com análise econômica dos dados.

Porém, complementa nas recomendações que, solos com teores de cálcio menores de 0,4 meq/100cm3 quando com CTC maior que 7 meq/100cm3 devem receber 2,0 ton/ha a mais de calcário ou optar pela fórmula da saturação em bases.

Observa-se que os solos nos quais obteve estas conclusões, possuem baixos teores de cálcio em profundidade, enquadrando-se no caso de possíveis respostas às aplicações de maiores doses de calcário quando o solo apresentar baixos teores de cálcio + magnésio no perfil do solo.

Portanto, estes solos e outros, inclusive também os de CTC baixa com baixos teores de cálcio em profundidade; deverão apresentar respostas a maiores doses das recomendadas. Acreditamos, portanto, que a restrição imposta deva-se basear aos teores de cálcio no perfil do solo e não a CTC do solo.

O problema, porém, são as interpretações confusas nessas recomendações, pois alguns técnicos consideram que a Copersucar, através deste trabalho, passou a recomendar a utilização do método da Saturação em Bases para solos de CTC maior que 7 meq/100cm3, o que não foi o proposto. É necessário que o solo possua baixos teores de cálcio como bem citado pelo autor. O autor mostra em outros casos que solos de elevada CTC, quando com teores de cálcio + magnésio satisfatórios, apesar da baixa saturação em bases, não apresentam respostas em vários cortes para doses de até 6,0 ton/ha.

Gavioli e outros na Usina São Martinho onde também não observaram efeitos do calcário e gesso em soqueiras de cana em solo LR distrófico, com teores iniciais de cálcio + magnésio de 2,3 meq/100cm3 e saturação em bases de 29%, concordando com os resultados obtidos.

Na análise dos dados desses trabalhos fica claro que solos com elevada CTC que apresentam teores de cálcio + magnésio próximos ou acima dos definidos como críticos por Benedini, não respondem em produtividade, em vários cortes (Usina São Manuel), mesmo com saturação em bases baixas (20%). Aqueles com respostas deveram-se claramente à lixiviação de bases, devido aos teores de cálcio baixos em profundidade, apesar de satisfatórios em superfície (Usina São Luiz). A curva obtida para Cálcio + Magnésio, juntando-se aos dados de Benedini (1988), permanece praticamente a mesma.

Os trabalhos na Usina São Manuel (Latossolo Roxo textura argilosa distrófico e Latossolo Vermelho Amarelo textura muito arenosa) merecem comentários especiais. Vários ensaios foram instalados tais como calcário e gesso antes do plantio; calcário antes e gesso após primeiro corte e finalmente calcário e gesso após primeiro corte. No Latossolo roxo, apesar da saturação em bases ser baixa (20%), nenhum dos ensaios instalados responderam ao calcário e ao gesso, mesmo após os quatro cortes. Pela análise dos dados percebe-se teores satisfatórios de cálcio no perfil do solo, até um metro de profundidade, próximos a 1,0 emg/100cm3, sendo, portanto coerente a não resposta. Já no LVA, respostas surgiram, principalmente na análise conjunta dos quatro cortes. Analisando os dados, percebe-se o aprofundamento de bases, aumentando os teores de cálcio nas camadas de 50 a 100cm, que eram muito baixos (0,15 para 0,30 meq/100cm3), também concordando com os comentários anteriores.

Os efeitos do calcário e do gesso foram positivos e independentes, ou seja, cada um dos produtos apresentou individualmente respostas em produção. Sabe-se que o principal benefício do gesso é o fornecimento de cálcio e que ele não corrige a acidez do solo. Não era de se esperar retorno satisfatório isoladamente se a cana tivesse sensibilidade à acidez, o que provavelmente não aconteceria se a cultura estudada fosse sensível à acidez.

Na tabela 2 temos um resumo dos resultados dos ensaios conduzidos por Penatti.

