Petrobras perde US$ 1,95 bi no Japão

A investida da Petrobras no Japão em 2008, com a compra da refinaria Nansei Sekiyu K.K., em Okinawa, trouxe perda de US$ 1,95 bilhão, segundo uma fonte que teve acesso a estudos feitos pela própria petroleira. A refinaria encerrou sua atividade em abril de 2015 e, em janeiro deste ano, o conselho de administração aprovou o fechamento da unidade, que foi colocada à venda várias vezes mas não houve interessados.

O saldo final resulta na soma do valor de aquisição, de US$ 76 milhões, mais os prejuízos acumulados de US$ 710 milhões, uma injeção de capital de US$ 650 milhões, custos de US$ 270 milhões com o fechamento da unidade e as dívidas de US$ 240 milhões. A Petrobras não respondeu ao pedido de comentário.

Segundo uma fonte a par do assunto na estatal, o rombo é “muito parecido” com o da refinaria americana em Pasadena, apesar de menos falado. “A perda é muito grande”, diz a fonte. Um estudo sigiloso elaborado em outubro de 2007 por técnicos da Petrobras, obtido pelo Valor, identificou riscos e mostrava que o negócio poderia trazer perdas.

Apelidado de “Projeto Ilha”, a análise tinha o objetivo de avaliar a aquisição da participação acionária e foi coordenada pela gerência de Desenvolvimento de Negócios da área Internacional, quando era dirigida por Rafael Comino. O gerente foi um dos alvos da Operação “Corrosão”, da Lava-Jato, em novembro do ano passado.

No documento assinado por técnicos das áreas financeira, jurídica e contabilidade, foi feito o alerta sobre a pouca documentação disponível nos dois processos de ‘due diligence’, realizados em maio de 2006 e maio de 2007. Eles afirmaram que por estar “em sua maior parte apresentada em língua japonesa [a documentação disponível], dificultou o entendimento completo de questões específicas”. O documento deixava claro que no caso de a refinaria ser adquirida sem que fosse feita a obra de modernização (Revamp) de cerca de US$ 1,5 bilhão para que pudesse processar o petróleo pesado brasileiro de Marlim, o negócio traria prejuízo. Sem a obra, o Valor Presente Líquido (VPL) estimado da refinaria era de US$ 214,6 milhões negativos, considerando-se um valor econômico de US$ 159,1 milhões pelos 87,5% que seriam adquiridos pela Petrobras.

Se fosse feita a modernização, ou Revamp, o VPL passaria a ser positivo em US$ 251,4 milhões, com a fatia adquirida passando a valor US$ 306,9 milhões. Assim como a refinaria de Pasadena, a unidade de Okinawa também era adaptada para usar apenas petróleo leve e apesar de ter capacidade de processar 100 mil barris diários, só produzia 50 mil barris/dia.

Na página 28 do relatório, os técnicos informam que o acordo de acionistas previa que a Sumitomo deveria acompanhar as decisões de investimento da Petrobras, “podendo diluir sua participação acionária ou exercer opção de venda de suas ações em caso de discordância”. Essa última cláusula, conhecida como “put option”, foi exercida em 2010.

Os técnicos explicaram no documento que no cenário que previa a ampliação de US$ 1,5 bilhão – nunca feita devido inclusive a impedimentos ambientais – o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica considerava que além de suprir a demanda de Okinawa, a refinaria venderia combustíveis para a China. Contudo, alertavam para grandes incertezas “quanto às condições comerciais de venda neste mercado”.

Uma fonte que participou da decisão na época defendeu a compra dizendo que o plano era abastecer a Ásia com etanol brasileiro e petróleo pesado, ainda dispondo de um terminal capaz de estocar 10 milhões de barris de combustíveis. “Mas o Brasil mudou a política e com o subsídio à gasolina o mercado de álcool foi destruído”, diz.

Ao explicar que a definição do escopo e a estimativa do valor do investimento para a obra ficaram a cargo de uma consultoria externa, os técnicos da Petrobras informaram que as estimativas na ocasião apresentavam nível de precisão equivalente ao de FEL1, ou seja, em estágio muito inicial, sem detalhamento do projeto. Isso, informaram, “indica a existência de um elevado grau de incerteza sobre o valor desse investimento”.

O plano de comprar a refinaria em Okinawa começou a ser elaborado quando Nestor Cerveró dirigia a área Internacional da Petrobras, mas o negócio foi concluído quando Jorge Zelada, atualmente preso em Curitiba, ocupava o cargo. Dilma Rousseff presidia o conselho de administração. Em 2014, o Palácio do Planalto divulgou nota dizendo que a aquisição da primeira parcela de Okinawa foi autorizada em reunião do conselho de administração realizada no dia 9 de novembro de 2007, com base em Resumo Executivo.

“No referido Resumo Executivo, apresentado ao conselho de administração, e elaborado pela diretoria Internacional da empresa, está referida a existência de cláusulas contratuais que materializam o ‘Put Option’, bem como informações técnicas correspondentes”.

A nota dizia ainda que a aquisição da refinaria “estava alinhada com a estratégia geral da companhia, prevista no Plano de Negócios 2004-2010 e no Plano Estratégico 2015, no que se referia ao incremento da capacidade de refino de petróleo no exterior”. E observava que a refinaria tinha “vantagem adicional, por possuir um grande terminal de petróleo e derivados para armazenamento de 9,6 milhões de barris”.

Fonte: (Valor)

X