Pesquisa e manejo correto melhoram produtividade

O aumento da produção de cana-de-açúcar no Brasil não passa obrigatoriamente pela ampliação da área cultivada, apesar da disponibilidade de terras planas em diversos Estados. Existe um outro caminho: a melhoria da produtividade que registra, atualmente, a média de 77 toneladas por hectare. Muito distante do utópico potencial teórico, que pode atingir — pelo menos em canaviais plantados e desenhados em folhas de papel — a estrondosa marca de 350 toneladas por hectare, a média nacional é considerada relativamente satisfatória por cientistas, pesquisadores, técnicos agrícolas e agrônomos. “A Austrália, que apresenta condições climáticas parecidas com as do Brasil e produtividade superior a 100 toneladas, chegando até a 160, tem canaviais com ciclos curtos, de 3 a 4 cortes. Além disso, há altos investimentos com irrigação”, compara o pesquisador Antônio Carlos Gheller, diretor da CanaVialis, uma nova empresa no setor que pretende revolucionar o melhoramento genético de cana-de-açúcar no País, com a utilização dos conhecimentos gerados pela biologia molecular .

Outro fator que explica a relativa eficiência produtiva dos canaviais brasileiros está associado às características do solo na região Nordeste, que ajudam a diminuir a média nacional. “Em algumas áreas, próximas à praia, que têm solos arenosos, nem deveria haver plantação de cana”, observa o professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas — Feagri/Unicamp, Oscar Braunbeck. Segundo ele, enquanto no Estado de São Paulo, onde há maiores investimentos com melhoramento genético, a produtividade chega, com freqüência, a 80 ou 90 toneladas hectares, na região Nordeste, os números caem em diversos lugares para 50 a 60 toneladas. Especialistas de usinas e instituições de pesquisa mostram também que baixas produtividades ocorrem devido a problemas como a escolha equivocada da variedade, adubação insuficiente, baixa disponibilidade de água, compactação excessiva do solo, ineficiência no controle de pragas, doenças e ervas daninhas, adiamento da reforma dos canaviais e cultivo da soqueira em momento errado.

Experimentações em laboratórios, testes no campo e, principalmente, os resultados obtidos por diversas usinas comprovam que a produtividade brasileira pode avançar, ainda, de maneira significativa. Inovações, como o projeto Ambicana, do Instituto Agronômico de Campinas — IAC, que faz nova classificação do solo, considerando principalmente a disponibilidade de água, ampliam as possibilidades de intervenção nos ambientes de produção. O sistema de gerenciamento de lavouras da Usina São João, de Araras (SP), os programas de melhoramento genético da Copersucar, da UFSCar e do Instituto Agronômico, a fertirrigação por gotejamento subterrâneo, o Cultivador Novo São Francisco, entre outros equipamentos com novos conceitos tecnológicos, são exemplos que podem alterar os rumos da história da cultura da cana-de-açúcar no Brasil.

A proximidade cada vez maior entre a pesquisa agronômica e a atividade cotidiana nas usinas e destilarias tem contribuído, decisivamente, para mudar paradigmas no setor. O debate mais intenso, prático e objetivo — como ocorre, por exemplo, nas sete reuniões anuais do Grupo de Fitotecnia do Instituto Agronômico — aponta soluções, agrega valor e atualiza demandas. “O papel de técnicos agrícolas, agrônomos e profissionais da área, que atuam em usinas e destilarias, tem sido fundamental nesse processo”, elogia o diretor do Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio da Cana do Instituto Agronômico de Campinas — Centro Apta Cana/ IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell.

Ambicana avalia potencial produtivo dos canaviais

Uma nova classificação do solo, proposta pelo projeto Ambicana, do Centro Apta Cana/ IAC — com sede em Ribeirão Preto (SP) —, cria condições para revelar se todo o potencial produtivo de um canavial está sendo aproveitado e sugere, ainda, possibilidades de intervenções nos ambientes de produção. Este trabalho — coordenado pelo pesquisador Hélio do Prado — leva em consideração, além da fertilidade, a disponibilidade de água e a espessura da camada superficial. O diretor do Centro Apta Cana IAC, Marcos Landell, diz que a aplicação das tecnologias existentes, aliada a observação do conceito de ambiente de produção — abordado pelo Ambicana — e a escolha correta da variedade, podem gerar um aumento de 15% na produtividade.

O ambiente de produção é caracterizado, nesse trabalho, como dinâmico e mutável. A nova classificação do solo, que começa em A1/A2 e vai até E1/E2, possibilita que um ambiente menos favorável, dependendo de determinadas condições, se torne mais favorável. O uso da fertirrigação, a adoção do plantio direto e o emprego de cinzas e torta de filtro são fatores que podem proporcionar essa mudança, conforme explicações de Hélio do Prado. O caminho inverso também pode ocorrer, provocado, por exemplo, pela baixa disponibilidade de água, salinização intensa e a presença de ervas daninhas.