TABELA 2 – Resumo dos dados dos ensaios de Penatti

3 – CONSIDERAÇÕES GERAIS: Até que novas pesquisas sejam realizadas e novos dados sejam obtidos, o Método Copersucar de recomendação de calcário é o mais indicado para prever a resposta da cultura da cana à aplicação de calcário. Porém, solos com teores insatisfatórios de cálcio no perfil, tanto de CTC baixa quanto elevada, apresentam respostas em produção a maiores doses de calcário das recomendadas, única e exclusivamente devido à lixiviação de bases, em especial o cálcio. Nesses casos, o Método Copersucar recomenda pouco calcário nos solos de CTC elevada e o da Saturação em Bases recomenda pouco para solos de baixa CTC.

Solos conhecidos como “Sangue de Tatu”, de elevada CTC, fazem parte desse raciocínio. Inúmeros outros solos fracos e arenosos de baixa CTC também. Porém, uma grande maioria dos solos de CTC elevada não responderá à calagem mesmo com saturação em bases baixa ou presença de alumínio no solo, devido, como já citado, aos teores satisfatórios de bases.

Após todas essas colocações, com inúmeras comprovações de dados de pesquisa, o método da Saturação em Bases não deve ser recomendado para a cultura da cana-de-açúcar. Este método recomenda, comparativamente, pequenas doses para solos de CTC baixa e doses exageradas e antieconômicas para solos de alta CTC.

Fique bem claro que o objetivo de todas estas considerações certamente não é o de criticar o método da Saturação em Bases, método este consagrado pelo Instituto Agronômico de Campinas e amplamente divulgado e recomendado. Sem dúvida nenhuma ele deve ser utilizado para a maioria das culturas que são sensíveis a variação do pH do solo (poder tampão) e também sensíveis aos níveis de alumínio tóxico.

4 – PESQUISAS COM GESSO: O uso de gesso como fornecedor de enxofre para as culturas possui resultados consistentes no aumento da produtividade e vem sendo bastante estudado. Por outro lado, trabalhos desenvolvidos no Brasil Central, em solos de cerrado, mostraram também efeitos importantes do gesso no aprofundamento radicular das plantas de milho, propiciando maior absorção de água e nutrientes das camadas mais profundas do solo. A partir desses resultados, o gesso passou a ser mais estudado.

É consenso geral que o gesso não substitui o calcário na elevação do pH do solo. A maior solubilidade e mobilidade do cálcio existente no gesso torna-o vantajoso em solos deficientes no elemento em profundidade. A neutralidade de parte de suas cargas propicia ao gesso maior lixiviação e com maior rapidez, atingindo camadas mais profundas em menor espaço de tempo.

Alcarde cita que o gesso comporta-se de maneira semelhante a qualquer outro fertilizante constituído de cátions e ânions como KCl, K2SO4 e Ca(NO3)2. A diminuição da atividade de outros cátions, em especial o alumínio, não é privilégio do gesso. Todo fertilizante que apresenta cátions e ânions e é decomposto quando aplicado ao solo, age dessa maneira. A particularidade do gesso é poder ser utilizado em quantidades superiores a dos demais adubos devido ao seu baixo custo.

Quando o objetivo principal é testar esses benefícios no aprofundamento de bases pela aplicação do gesso, alguns trabalhos ficam prejudicados por não isolarem o efeito nutricional do enxofre. Sabe-se também dos efeitos negativos do gesso quanto à lixiviação de outras bases trocáveis causando, em alguns casos, o empobrecimento do solo.

O baixo custo do nutriente cálcio contido no gesso é fator favorável à sua utilização. O calcário, no caso da cana-de-açúcar, muitas vezes apresenta teores elevados de magnésio que participa na reatividade do material, fazendo parte do cálculo do PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total). O gesso, nesses casos, entraria como um balanceador da relação Ca/Mg do solo, principalmente quando o calcário utilizado for o dolomítico que possui esta relação exagerada (1/1 em meq/100cm3).

