Quinze grupos dominam produção de etanol

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O etanol, feito de cana-de-açúcar e milho, representa hoje 82% do mercado mundial de biocombustíveis. Dominado por EUA e Brasil, que têm quase 90% da produção total, a estrutura da produção do combustível se baseia em uma rede de relacionamentos bem urdida, com forte lobby das instituições que representam os usineiros para a aprovação de regras que beneficiem a indústria. Esses relacionamentos se tornam cada vez mais importantes para essa indústria, à medida que o benefício ambiental do combustível está sendo colocado em xeque, em favor de outras opções, como o carro elétrico.

O desenvolvimento do sistema de lobby do etanol foi facilitado pelo fato de o negócio estar concentrado na mão de poucos poderosos empresários – o que abre espaço para a criação dos chamados “czares” do setor. Segundo pesquisa do New England Center for Investigative Reporting e da ONG Connectas, 15 empresas detêm o reinado da produção de etanol no continente americano. A americana ADM é a líder isolada, seguida da brasileira Copersucar e de companhias como Poet e Valero Renewable Fuels, na América do Norte, e negócios como Odebrecht Agroindustrial e Raízen, no Brasil. Em vários casos, esses negócios se baseiam na figura de um forte líder.

Foi o poder desses “czares” com as esferas mais altas do poder que assegurou ao produto uma fatia importante do mercado de combustíveis americano e brasileiro. Hoje, a mistura mínima do álcool combustível à gasolina no Brasil é de 20%, enquanto nos Estados Unidos o porcentual é de 10%. Países “emergentes” nesta indústria do etanol, como Peru e Colômbia, também já asseguraram a mistura de etanol a derivados de petróleo, na proporção de 7,8% e 8%, respectivamente.

Nos dois países que dominam atualmente o mercado de etanol, a história deste mercado começou a ser construída no início dos anos 70, época da primeira grande crise do petróleo. Os EUA, que já tinham tido algumas experiências de produção de etanol de milho nos anos 40, voltaram a flertar com a experiência, com agricultores do Nebraska pedindo ajuda do governo. Já o Brasil criou em 1975 o Proálcool, programa do governo militar para reduzir a dependência do petróleo importado.

Craig Cox, da Environmental Working Group, uma organização não governamental americana focada em saúde e meio ambiente, se opõe a políticas favoráveis ao biocombustível produzido com milho. “A indústria de etanol gasta milhões de dólares contratando lobby para expandir o uso de seu produto”, afirma. “Não estamos convencidos de que os biocombustíveis são tecnicamente ou ambientalmente uma boa opção.”

No Brasil, a indústria da cana-de-açúcar também se esmera na criação de bons relacionamentos. Nas últimas eleições municipais, os registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que os principais industriais de etanol do País doaram pelo menos US$ 2,7 milhões a partidos políticos – especialmente em São Paulo, líder na produção de cana no País. Copersucar e Cosan lideraram essa lista, com montantes de US$ 525 mil e US$ 422 mil, respectivamente.

O lobby do etanol também ajudou as indústrias do setor a conseguir ajuda de entidades internacionais a seus projetos, aponta a pesquisa do New England Center for Investigative Reporting e da ONG Connectas. Nos Estados Unidos, durante anos os produtores de milho foram beneficiados por uma taxa que praticamente inviabilizava a entrada de etanol estrangeiro no mercado americano. O Brasil, por sua vez, conseguiu vender bem o apelo “verde” do etanol internacionalmente. Com um montante de US$ 988 milhões, o Brasil é o principal destino de créditos de organismos multilaterais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Viabilidade. Mesmo com tanto apoio, o ano de 2012 foi difícil para a indústria mundial de etanol. No Brasil, por exemplo, o mercado não conseguiu produzir o suficiente para atender à demanda de mercado, obrigando o governo a ampliar drasticamente a importação do produto. Atraídas pela alta do preço do açúcar no mercado internacional, as usinas acabaram perdendo uma fatia de mercado que haviam conquistado: o governo reduziu a mistura de etanol à gasolina de 25% para 20%.

Nos Estados Unidos, a seca de 2012 – uma das piores da história, segundo o National Climatic Data Center – também afetou a indústria do etanol de milho. O Estado de Iowa concentra 28% da produção americana do combustível e não conseguiu expandir sua produção pela primeira vez em dez anos, segundo a Iowa Renewable Fuels Association (IRFA). Houve até empresas que, diante dos prejuízos, tiveram de suspender temporariamente a produção. Foi o caso da Valero Energy, que fechou temporariamente usinas no Nebraska e em Indiana. A empresa perdeu US$ 73 milhões no terceiro trimestre do ano passado.

A expectativa é que, em 2013, o mercado de etanol se recupere. No Brasil, a indústria acredita que conseguirá retornar ao patamar de 25% de mistura à gasolina. Enquanto isso, as usinas continuam a incentivar políticas que impulsionem a venda de automóveis, ao mesmo tempo em que tentam expandir seu terreno para outras áreas, como o transporte aéreo, com o apoio de companhias como British Airways, Lufthansa e Air France/KLM.

Iniciativas pontuais à parte, a incerteza sobre o futuro do etanol ainda permanece, tanto por causa de sua dependência de estímulos externos quanto pela perda de apoio ao selo “verde”, que durante anos foi uma plataforma importante de diferenciação para essa indústria.

Com muito lobby e apoio oficial nos EUA e no Brasil, o etanol se tornou a mais viável alternativa ao petróleo, mas ainda enfrenta dificuldades para se firmar.

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