“A falta de água prejudica o enraizamento da cana. Mesmo com chuva, se um tipo de solo não disponibilizar água para a planta, como o latossolo vermelho, que é muito argiloso, um ambiente A2 pode tornar-se B1”, avalia o pesquisador. Nesse caso, no manejo varietal e logístico da cana deve ser considerado esse aspecto, para evitar o déficit hídrico no momento de maior demanda por água pela planta. “As variedades de cana mais exigentes em nutrientes cultivadas nos solos eutróficos não atingem, também, produtividades tão elevadas quando é baixa a disponibilidade de água”, ressalta ele. O Ambicana mostra caminhos para a escolha da variedade adequada a determinado tipo de ambiente e, por isso, potencializa a produtividade.

O projeto já conta com a participação de diversas empresas do setor: Debrasa de Brasilândia (MS); Colorado, de Guaíra (SP);.Cerradinho, de Catanduva (SP); Benálcool, de Bento de Abreu (SP); Corona, de Guariba (SP); São João, de Araras (SP); Ferrari, de Porto Ferreira (SP); Fazenda Capão, Sirone, Santo Antônio e Santana do Alto, de Cravinhos (SP) e Húmus Agrícola, de Pitangueiras (SP).

Gerenciamento de lavouras assegura resultados positivos

A produtividade de 93 toneladas por hectare — 16 acima da média nacional — da Usina São João, de Araras (SP), não foi motivo para afastar o interesse dessa empresa paulista pelo Ambicana. Mesmo com a adoção de procedimentos específicos para as diversas áreas da usina, o gerente agrícola, João Martins, considera importante esse trabalho de classificação do solo do IAC. O Ambicana vai funcionar como uma espécie de “auditoria” técnica para a São João que aproveita — conforme avaliação do gerente agrícola — todo o potencial produtivo de suas lavouras. “Em 2003, a produtividade cairá para 90 toneladas por hectare, pois 33% dos nossos canaviais estão acima do quinto corte. Com a reforma, ela terá 95 toneladas no próximo ano”, afirma. A convicção em relação aos resultados e o controle dos fatores previsíveis ocorrem em função do que ele chama de “gerenciamento de lavouras”.

Para cada tipo de plantação, existe uma abordagem específica, o que inclui escolha da variedade, adubação, calagem, controle de ervas daninhas, colheita, entre outras práticas agrícolas. “Fazemos uma adubação personalizada. Temos 16 fórmulas diferentes. A maioria das usinas faz a adubação única, que é decidida, durante o período de compras, pelo departamento financeiro”, alfineta João Martins. O mesmo cuidado ocorre com a engessagem e a calagem que tem também, na usina de Araras, fórmulas específicas para cada situação e uma dosagem mais baixa do que a média utilizada em outras lavouras Tudo é definido a partir de um criterioso estudo dos resultados da análise do solo. “Em diversos lugares a análise é feita para que fique guardada na gaveta”, critica.

Com o objetivo de gerenciar e minimizar a compactação do solo, a São João adota alguns procedimentos diferenciados durante a colheita, que é 70% mecanizada A usina usa colhedora de esteira, com pneus de alta flutuação. Além disso, reserva áreas apropriadas, como solos arenosos, para abrigar a cana. Há também cuidados especiais com ervas daninhas, que é controlada, num primeiro momento, com o recuo da palha da linha. “Fazemos, inicialmente, o controle biológico, e, posteriormente, aplicamos inseticidas”, afirma. A alocação de variedades adequadas às características do solo é outra preocupação do gerente agrícola. “Cada uma delas deve ocupar 15% do total. O recomendável é utilizar, em média, 7 variedades. Somente em casos especiais, aconselha-se utilizar variedades em áreas proporcionalmente menores”, orienta.

Biologia molecular acelera melhoramento genético

O manejo varietal correto é considerado uma das ferramentas mais importantes para o aumento da produtividade. Pesquisadores têm investigado incessantemente as características de inúmeras plantas, para a obtenção de variedades produtivas para diferentes condições de clima e solo. No Brasil, essa história de desenvolvimento de variedades da cana-de-açúcar começou em 1933 no Instituto Agronômico de Campinas, logo após o aparecimento do mosaico, responsável pela drástica redução dos canaviais paulistas, conforme explica Marcos Landell. O método usado era a hibridação clássica. De lá para cá muita coisa mudou. O melhoramento genético convencional fez aliança com a biologia molecular e a biotecnologia. E “ameaça” produzir variedades que fiquem próximas da sonhada supercana — uma planta com características e produtividade especiais.