Trabalho não publicado de Benedini na Usina Bonfim, com doses crescentes de gesso (até 4,0 ton/ha) na presença e ausência de calcário, objetivando testar seus efeitos no solo e no aumento da produtividade de cana; mostrou não haver aumento de produção, provavelmente devido aos teores satisfatórios de cálcio no perfil (até 80 cm), próximos a 1,0 meq/100cm3. O fornecimento de enxofre a todos os tratamentos impediu qualquer resposta a este nutriente. Porém, a aplicação isolada de gesso, causou acentuado empobrecimento de bases no perfil do solo até 80 cm, em especial o potássio, que praticamente foi eliminado do perfil. A lixiviação do magnésio e do potássio, quando na presença de calcário, foi menor mas também preocupante, mesmo na menor dose de 1,0 ton/ha. Outros autores citam efeitos semelhantes do gesso.

Possivelmente esta rápida perda de bases no perfil ocorreu devido às suas características químicas de pH pouco ácido e teores insignificantes de alumínio no perfil analisado. Sabe-se que a retenção do SO4– pelo solo ocorre de maneira semelhante ao fósforo, só que em menor intensidade, portanto é mais acentuada em solos mais ácidos. A presença de alumínio seria importante para a formação de AlSO4+ e outras formas complexas, liberando o cálcio para a solução. Se não existir alumínio, a lixiviação ocorre com maior intensidade.

É importante citar que o teor de argila do solo onde foi instalado o ensaio é de 65%, o que teoricamente dificultaria a lixiviação do gesso, fato não confirmado pois, após um ano e meio da aplicação, o gesso aplicado praticamente não foi encontrado no perfil, nas diferentes doses aplicadas. A precipitação pluviométrica no período foi de aproximadamente 1.500 mm, considerada normal.

Comparando calcário e gesso, Quaggio e outros (1982) cita que a movimentação em pulso caracteriza a lixiviação de bases provocada pelo gesso e a distingue da que ocorre com calcário, que além de ser mais lenta, é constante e gradual.

Trabalho, conduzido em casa de vegetação por Dal Bó e outros (1986) não mostrou efeitos benéficos da lixiviação de bases provocada pelo gesso na produção de massa verde, mesmo com teores de 0,40 meq/100cm3 de cálcio em profundidade, teores considerados baixos.

Trabalho não publicado na Copersucar, em solo extremamente pobre em cálcio até um metro de profundidade (0,1 meq/100cm3) constatou-se um maior desenvolvimento radicular da cana no perfil do solo no tratamento com calcário mais gesso (2,0 + 2,0 ton/ha) comparado ao com apenas calcário (4,0 ton/ha). As diferenças em produção surgiram apenas no quarto corte. Ambos os tratamentos foram bastante superiores à testemunha, apenas adubada.

Ritchey e outros (1983), trabalhando com soja em casa de vegetação, constataram severas restrições ao crescimento das raízes apenas quando os teores de cálcio se situavam abaixo de 0,02 a 0,05 meq/100cm3 e que teores de 0,2 meq/100cm3 de cálcio no solo, em ausência de alumínio, foram suficientes para o bom desenvolvimento radicular da cultura.

Resumidamente, as conclusões obtidas por Penatti (1994), são: Nos inúmeros ensaios conduzidos, não encontrou problemas com lixiviação de potássio; apesar de seus teores nos solos já serem baixos na maioria dos ensaios. Comenta as boas respostas em produtividade da cultura à aplicação do gesso, sendo estas, porém, mais modestas das encontradas por Morelli e outros (1992), possivelmente pelo fornecimento de enxofre (60 kg/ha) em todos os tratamentos dos ensaios. Cita que doses maiores que 5,0 ton/ha poderão prejudicar a cultura e que em cana soca o gesso tem efeito mais pronunciado que o calcário. Finalmente cita que as doses de gesso devem basear-se nas análises químicas da segunda camada do solo e que em solo argiloso deve-se aplicar até 3,0 ton/ha e arenoso até 2,0 ton/ha. A interação de calcário e gesso apresentou excelentes resultados e se completam, além de reduzir os custos da aplicação.

