Petróleo: cada vez mais caro e escasso

Em 1973, percebemos, pela primeira vez, que o Brasil havia construído a sua civilização e o seu sistema de transporte na dependência do petróleo. À época, gastávamos em torno de 800 mil barris diários. Os estoques eram suficientes para apenas três meses de consumo e a nação brasileira estava escravizada a um só energético.

Silenciados os canhões no Oriente Médio, ficou pairando sobre os brasileiros a extrema vulnerabilidade brasileira.

Nos dias atuais, apesar do desenvolvimento havido, a produção interna alcança em torno de 60% das nossas necessidades e continuamos importando 40% para o refino e derivados, com um dispêndio de US$ 7 bilhões, no ano transcorrido, após ter batido por duas vezes no teto dos US$ 30/barril, ao longo de 2001. As nossas reservas seriam suficientes para os próximos 17 anos.

A maioria dos analistas concorda que o petróleo continua sendo uma fonte finita, começando a se esgotar, a partir de 2010, após alcançarmos o pico de produção. Na obra publicada pela Princeton University, o geólogo Kenneth S. Deffeyes enfatiza que isso não significa o esgotamento súbito das reservas, embora mantido o ritmo atual do consumo, dificilmente durarão mais de 40 anos. Em 1956, M. King Hubbert, nos laboratórios da Shell, em Houston, chegara a prever que a produção de petróleo nos EUA iniciaria a declinar no início da década de 70. Com efeito, a produção de petróleo americana alcançara o seu pico em 1970, começando a cair, logo após.

Por outro lado, a expectativa é de que a colheita da safra de cana de 2002/03 atinja 330 milhões de toneladas em todo o País, o suficiente para a fabricação de mais de 12 bilhões de litros de álcool e 20 milhões de toneladas de açúcar. Os professores da Universidade de Brasília (UNB), Gilberto Vasconcelos e Bautista Vidal, acentuam: “O que impede a nossa independência energética e a posterior exportação de energia seria a mente colonizada dos nossos dirigentes, que preferem implementar pacotes tecnológicos importados dos países ricos a desenvolver potencialidades energéticas”.

Portanto, o Brasil é uma das únicas nações do planeta, com efetivas condições de substituir, pelo álcool da cana-de-açúcar e óleos vegetais, 100% da gasolina e do diesel, que consumimos. Para tanto, não necessitamos de tecnologia externa, máquinas importadas, capitais ou recursos humanos de outros países.

Quando ainda se tenta colocar em dúvida, com discussões bizantinas, a eficiência do álcool combustível, é sempre bom recordarmos algumas experiências exitosas. Os foguetes alemães, por exemplo, as famosas bombas voadoras da Segunda Guerra Mundial, usavam álcool produzido a partir de batatas, assim como os primeiros foguetes, lançados pelos americanos no Cabo Kennedy. Nas corridas de automóveis especiais, que se realizavam alguns anos atrás, vários carros bateram recordes mundiais nas pistas de Salt Lake City, usando álcool 100% como combustível. O engenheiro alemão Otto, nos seus primeiros modelos, utilizou o álcool. A era do petróleo barato fez com que todo o desenvolvimento de motores fosse voltado a este combustível fóssil.

O carro a álcool trouxe a independência da engenharia automotiva brasileira. Ademais, duas evidências merecem destaque nas virtudes do carro a álcool: a inquestionável redução do CO (monóxido de carbono) e a não contribuição para o agravamento do efeito estufa (CO²). A poluição do ar, a chuva acida e o aludido efeito estufa decorrem, inquestionavelmente, da queima de combustíveis fósseis nos motores dos veículos.

Em decorrência, o governo deveria aprofundar as investigações para o desenvolvimento de um motor original e específico para o álcool, visando a elevação da eficiência e redução do consumo. Até agora, 27 anos após a criação do Proálcool, os carros a álcool incorporam apenas a evolução tecnologia dos seus similares acionados à gasolina.

Não é justificável, desta forma, o atual desinteresse dos produtores de veículos brasileiros no tocante ao veículo a álcool, que já alcançou uma frota de mais de 5 milhões de veículos produzidos entre nós. Hoje, têm uma participação de apenas 1% das vendas totais dos veículos leves no Brasil, insuficiente, desta forma, para contrabalançar um sucateamento anual de 350 mil carros. Um carro movido a gasolina (graças à mistura dos 24% de álcool anidro) gera na cadeia industrial 7 empregos, enquanto o veículo a álcool emprega 30 pessoas, principalmente no interior do Estado. Em decorrência das suas vantagens colaterais e das externalidades positivas do álcool combustível, não se deve ignorar a imprescindibilidade de adoção de mecanismos de sustentação à indústria alcooleira.

Em recente entrevista à imprensa, o consagrado cientista, Rogério Cerqueira Leite, acentua que: “O petróleo e o gás natural vão acabar logo, são finitos. Economizar energia será, no futuro imediato, a tendência natural da humanidade, já que o produto tende a ficar cada vez mais caro e raro”

Petróleo é produto estratégico e poderá faltar num futuro remoto. É preciso, desta forma, que seja efetuado o adequado planejamento estratégico do setor de combustíveis pelos setores competentes governamentais, o que há décadas está sendo reclamado, bem como o aproveitamento da vocação natural brasileira de produzir energia limpa e renovável, como é o caso da biomassa e da cana-de-açúcar.

