Real fraco ainda tem pouco efeito nas exportações

A desvalorização do real em relação ao dólar, de cerca de 10% acumulada nos últimos 30 dias, e a perda de valor da moeda americana em relação ao euro, de quase 5% nesse mesmo período, parece ser insuficiente para levar os grandes exportadores brasileiros a sonhar mais alto com as vendas externas no curto prazo. O produto nacional ficou mais competitivo no exterior, mas isso não indica aumentos significativos de receita de exportação. Quem exporta manufaturados, produtos de consumo ou bem de capital, negocia preços e quantidades em contratos de longo prazo que não são afetados por mudanças nas cotações das moedas. Já as empresas que comercializam as commodities, cujos negócios são fechados no dia a dia, não conseguem embolsar o ganho advindo da diferença de cotação entre as moedas porque normalmente nessas horas os clientes pressionam por descontos.

“Toda vez que há uma desvalorização, o importador quer dividir o ganho cambial”, afirma o presidente do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais (IEEI), Gilberto Dupas. Ele pondera também que as vantagens competitivas que poderiam ser obtidas com vendas para a Europa acabam sendo limitadas por conta de um crescimento econômico menor.

Como o comércio internacional é uma via de duas mãos, os europeus exportam menos porque seus produtos estão mais caros em dólar para o resto do mundo.

Com isso, têm crescimento econômico menor e acabam comprando menos, explica Dupas. Segundo ele, é preciso considerar também as oscilações do câmbio de outros países que pode estar desvalorizado em relação às moedas fortes, como o dólar e o euro, e reduzir as vantagens competitivas dos produtos brasileiros.

Em commodities como café e acúçar, o efeito dos descontos já é sentido. “No café, os importadores estão chorando descontos que oscilam entre 3% e 4%”, conta o sócio da corretora Libra, especializada em commodities agrícolas, Carlos Murilo Pereira de Mello.

No caso do açúcar, Alexandre Aidar, diretor comercial do Grupo Cosan, que exporta 90% de 1,3 milhão de toneladas de açúcar por ano para Oriente Médio e África, explica que o desconto se dá indiretamente. Como o produto é cotado em dólar na bolsas internacionais e o Brasil é o maior exportador mundial, com desvalorização do real em relação ao dólar aumenta a oferta do produto e as cotações automaticamente caem no mercado. Com isso, a competitividade proporcionada pelo câmbio é anulada. Ele pondera também que o consumo de açúcar não cresce porque o produto ficou mais barato em dólar. (O Estado de SP)

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