5 – RECOMENDAÇÕES: Após as considerações apresentadas e com base nas análises de trabalhos realizados pela pesquisa, recomendamos:

· O método Copersucar, NC = (3-(Ca+Mg))x100/PRNT, é o mais indicado para a recomendação de doses de calcário para a cana-de-açúcar.

· Solos com baixos teores de cálcio no perfil do solo (menores que 0,43 meq/100cm3 até um metro de profundidade), teores considerados baixos pela curva de calibração; deverão responder a maiores doses das recomendadas, sendo que a interação de doses de calcário com gesso (no mínimo 2/1) deverão apresentar os maiores retornos. Quanto menores forem os valores de cálcio no perfil do solo, maiores serão as possibilidades de respostas a maiores doses de calcário que as recomendadas.

· Casos extremos de baixa fertilidade no perfil (teores menores que 0,20 meq/100cm3 de cálcio) poderão responder economicamente, possivelmente até ao dobro da dose recomendada de calcário associada a doses pela metade de gesso. Essas doses elevadas dos produtos (5-6 ton/ha de calcário e 2,5-3,0 ton/ha de gesso), somente serão viáveis nesses casos extremos de solos muito pobres em cálcio em todo o perfil (até um metro), abaixo dos teores considerados muito baixo da tabela.

· A aplicação de gesso visando a lixiviação de bases fica limitada apenas a solos com baixos teores de cálcio em profundidade (menores que 0,4 meq/100cm3), o que restringe bastante a sua aplicação e que na maioria são solos arenosos e de baixa CTC. A exceção são os popularmente conhecidos por “sangue de tatu” que podem também ser de CTC elevada e argilosos.

· Não substituir, nem parcialmente, as doses recomendadas de calcário por gesso. Apenas complementar quando necessário. Nunca aplicá-lo isoladamente, a não ser em pequenas doses.

· Para o fornecimento exclusivo de enxofre, pequenas doses de gesso são suficientes (100 a 300 kg/ha) e deve ser recomendado para solos deficientes.

· Aplicação de calcário e/ou gesso em solos com teores satisfatórios de cálcio + magnésio no perfil do solo é desnecessária e certamente antieconômica, independentemente dos fatores responsáveis pela acidez do solo; além de poder ser perigosa no caso do gesso. A opção na aplicação de calcário em solos com teores satisfatórios de cálcio, mesmo sabendo-se da provável não resposta (rotação de culturas, por exemplo), deve ao menos ser isolada; eliminando o gesso, haja vista os maiores riscos deste produto.

· Solos podzolizados (situação pouco estudada pela pesquisa), com teores satisfatórios de cálcio em profundidade; possivelmente responderão menos à aplicação de calcário e gesso.

· Soqueiras de cana-de-açúcar instaladas em solos de baixa CTC, menores que 4-5 meq/100cm3, não são capazes de manter níveis satisfatórios de bases durante o ciclo; devendo ser monitoradas e receber calcário associado ou não com gesso, se necessário, após alguns cortes. Inclui-se nesses casos também os solos “sangue de tatu” que apesar de em alguns casos, apresentarem elevada CTC, também apresentam lixiviação exagerada de bases. Os níveis críticos definidos para cana planta podem ser seguidos também para as soqueiras. O gesso, pelas suas características, apresenta excelentes resultados nas aplicações juntamente com o calcário, em soqueiras carentes, de baixa fertilidade.

· Esses conceitos e recomendações se modificarão se surgirem, no futuro, variedades sensíveis à acidez do solo.

