Potencial da energia de biomassa é subaproveitado

Com peso de cerca de 20% na matriz de energia do Brasil, principalmente por conta do etanol que abastece grande parte da frota de carros e caminhões, a cana-de-açúcar poderá aumentar sua importância energética no país. De um lado, a eletricidade vinda dos canaviais poderá ampliar sua presença na geração de energia elétrica em um momento em que há dificuldade para construir hidrelétricas com grandes reservatórios. De outro, o etanol de segunda geração é essencial para que o país possa atender à crescente demanda pelo combustível, que poderá saltar dos atuais 22 bilhões de litros para algo entre 47 ou 68 bilhões em 2020.

Desde a década de 1990, por conta de pressões ambientais, o Brasil, que tem grande parte de seu potencial hídrico na região Norte, tem privilegiado investimentos na construção de usinas hidrelétricas a fio d´água, ou seja, sem grandes reservatórios de armazenagem, ao contrário do que se via nas décadas de 1970 e 1980. “Antes, tínhamos reservatórios que permitiam que pudéssemos guardar água por dois ou três anos. Sem isso, viramos reféns da chuva”, afirmou o físico José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), durante o seminário.

Para aumentar a segurança no abastecimento, o governo tem recorrido à geração de gás natural para térmicas e já sinalizou com a contratação de carvão para construir novas usinas nos próximos anos. “A sustentabilidade da matriz elétrica, hoje calcada na geração hidrelétrica, está em xeque, o que evidencia a importância de se investir em biomassa de cana de açúcar para gerar eletricidade”, destacou. Hoje o país tem uma matriz baseada em fontes renováveis: quase 50% da matriz de energia brasileira é oriunda de fontes limpas, enquanto no mundo 78% da energia vem de combustíveis fósseis. Diante desse cenário em que a disponibilidade de gás ainda é incerta, avançar com a bioeletricidade poderia manter a matriz brasileira verde e ampliar a segurança no abastecimento, disse o físico.

A potência instalada do setor sucroalcooleiro está estimada em cerca de 5 mil MW, mas há potencial para que ela dobre e chegue a 10,2 mil MW em 2020. Além de ser uma fonte renovável, a energia elétrica vinda dos canaviais tem duas outras vantagens: as plantações e usinas estão localizados no Centro-Sul, próximas dos principais centros consumidores, e existe complementariedade entre essa fonte de energia e a hidrelétrica, já que a safra de cana coincide com o período seco dos reservatórios.

“O Brasil tem 200 milhões de cabeças que pastam em cerca de 200 milhões de hectares, o que dá uma cabeça por hectare. Em São Paulo, com um aumento de apenas 20% nessa densidade, foi possível expandir a geração de energia e o plantio de cana sem pressões ambientais”, afirmou Goldemberg.

O etanol celulósico, chamado de segunda geração e cujo processo de produção está baseado em enzimas e no uso de bagaço e palha para produção de combustível, será essencial para que o país possa acompanhar o aumento da demanda. Em 2012, o país registrou um déficit de 4,6 bilhões de litros no etanol hidratado. Esse déficit poderá aumentar quase cinco vezes até o fim da década, diante do consumo em ascensão e de estagnação da produção atual por conta da política de combustíveis do governo, que tem evitado reajustes no preço da gasolina.

“O etanol de segunda geração será essencial para atender à demanda”, afirmou Bernardo Gradin, presidente da GranBio.

A empresa está construindo uma planta, em Alagoas, voltada à segunda geração do combustível, com capacidade para 82 milhões de litros e que deverá entrar em operação no primeiro semestre de 2014.

Para o vice-presidente da divisão sucroenergética da Raízen Pedro Mizutani, a tendência é de os custos de produção de combustível de segunda geração possam cair com o aumento de escala ao longo desta década. A empresa investe numa planta para produzir, em 2014, 40 milhões de litros do biocombustível em Piracicaba (SP).

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