Produção estagnada e preço em elevação

Uma das principais apostas do governo para melhorar a matriz energética do país está no foco das atenções. A interrupção de investimentos e a estagnação na produção de etanol, ocasionadas pela crise econômica mundial, elevaram os preços do combustível e, na maioria dos estados brasileiros, é mais vantajoso abastecer com gasolina. Em janeiro, fim da safra 2010/2011, o valor médio cobrado nos postos subiu 4%. A expectativa dos empresários é que, mesmo após a entresssafra, os preços continuarão altos. Em São Paulo, maior mercado consumidor, o álcool custa em média 55% da gasolina. Este ano, porém, deve ficar em torno de 65%.

O representante da União da Indústria d e Cana de Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto (SP), Sérgio Prado, admite que a instalação de novas usinas caminha na direção contrária do crescimento da produção automotiva. “O aumento da capacidade de moagem não vai acompanhar a proporção dos carros. Há um descasamento entre a necessidade de etanol e a disponibilidade”, avalia. A moagem de cana-de-açúcar da safra 2010/2011 no Centro-Sul rendeu 25,34 bilhões de litros, 7% a mais do que no período anterior. Já as vendas domésticas de carros flex avançaram 10,2% em 2010, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Os investimentos previstos pelo setor só diminuem. Para a safra 2005/2006, nove usinas foram instaladas no país e o parque industrial foi ampliado nos anos seguintes, atingindo o pico de expansão na safra 2008/2009, com 30 novas fábricas. A falta de crédito causada pela recessão inverteu essa trajetória. Para o próximo período de produção (2011/2012), a estimativa é de que apenas cinc o usinas sejam abertas. “O ciclo forte de expansão que veio antes da recessão solapou as empresas. A maior parte delas estava sem caixa ou endividada por ter aumentado sua produção”, relembra Prado. “O desafio é retomar os investimentos. Acreditamos que há condições para que eles aconteçam.”

Concentração Além da estagnação, a crise financeira aumentou a concentração do setor, quando as empresas mais afetadas acabaram sendo compradas por companhias maiores. O que poderia parecer, à primeira vista, uma ameaça ao consumidor, pode ser a saída para a recuperação, na visão de Prado. “Com isso, cresceu a atratividade para grandes empresas, o que vai fortalecer o segmento. Grupos como a Bunge, Shell e a própria Petrobras estudam trabalhar com o etanol. Essas companhias não entrariam nessa empreitada se as chances fossem ruins”, pondera.

Para o diretor-executivo da consultoria Ecoflex Trading, Marcelo Andrade, outra chance de impulsionar a produção é aumentar os esforços f eitos pelo governo brasileiro e de outros países, como os Estados Unidos, que concorre diretamente com o Brasil no mercado externo, para transformar o etanol em commodity (produto com preço cotado internacionalmente). Para isso, afirma, há um difícil caminho a ser trilhado. “Temos muita lição de casa para fazer. Um exemplo é como encontrar um meio de aumentar a liquidez do etanol na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F)”, assinala.

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