Luiz Gonzaga Bertelli, presidente executivo do CIEE., Diretor da FIESP/CIESP e da Associação Comercial de SP – ACSP

E-mail: lgbertelli@uol.com.br

Petróleo: cada vez mais caro e escasso

Em 1973, percebemos, pela primeira vez, que o Brasil havia construído a sua civilização e o seu sistema de transporte na dependência do petróleo. À época, gastávamos em torno de 800 mil barris diários. Os estoques eram suficientes para apenas três meses de consumo e a nação brasileira estava escravizada a um só energético.

Silenciados os canhões no Oriente Médio, ficou pairando sobre os brasileiros a extrema vulnerabilidade brasileira.

Nos dias atuais, apesar do desenvolvimento havido, a produção interna alcança em torno de 60% das nossas necessidades e continuamos importando 40% para o refino e derivados, com um dispêndio de US$ 7 bilhões, no ano transcorrido, após ter batido por duas vezes no teto dos US$ 30/barril, ao longo de 2001. As nossas reservas seriam suficientes para os próximos 17 anos.

A maioria dos analistas concorda que o petróleo continua sendo uma fonte finita, começando a se esgotar, a partir de 2010, após alcançarmos o pico de produção. Na obra publicada pela Princeton University, o geólogo Kenneth S. Deffeyes enfatiza que isso não significa o esgotamento súbito das reservas, embora mantido o ritmo atual do consumo, dificilmente durarão mais de 40 anos. Em 1956, M. King Hubbert, nos laboratórios da Shell, em Houston, chegara a prever que a produção de petróleo nos EUA iniciaria a declinar no início da década de 70. Com efeito, a produção de petróleo americana alcançara o seu pico em 1970, começando a cair, logo após.

Por outro lado, a expectativa é de que a colheita da safra de cana de 2002/03 atinja 330 milhões de toneladas em todo o País, o suficiente para a fabricação de mais de 12 bilhões de litros de álcool e 20 milhões de toneladas de açúcar. Os professores da Universidade de Brasília (UNB), Gilberto Vasconcelos e Bautista Vidal, acentuam: “O que impede a nossa independência energética e a posterior exportação de energia seria a mente colonizada dos nossos dirigentes, que preferem implementar pacotes tecnológicos importados dos países ricos a desenvolver potencialidades energéticas”.

Portanto, o Brasil é uma das únicas nações do planeta, com efetivas condições de substituir, pelo álcool da cana-de-açúcar e óleos vegetais, 100% da gasolina e do diesel, que consumimos. Para tanto, não necessitamos de tecnologia externa, máquinas importadas, capitais ou recursos humanos de outros países.

Quando ainda se tenta colocar em dúvida, com discussões bizantinas, a eficiência do álcool combustível, é sempre bom recordarmos algumas experiências exitosas. Os foguetes alemães, por exemplo, as famosas bombas voadoras da Segunda Guerra Mundial, usavam álcool produzido a partir de batatas, assim como os primeiros foguetes, lançados pelos americanos no Cabo Kennedy. Nas corridas de automóveis especiais, que se realizavam alguns anos atrás, vários carros bateram recordes mundiais nas pistas de Salt Lake City, usando álcool 100% como combustível. O engenheiro alemão Otto, nos seus primeiros modelos, utilizou o álcool. A era do petróleo barato fez com que todo o desenvolvimento de motores fosse voltado a este combustível fóssil.

O carro a álcool trouxe a independência da engenharia automotiva brasileira. Ademais, duas evidências merecem destaque nas virtudes do carro a álcool: a inquestionável redução do CO (monóxido de carbono) e a não contribuição para o agravamento do efeito estufa (CO²). A poluição do ar, a chuva acida e o aludido efeito estufa decorrem, inquestionavelmente, da queima de combustíveis fósseis nos motores dos veículos.

Em decorrência, o governo deveria aprofundar as investigações para o desenvolvimento de um motor original e específico para o álcool, visando a elevação da eficiência e redução do consumo. Até agora, 27 anos após a criação do Proálcool, os carros a álcool incorporam apenas a evolução tecnologia dos seus similares acionados à gasolina.

Não é justificável, desta forma, o atual desinteresse dos produtores de veículos brasileiros no tocante ao veículo a álcool, que já alcançou uma frota de mais de 5 milhões de veículos produzidos entre nós. Hoje, têm uma participação de apenas 1% das vendas totais dos veículos leves no Brasil, insuficiente, desta forma, para contrabalançar um sucateamento anual de 350 mil carros. Um carro movido a gasolina (graças à mistura dos 24% de álcool anidro) gera na cadeia industrial 7 empregos, enquanto o veículo a álcool emprega 30 pessoas, principalmente no interior do Estado. Em decorrência das suas vantagens colaterais e das externalidades positivas do álcool combustível, não se deve ignorar a imprescindibilidade de adoção de mecanismos de sustentação à indústria alcooleira.

Em recente entrevista à imprensa, o consagrado cientista, Rogério Cerqueira Leite, acentua que: “O petróleo e o gás natural vão acabar logo, são finitos. Economizar energia será, no futuro imediato, a tendência natural da humanidade, já que o produto tende a ficar cada vez mais caro e raro”

Petróleo é produto estratégico e poderá faltar num futuro remoto. É preciso, desta forma, que seja efetuado o adequado planejamento estratégico do setor de combustíveis pelos setores competentes governamentais, o que há décadas está sendo reclamado, bem como o aproveitamento da vocação natural brasileira de produzir energia limpa e renovável, como é o caso da biomassa e da cana-de-açúcar.

Luiz Gonzaga Bertelli, presidente executivo do CIEE., Diretor da FIESP/CIESP e da Associação Comercial de SP – ACSP

E-mail: lgbertelli@uol.com.br

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