Essa coalizão tornou-se oficial com a inauguração, em 25 de março, da empresa CanaVialis, que agitou a área de pesquisa de melhoramento genético do setor sucroalcooleiro. Afinal, cinco renomados cientistas – Éder Antônio Giglioti, Yodiro Masuda, Hideto Arizono, Sizuo Matsuoka e Antônio Carlos Gheller – da Universidade Federal de São Carlos. — da UFSCar, anunciaram, de uma hora para outra, que estavam deixando a universidade e se associando à Votorantim Ventures, para uma iniciativa ousada: reduzir pela metade o prazo de desenvolvimento de uma nova variedade. Isto será possível, de acordo com Antônio Gheller, por meio da aplicação de conhecimentos gerados pela biologia molecular. “Queremos, em 2.008, ter os clones identificados e, no final de 2.009, lançar as primeiras variedades CVs”, prevê.

A CanaVialis, que surge com a missão de garantir maior rentabilidade ao produtor, conta com o investimento de R$ 25 milhões do Grupo Votorantim, que serão utilizados na construção dos laboratórios de biologia molecular e fitopatologia em Campinas (SP) e três estações experimentais no Estado de São Paulo e custeio dos projetos de pesquisa. Além disso, a empresa estará atuando na área de biologia molecular e biotecnologia, em parceria com a. Allelix, de Campinas (SP), empresa da qual faz parte o pesquisador Paulo Arruda, coordenador geral do Projeto Genoma Cana.

O estudo aprofundado do sequenciamento das cadeias de DNA da planta é o que permitirá a agilização da pesquisa nessa área. Esse trabalho de leitura genômica reduzirá o tempo de experimentos para a verificação das características de cada planta. Nada muda, no entanto, em relação aos testes no campo, que seguem as práticas do melhoramento convencional. A equipe de pesquisadores da CanaVialis quer, também, aproveitar o material genético desenvolvido no programa da UFSCar. “Estamos conversando com a Universidade para fazer um acordo nesse sentido”, informou Antônio Gheller, no final de março. Os cinco cientistas participaram, nos últimos 30 anos, do desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar, que ocupam, atualmente, 60% da área cultivada no Centro-Sul do Brasil pretendem garantir a continuidade do programa, que tem material para o lançamento de variedades até 2010.

Cuidados básicos ainda são indispensáveis

Enquanto a cana do futuro não chega, o mais indicado é colocar os pés no chão, ou melhor, na terra. “Na hora do plantio, as usinas devem escolher e plantar novas variedades, que são menos suscetíveis a doenças e pragas e apresentam teor de sacarose mais elevado”, orienta o gestor do programa de variedades do Centro de Tecnologia da Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo — Copersucar, René de Assis Sordi. Nada de fazer economias nesse momento, pois a opção aparentemente mais barata poderá tornar-se muito mais cara. “As usinas não. devem utilizar somente uma ou duas variedades, pois no caso de doença, praga ou qualquer fator adverso, os prejuízos poderão ser enormes”, adverte. Segundo René, uma boa quantidade fica entre 10 a 15 variedades, dependendo dos tipos de solo. Com a necessidade cada vez maior de antecipação da safra, o pesquisador da Copersucar diz que o ideal é fazer um plantio, com 30 a 40% de variedades que possam ter um bom aproveitamento no início da colheita. Outros 30% a 40% devem ser variedades de meio de safra e de 20% a 30%, de final de safra.

Entre as diversas recomendações básicas e habituais, René Sordi lembra que não se deve insistir com variedades, sem características de rusticidade, para solos fracos. Uma das melhores opções para esses casos – de acordo com ele – é a SP83-2847 que tem um teor de sacarose baixo compensado, no entanto, por sua alta produtividade que pode chegar, em condições ideais, a 120 toneladas de cana por hectare. Com uma equipe de 50 pessoas, o programa de melhoramento da Copersucar chega a utilizar 400.000 sementes (indivíduos diferentes) para o desenvolvimento de uma variedade. O afunilamento, provocado por inúmeros cruzamentos e seleções de material, é responsável pelo surgimento de dezenas de variedades, como a SP81-3250, a mais importante comercialmente, nos últimos cinco anos, entre os cooperados da Copersucar e, nos últimos dois anos, no Brasil. Em 2.001, ela chegou a ocupar 16% de toda a área de plantio no País.

