Reajuste até 10% alivia problemas financeiros da Petrobras

Analistas do mercado financeiro enxergam uma oportunidade para o governo autorizar um reajuste de 4% a 10% dos preços do diesel e da gasolina vendidos pela Petrobras a partir da redução das tarifas de energia elétrica. Em março começam a ser repassadas para as faturas dos consumidores a redução média de 20,2% no custo da geração da energia hidrelétrica, cuja lei foi sancionada na segunda-feira pela presidente Dilma Rousseff. Nem as tentativas de negar o reajuste pelo ministro interino da Fazenda e secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, convenceram o mercado de que não haverá um reajuste.

Entre os que acompanham a Petrobras, a avaliação é de que não será possível continuar segurando preços dos combustíveis para conter a inflação, dado o estresse no caixa da estatal de petróleo causado pelo aumento das importações, principalmente de gasolina, no último trimestre do ano, quando o consumo de gasolina no país costuma aumentar.

“Esse ajuste não resolve os problemas financeiros da Petrobras, mas pode reduzi-los um pouco”, afirmam em relatório os analistas Paula Kovarski e Diego Mendes, do Itaú BBA, que vêm uma janela de oportunidade em março. Eles ainda observam que, “se o preço internacional do petróleo não cair e o real continuar se depreciando frente ao dólar, a pressão por um novo reajuste vai aumentar”.

O próximo aumento vai ser sentido no bolso, e na inflação, agora já não existe colchão para amortecer o preço por meio da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), agora “zerada”. Por outro lado, um aumento poderá ajudar o mercado de etanol, que deixou de competir com os preços subsidiados do derivados de petróleo. Em 2012, quando aprovou seu plano estratégico, a Petrobras contava com um “ressuscitamento” do mercado de etanol para reduzir as pressões sobre os combustíveis comercializados por ela.

Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o aumento do percentual de álcool anidro “praticamente zeraria a importação de gasolina pela Petrobras”.

O especialista defendeu que a Petrobras aplique ainda em janeiro o reajuste dos preços da gasolina e do diesel. “A data ideal para o governo aumentar seria a partir desta semana, depois de a presidente ter sancionado a lei da renovação das concessões. No ano passado, o governo perdeu a oportunidade de fazer o reajuste no início do ano. Aí o PIB não cresceu e a inflação aumentou mais do que deveria”, disse Pires.

O analista Lucas Brendler, da Geração Futuro, disse que o reajuste no preço dos combustíveis pode ser aprovado ainda em fevereiro. “A expectativa [para o reajuste] é muito grande. O aumento do preço precisa ocorrer para equilibrar as contas da Petrobras”, disse o especialista ao Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor. A correção dos preços dos combustíveis no mercado interno é fundamental para dar sustentabilidade financeira ao ousado plano de negócios 2012-2016 da Petrobras, que prevê investimentos de US$ 236 bilhões no período.

Segundo Brendler, será necessário reajuste de pelo menos 10% para a gasolina e o óleo diesel, com o intuito de compensar a defasagem entre os preços internacionais – pelos quais a estatal importa os combustíveis – e os valores praticados no mercado doméstico.

“A demanda por novos carros no país cresceu muito nos últimos anos. E a capacidade de refino da Petrobras está no limite”, afirmou Pedro Galdi, analista de petróleo e energia da SLW Corretora. Galdi trabalha com uma expectativa de aumento de 7,5% para os preços da gasolina e 10% para o diesel. Ele, no entanto, ressalta que esses valores não eliminarão a defasagem dos preços, que está na faixa de 10% para a gasolina e 30% para o diesel.

Segundo o especialista da SLW, a Petrobras poderá ser beneficiada com a decisão do governo de elevar, de 20% para 25%, a participação do álcool anidro na gasolina. A medida deverá ocorrer ainda neste primeiro semestre, possibilitada pelo aumento de 5% na safra da cana-de-açúcar neste ano, em comparação com 2012. Ele, porém, não soube precisar quanto o aumento do teor de álcool no combustível permitirá a Petrobras reduzir a importação de gasolina.

O diretor do CBIE estimou um reajuste, de 6% a 8%, no preço da gasolina e, de 4% a 6%, no preço do diesel. Ele, no entanto, disse que, para eliminar a defasagem em relação aos preços praticados no mercado global, o governo deveria aplicar reajuste da ordem de 13% no preço dos dois combustíveis. Já o Itaú BBA espera um aumento dos preços da gasolina e do diesel de 10% e 5%, respectivamente.

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