6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS: Sabe-se que essas colocações não podem ser consideradas como definitivas mas espera-se que auxiliem os produtores e profissionais de usinas e destilarias a decidirem sobre as melhores doses de calcário e gesso a serem aplicadas, obtendo maiores produtividade com menores custos. Calcário, principalmente, e gesso são sem dúvida, ferramentas imprescindíveis para a obtenção de maiores produtividade e também maior longevidade dos canaviais.

7 – LITERATURA CITADA:

AZEREDO, D.F. de & SARRUGE, J.R. Alumínio na produção de matéria seca em diferentes cultivares de cana-de-açúcar (Saccharum spp). Saccharum APC, São Paulo, 7(34):17-23, 1894.

BENEDINI, M.S. Novo conceito no uso de calcário em cana-de-açúcar. Cadernos Copersucar, Série Agronômica, 16. Centro de Tecnologia Copersucar, setembro, 1988.

BENEDINI, M.S; KOORDORFER, G.H. Comparação entre dois métodos de recomendação de calcário em cana-de-açúcar, 1992. STAB

DAL BÓ, M.A.; RIBEIRO, A.C.; COSTA, L.M.; THIEBAUUT, J.T.L. & NOVAIS, R.F. Efeito da adição de diferentes fontes de cálcio em colunas de solo cultivadas com cana-de-açúcar. Movimentação de bases no solo. Revista Brasileira Ciência do Solo, Campinas, 10:195-198, 1986.

HAYSOM, M.B.; HURNEY, A.P. & NIELSEN, R.J. The influence of lime on the acid soil of Gingham. Mackay. Australian Society of Cane Technologists, 1986, p.55-61.

MARINHO, M.L. & ALBUQUERQUE, G.A.C. de. Calibração de Ca+Mg no solo para a cultura de cana de açúcar em Alagoas. In: Congresso Nacional da Sociedade de Técnicos Açucareiros do Brasil, 2., Rio de Janeiro, 1981. Anais. V.3, Rio de Janeiro, STAB. 1981, p. 111-128.

MARINHO, M.L.; ARAÚJO Fo, J.T. de & MENEZES, C.R.L. de. Comportamento da cana-de-açúcar (Saccharum spp) sobre diferentes teores de alumínio no solo em casa de vegetação. In: Reunião Brasileira de Fertilidade do Solo, 14., Cuiabá . Resumos. Rio Largo, IAA/Planalsucar. COONE, 1980. 5p.

MARTIN, J.P. & EVANS, H. Nutritional deficiencies and toxicity. In: Hugler, C.G.; Abbott, E,U.; Wismer, C.A. eds. Sugar Cane Diseases of World. Amsterdam, Elsevier, 1964. V.2, p.199-236.

MORELLI, J.L; NELLI, E.J. DEMATTE, J.L.I. & DALBEN, A.E. Efeitos do gesso e do calcário nas propriedades químicas de solos arenosos álicos e na produção de cana-de-açúcar. In: Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, 21., Campinas, 1987, p.96. Programas e Resumos. Campinas, Sociedade Brasileira de Ciência do solo, 1987.

PENATTI,C.P. Calcário e gesso em cana-de-açúcar, V Seminário Copersucar de Tecnologia Agronômica, Piracicaba, SP, 1994.

RITCHEY, K.D.; SILVA, J.E.; & SOUSA, D.M.G. Relação entre o teor de cálcio no solo e desenvolvimento de raízes avaliado por um m‚todo biológico. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 7:269-75, 1983.

QUAGGIO, J.A.; DECHEIN, A.R. e RAIJ, B. van. Efeitos da aplicação de calcário e gesso sobre a produção de amendoim e lixiviação de bases no solo. Revista Brasileira Ciência do Solo, 6:189-94, 1982.

Mauro Sampaio Benedini, engenheiro agrônomo

(16) 9962.7070 – e-mail: msbenedini@biocontrol.com.br

Copyright© 2000 – Cana Web/JornalCana. Todos os direitos reservados.

É proibida reprodução, cópia ou disponibilização pública sem autorização.

X