A escolha da variedade mais adequada – independentemente de resultados de censos varietais – está atrelada a orientação técnica precisa e criteriosa. Existem soluções para todos os casos. A própria Copersucar recomenda, entre outras situações, a SP87-365 como uma alternativa eficaz para o meio de safra, devido ao seu alto rendimento. Entre as quatro novas variedades, que acabam de ser lançadas pelo Centro de Tecnologia, um dos destaques é a SP91-1049, que se caracteriza pela precocidade e alto teor de sacarose, sendo recomendada, também, para colheita no início de safra. “Ela já tem quatro mil hectares de área de plantio”, informa René Sordi Os outros três lançamentos são: a SP89-1115, também precoce e as produtivas SP90-1638 e SP90-3414.

Pesquisa e manejo correto melhoram produtividade

O aumento da produção de cana-de-açúcar no Brasil não passa obrigatoriamente pela ampliação da área cultivada, apesar da disponibilidade de terras planas em diversos Estados. Existe um outro caminho: a melhoria da produtividade que registra, atualmente, a média de 77 toneladas por hectare. Muito distante do utópico potencial teórico, que pode atingir — pelo menos em canaviais plantados e desenhados em folhas de papel — a estrondosa marca de 350 toneladas por hectare, a média nacional é considerada relativamente satisfatória por cientistas, pesquisadores, técnicos agrícolas e agrônomos. “A Austrália, que apresenta condições climáticas parecidas com as do Brasil e produtividade superior a 100 toneladas, chegando até a 160, tem canaviais com ciclos curtos, de 3 a 4 cortes. Além disso, há altos investimentos com irrigação”, compara o pesquisador Antônio Carlos Gheller, diretor da CanaVialis, uma nova empresa no setor que pretende revolucionar o melhoramento genético de cana-de-açúcar no País, com a utilização dos conhecimentos gerados pela biologia molecular .

Outro fator que explica a relativa eficiência produtiva dos canaviais brasileiros está associado às características do solo na região Nordeste, que ajudam a diminuir a média nacional. “Em algumas áreas, próximas à praia, que têm solos arenosos, nem deveria haver plantação de cana”, observa o professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas — Feagri/Unicamp, Oscar Braunbeck. Segundo ele, enquanto no Estado de São Paulo, onde há maiores investimentos com melhoramento genético, a produtividade chega, com freqüência, a 80 ou 90 toneladas hectares, na região Nordeste, os números caem em diversos lugares para 50 a 60 toneladas. Especialistas de usinas e instituições de pesquisa mostram também que baixas produtividades ocorrem devido a problemas como a escolha equivocada da variedade, adubação insuficiente, baixa disponibilidade de água, compactação excessiva do solo, ineficiência no controle de pragas, doenças e ervas daninhas, adiamento da reforma dos canaviais e cultivo da soqueira em momento errado

Experimentações em laboratórios, testes no campo e, principalmente, os resultados obtidos por diversas usinas comprovam que a produtividade brasileira pode avançar, ainda, de maneira significativa. Inovações, como o projeto Ambicana, do Instituto Agronômico de Campinas — IAC, que faz nova classificação do solo, considerando principalmente a disponibilidade de água, ampliam as possibilidades de intervenção nos ambientes de produção. O sistema de gerenciamento de lavouras da Usina São João, de Araras (SP), os programas de melhoramento genético da Copersucar, da UFSCar e do Instituto Agronômico, a fertirrigação por gotejamento subterrâneo, o Cultivador Novo São Francisco, entre outros equipamentos com novos conceitos tecnológicos, são exemplos que podem alterar os rumos da história da cultura da cana-de-açúcar no Brasil.

A proximidade cada vez maior entre a pesquisa agronômica e a atividade cotidiana nas usinas e destilarias tem contribuído, decisivamente, para mudar paradigmas no setor. O debate mais intenso, prático e objetivo — como ocorre, por exemplo, nas sete reuniões anuais do Grupo de Fitotecnia do Instituto Agronômico — aponta soluções, agrega valor e atualiza demandas. “O papel de técnicos agrícolas, agrônomos e profissionais da área, que atuam em usinas e destilarias, tem sido fundamental nesse processo”, elogia o diretor do Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio da Cana do Instituto Agronômico de Campinas — Centro Apta Cana/ IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell.

Ambicana avalia potencial produtivo dos canaviais

Uma nova classificação do solo, proposta pelo projeto Ambicana, do Centro Apta Cana/ IAC — com sede em Ribeirão Preto (SP) —, cria condições para revelar se todo o potencial produtivo de um canavial está sendo aproveitado e sugere, ainda, possibilidades de intervenções nos ambientes de produção. Este trabalho — coordenado pelo pesquisador Hélio do Prado — leva em consideração, além da fertilidade, a disponibilidade de água e a espessura da camada superficial. O diretor do Centro Apta Cana IAC, Marcos Landell, diz que a aplicação das tecnologias existentes, aliada a observação do conceito de ambiente de produção — abordado pelo Ambicana — e a escolha correta da variedade, podem gerar um aumento de 15% na produtividade.

O ambiente de produção é caracterizado, nesse trabalho, como dinâmico e mutável. A nova classificação do solo, que começa em A1/A2 e vai até E1/E2, possibilita que um ambiente menos favorável, dependendo de determinadas condições, se torne mais favorável. O uso da fertirrigação, a adoção do plantio direto e o emprego de cinzas e torta de filtro são fatores que podem proporcionar essa mudança, conforme explicações de Hélio do Prado. O caminho inverso também pode ocorrer, provocado, por exemplo, pela baixa disponibilidade de água, salinização intensa e a presença de ervas daninhas.

“A falta de água prejudica o enraizamento da cana. Mesmo com chuva, se um tipo de solo não disponibilizar água para a planta, como o latossolo vermelho, que é muito argiloso, um ambiente A2 pode tornar-se B1”, avalia o pesquisador. Nesse caso, no manejo varietal e logístico da cana deve ser considerado esse aspecto, para evitar o déficit hídrico no momento de maior demanda por água pela planta. “As variedades de cana mais exigentes em nutrientes cultivadas nos solos eutróficos não atingem, também, produtividades tão elevadas quando é baixa a disponibilidade de água”, ressalta ele. O Ambicana mostra caminhos para a escolha da variedade adequada a determinado tipo de ambiente e, por isso, potencializa a produtividade.

O projeto já conta com a participação de diversas empresas do setor: Debrasa de Brasilândia (MS); Colorado, de Guaíra (SP);.Cerradinho, de Catanduva (SP); Benálcool, de Bento de Abreu (SP); Corona, de Guariba (SP); São João, de Araras (SP); Ferrari, de Porto Ferreira (SP); Fazenda Capão, Sirone, Santo Antônio e Santana do Alto, de Cravinhos (SP) e Húmus Agrícola, de Pitangueiras (SP).

Gerenciamento de lavouras assegura resultados positivos

A produtividade de 93 toneladas por hectare — 16 acima da média nacional — da Usina São João, de Araras (SP), não foi motivo para afastar o interesse dessa empresa paulista pelo Ambicana. Mesmo com a adoção de procedimentos específicos para as diversas áreas da usina, o gerente agrícola, João Martins, considera importante esse trabalho de classificação do solo do IAC. O Ambicana vai funcionar como uma espécie de “auditoria” técnica para a São João que aproveita — conforme avaliação do gerente agrícola — todo o potencial produtivo de suas lavouras. “Em 2003, a produtividade cairá para 90 toneladas por hectare, pois 33% dos nossos canaviais estão acima do quinto corte. Com a reforma, ela terá 95 toneladas no próximo ano”, afirma. A convicção em relação aos resultados e o controle dos fatores previsíveis ocorrem em função do que ele chama de “gerenciamento de lavouras”.

Para cada tipo de plantação, existe uma abordagem específica, o que inclui escolha da variedade, adubação, calagem, controle de ervas daninhas, colheita, entre outras práticas agrícolas. “Fazemos uma adubação personalizada. Temos 16 fórmulas diferentes. A maioria das usinas faz a adubação única, que é decidida, durante o período de compras, pelo departamento financeiro”, alfineta João Martins. O mesmo cuidado ocorre com a engessagem e a calagem que tem também, na usina de Araras, fórmulas específicas para cada situação e uma dosagem mais baixa do que a média utilizada em outras lavouras Tudo é definido a partir de um criterioso estudo dos resultados da análise do solo. “Em diversos lugares a análise é feita para que fique guardada na gaveta”, critica.

Com o objetivo de gerenciar e minimizar a compactação do solo, a São João adota alguns procedimentos diferenciados durante a colheita, que é 70% mecanizada A usina usa colhedora de esteira, com pneus de alta flutuação. Além disso, reserva áreas apropriadas, como solos arenosos, para abrigar a cana. Há também cuidados especiais com ervas daninhas, que é controlada, num primeiro momento, com o recuo da palha da linha. “Fazemos, inicialmente, o controle biológico, e, posteriormente, aplicamos inseticidas”, afirma. A alocação de variedades adequadas às características do solo é outra preocupação do gerente agrícola. “Cada uma delas deve ocupar 15% do total. O recomendável é utilizar, em média, 7 variedades. Somente em casos especiais, aconselha-se utilizar variedades em áreas proporcionalmente menores”, orienta.

Biologia molecular acelera melhoramento genético

O manejo varietal correto é considerado uma das ferramentas mais importantes para o aumento da produtividade. Pesquisadores têm investigado incessantemente as características de inúmeras plantas, para a obtenção de variedades produtivas para diferentes condições de clima e solo. No Brasil, essa história de desenvolvimento de variedades da cana-de-açúcar começou em 1933 no Instituto Agronômico de Campinas, logo após o aparecimento do mosaico, responsável pela drástica redução dos canaviais paulistas, conforme explica Marcos Landell. O método usado era a hibridação clássica. De lá para cá muita coisa mudou. O melhoramento genético convencional fez aliança com a biologia molecular e a biotecnologia. E “ameaça” produzir variedades que fiquem próximas da sonhada supercana — uma planta com características e produtividade especiais.

Essa coalizão tornou-se oficial com a inauguração, em 25 de março, da empresa CanaVialis, que agitou a área de pesquisa de melhoramento genético do setor sucroalcooleiro. Afinal, cinco renomados cientistas – Éder Antônio Giglioti, Yodiro Masuda, Hideto Arizono, Sizuo Matsuoka e Antônio Carlos Gheller – da Universidade Federal de São Carlos. — da UFSCar, anunciaram, de uma hora para outra, que estavam deixando a universidade e se associando à Votorantim Ventures, para uma iniciativa ousada: reduzir pela metade o prazo de desenvolvimento de uma nova variedade. Isto será possível, de acordo com Antônio Gheller, por meio da aplicação de conhecimentos gerados pela biologia molecular. “Queremos, em 2.008, ter os clones identificados e, no final de 2.009, lançar as primeiras variedades CVs”, prevê.

A CanaVialis, que surge com a missão de garantir maior rentabilidade ao produtor, conta com o investimento de R$ 25 milhões do Grupo Votorantim, que serão utilizados na construção dos laboratórios de biologia molecular e fitopatologia em Campinas (SP) e três estações experimentais no Estado de São Paulo e custeio dos projetos de pesquisa. Além disso, a empresa estará atuando na área de biologia molecular e biotecnologia, em parceria com a. Allelix, de Campinas (SP), empresa da qual faz parte o pesquisador Paulo Arruda, coordenador geral do Projeto Genoma Cana.

O estudo aprofundado do sequenciamento das cadeias de DNA da planta é o que permitirá a agilização da pesquisa nessa área. Esse trabalho de leitura genômica reduzirá o tempo de experimentos para a verificação das características de cada planta. Nada muda, no entanto, em relação aos testes no campo, que seguem as práticas do melhoramento convencional. A equipe de pesquisadores da CanaVialis quer, também, aproveitar o material genético desenvolvido no programa da UFSCar. “Estamos conversando com a Universidade para fazer um acordo nesse sentido”, informou Antônio Gheller, no final de março. Os cinco cientistas participaram, nos últimos 30 anos, do desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar, que ocupam, atualmente, 60% da área cultivada no Centro-Sul do Brasil pretendem garantir a continuidade do programa, que tem material para o lançamento de variedades até 2010.

Cuidados básicos ainda são indispensáveis

Enquanto a cana do futuro não chega, o mais indicado é colocar os pés no chão, ou melhor, na terra. “Na hora do plantio, as usinas devem escolher e plantar novas variedades, que são menos suscetíveis a doenças e pragas e apresentam teor de sacarose mais elevado”, orienta o gestor do programa de variedades do Centro de Tecnologia da Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo — Copersucar, René de Assis Sordi. Nada de fazer economias nesse momento, pois a opção aparentemente mais barata poderá tornar-se muito mais cara. “As usinas não. devem utilizar somente uma ou duas variedades, pois no caso de doença, praga ou qualquer fator adverso, os prejuízos poderão ser enormes”, adverte. Segundo René, uma boa quantidade fica entre 10 a 15 variedades, dependendo dos tipos de solo. Com a necessidade cada vez maior de antecipação da safra, o pesquisador da Copersucar diz que o ideal é fazer um plantio, com 30 a 40% de variedades que possam ter um bom aproveitamento no início da colheita. Outros 30% a 40% devem ser variedades de meio de safra e de 20% a 30%, de final de safra.

Entre as diversas recomendações básicas e habituais, René Sordi lembra que não se deve insistir com variedades, sem características de rusticidade, para solos fracos. Uma das melhores opções para esses casos – de acordo com ele – é a SP83-2847 que tem um teor de sacarose baixo compensado, no entanto, por sua alta produtividade que pode chegar, em condições ideais, a 120 toneladas de cana por hectare. Com uma equipe de 50 pessoas, o programa de melhoramento da Copersucar chega a utilizar 400.000 sementes (indivíduos diferentes) para o desenvolvimento de uma variedade. O afunilamento, provocado por inúmeros cruzamentos e seleções de material, é responsável pelo surgimento de dezenas de variedades, como a SP81-3250, a mais importante comercialmente, nos últimos cinco anos, entre os cooperados da Copersucar e, nos últimos dois anos, no Brasil. Em 2.001, ela chegou a ocupar 16% de toda a área de plantio no País.

A escolha da variedade mais adequada – independentemente de resultados de censos varietais – está atrelada a orientação técnica precisa e criteriosa. Existem soluções para todos os casos. A própria Copersucar recomenda, entre outras situações, a SP87-365 como uma alternativa eficaz para o meio de safra, devido ao seu alto rendimento. Entre as quatro novas variedades, que acabam de ser lançadas pelo Centro de Tecnologia, um dos destaques é a SP91-1049, que se caracteriza pela precocidade e alto teor de sacarose, sendo recomendada, também, para colheita no início de safra. “Ela já tem quatro mil hectares de área de plantio”, informa René Sordi Os outros três lançamentos são: a SP89-1115, também precoce e as produtivas SP90-1638 e SP90-3414.

Apoio de usinas assegura sobrevivência de programas

A pesquisa não pára. E, isto é possível, entre outros fatores, devido ao pagamento de royalties pelo uso de variedades. A Copersucar, por exemplo, que cobra, anualmente, R$ 10,00 por hectare arrecadou, no ano passado R$ 1,5 milhão por conta dos contratos de permissão de uso. Mais de 170 usinas já fizeram esse acordo – que cumpre legislação específica sobre propriedade intelectual – e a adesão deve aumentar significativamente nos próximos anos. A UFSCar, que abrigava o Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar — Planalsucar do extinto do Instituto do Açúcar e do Álcool — IAA), lançando as primeiras variedades RBs em 1972, iniciou um novo projeto – que utiliza, também, a cobrança de royalties – com o apoio de empresas do setor sucroalcooleiro. “Começamos com cinco e em 2003, chegamos a ter a participação de 116 usinas”, relata o pesquisador Antônio Gheller. Dessa forma, mesmo com a extinção do Planalsucar durante o governo Collor, a pesquisa de melhoramento genético na Universidade – que ficou durante um ano inoperante – sobreviveu.

O programa da UFSCar é responsável, por exemplo, pelo desenvolvimento da variedade RB72454 – a mais cultivada no País conforme o Anuário da Cana 2002/03, que se destaca pela sua boa adaptação a ambientes de baixo potencial de produção, principalmente, os de solos de textura arenosa. Além disso, é excelente opção como cana de ano, tem resposta consistente a maturadores e alta produtividade agrícola e industrial. Entre as variedades recentes, outras opções são a RB867515 e a RB928064, que apresentam ótima brotação das socas. Para o início de safra, o pesquisador Antônio Gheller cita, entre as alternativas recomendáveis, as variedades RB 835486, RB855156, RB855453, RB835054. A UFSCar já tem pronto para lançamento três variedades da série 92, além da RB855046.

O Instituto Agronômico de Campinas, que foi pioneiro na área de melhoramento genético da cana, chegou a ter 20% de variedades IAC plantadas no Estado e reduziu as suas atividades nos anos 70 e 80 por falta de recursos, vive, agora, um novo e promissor momento. A intensificação das atividades, nessa área, ocorreu com o lançamento do Programa Cana IAC, no início da década de 90, que deu origem a um novo conceito: o desenvolvimento de tecnologias regionais. Para isto, criou o Grupo Fitotécnico da Cana-de-Açúcar, que reúne pesquisadores de diversas universidades e representantes de usinas dos estados de São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná. Além de socializar o conhecimento e fazer a troca de experiências, o Grupo discute temas, quase permanentes, como manejo varietal e ambientes de produção.

“Importantes variedades foram adotadas por usinas a partir de discussões do Grupo de Fitotecnia”, observa Marcos Landell, diretor do Centro Apta Cana/ IAC. Segundo ele, os debates, que ocorrem nessas reuniões, acabam dando origem a um levantamento das demandas do setor, que direcionam as pesquisas do Agronômico. Na área de melhoramento genético, Landell informa que o IAC lançará em 2.003 quatro novas variedades, que apresentam alto teor de sacarose e, devido às suas características gerais, darão importante contribuição para o setor. Outros ensaios, que estão sendo realizados em 210 hectares de áreas de usinas, possibilitarão, também o desenvolvimento de novas variedades IAC. Para Landell, entre as variedades recentes lançadas pelo Agronômico, as mais importantes são a rústica IAC873396 e a precoce IAC862210, além da cana forrageira IAC862480, que tem dado importante contribuição para a pecuária brasileira.

Vitrine tecnológica abre novas perspectivas

A “garimpagem” de equipamentos e implementos agrícolas, que incorporam novas tecnologias, faz parte da agenda dos profissionais do setor interessados na obtenção de uma produtividade mais elevada nos canaviais. Um compromisso obrigatório, nessa jornada, é a Agrishow 2.003 – Feira de Tecnologia Agrícola, que será realizada em Ribeirão Preto (SP), de 28 de abril a 3 de maio. Considerada uma das três maiores do mundo, essa feira terá, com certeza, muitas novidades para o setor sucroalcooleiro, entre as quais, o Cultivador Novo São Francisco, da DMB Máquinas e Implementos Agrícolas. Esse equipamento ajuda a “combater” a compactação do solo, um dos maiores inimigos da fertilidade e, por conseqüência, da produtividade.

O cultivador da DMB, utilizado após a colheita, é dotado de apenas uma haste, que se bifurca quando é iniciado processo de subsolagem. Durante a operação, ele chega a atingir uma profundidade de até 38 centímetros. “O Novo São Francisco trabalha mais próximo à linha, podendo ser utilizado em cana crua ou queimada”, afirma Auro Pardinho, gerente de marketing da DMB. No ano passado, a empresa lançou na Agrishow, um conjunto sulcador e adubador, que tornou-se um aliado de diversas usinas, que buscam a otimização da produção agrícola. Durante a sulcação, esse equipamento – que usa pneu de alta flutuação – faz a distribuição da torta de filtro durante a mesma operação, o que contribui para a redução da compactação do solo.

O gerente agrícola da Usina Passa Tempo, de Rio Brilhante (MS), Admar Strini Junior, descobriu esse conjunto durante a sua “garimpagem” na Agrishow 2.002, e passou a utilizá-lo no plantio de inverno, de maio a setembro. “Anteriormente, não fazíamos plantio nessa época, porque a elevação da temperatura do solo era bem acentuada. O equipamento atendeu a expectativa e realizamos o cultivo com pleno êxito”, comemora..

Na Agrishow, o visitante poderá conhecer também o sistema de fertirrigação por gotejamento subterrâneo da Nefatim Brasil, que tem sede em Ribeirão Preto (SP). Apesar do custo da irrigação na cana-de-açúcar provocar resistências e reações negativas em profissionais e empresários de usinas e destilarias, o gerente de mercado para o setor sucroalcooleiro da empresa, Flávio Luís de Aguiar, garante que essa tecnologia tem viabilidade econômica. Segundo ele, o custo – que varia entre 1.200 a 1.400 dólares por hectare -, pode ser pago na comercialização de uma colheita de açúcar que tem um aumento de produção entre 12 a 14 toneladas a mais por hectare em apenas um ano. “A produtividade é significativamente alterada, ficando entre 120 e 140 toneladas, em média, por 10 a 12 cortes. Em São Paulo, existe experimento, iniciado em 1.996, que obteve média de 152 toneladas por hectare para seis cortes. No Nordeste e em Goiás já foi possível colher 226 e 194 toneladas por hectare, respectivamente, em 12 meses”, ressalta

Inventada pela Nefatim em Israel, em 1.964, a tecnologia de irrigação por gotejamento otimiza e racionaliza o uso de água, além de fornecer fertilizantes, de maneira parcelada, ao longo do ciclo. “Como não se molha folhas e ramos, somente as raízes, provoca uma redução da propagação de pragas e doenças, o que diminui a necessidade de pulverizações com pesticidas”, explica o gerente de mercado da empresa. Esse sistema já é empregado em 2.300 hectares de terra no Brasil, sendo 1.800 implantados pela Nefatim em 26 usinas e destilarias. No mundo, a irrigação por gotejamento subterrâneo é utilizada em 170 mil hectares de áreas com cana-de-açúcar..

Serviço

CanaVialis – Campinas – SP – Tel. (19) 3283-0112

Centro de Tecnologia Copersucar – Piracicaba – SP – Tel. (19) 3429-8311

DMB – Ribeirão Preto – SP – Tels. (16) 647-3838; (16) 3946-1800

Centro Apta Cana/ IAC – Ribeirão Preto – SP – Tels. (16) 621-1110 e (16) 637-2650 – e-mail: canaiac@netsite.com.br

Netafim Brasil – Ribeirão Preto – SP – Tels. (16) 601-8000 e (14) 9775-3685 – E-mail: conquista@saloonnet.com.br

UFSCar – Araras – SP – Tel. (19) 3542-3940

Usina São João – Araras – SP – Tel. (19) 3543-7800

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