Para produtores, subsídio à gasolina destrói competitividade do etanol

Os desafios do setor sucroalcooleiro estarão em pauta durante esta semana em São Paulo. Hoje (24) pela manhã, na abertura do XXVII Congresso da International Society of Sugar Cane Technologists (ISSCT), pesquisadores e empresários de diversos países se reuniram em um dos pavilhões do Transamérica Expo Center, para conhecer alguns dos principais trabalhos de pesquisa e desenvolvimento feitos no mundo sobre a cadeia produtiva da cana-de-açúcar.

Durante a abertura do evento, Rubens Ometto, presidente do Conselho de Administração da Cosan e presidente da atual edição do Congresso, falou sobre as grandes mudanças que aconteceram no setor nos últimos anos, com crescimento da demanda e perspectiva de novos negócios. O executivo também aproveitou para falar dos desafios que estão pela frente. “Hoje, o nosso “muro” são os mercados fechados. Mas, ao invés de transformá-lo no muro das lamentações, temos que usar a inteligência e a determinação para vencê-lo”, afirmou.

Ometto revelou sua preocupação com a política de subsídios brasileiros à gasolina. “É só observar como as últimas reduções no preço da gasolina têm impactado a competitividade do etanol e complicado a vida da Petrobras”, destacou. Segundo ele, a “prática do artificialismo” destrói a competitividade do biocombustível de cana, além de criar uma “demanda desnecessária” à gasolina.

Para Timothy Murray, presidente da Comissão Executiva e do Conselho do ISSCT, um outro desafio do setor é enfrentar a concorrência de produtos como o açúcar de beterraba, por exemplo. Esse embate, segundo ele, requer boas doses de inovação, pesquisa e investimentos em tecnologia. “Como produtores de açúcar a partir da cana, temos que enfrentar essa concorrência e estabelecer uma agenda, junto com os técnicos e pesquisadores, para discutirmos as alternativas”, afirmou.

Demanda global

Ometto afirmou ao público presente ao congresso que um dos fatores que vem ajudando a produção canavieira do Brasil a seguir crescendo, com investimentos em desenvolvimento e tecnologias é a desregulamentação do setor, ocorrida no final dos anos 90. “Isso tem nos permitido investir e contribuir para superar o desafio de atender à maior demanda global por energias renováveis, sem que para isso tenhamos que criar um novo proalcool”.

Segundo ele, fundamental é investir para que a cadeia tenha condições de competir com produtos de qualidade e alta tecnologia e com melhores preços. “Para isso, a pesquisa e a tecnologia que vêm sendo desenvolvidas, gerando novas variedades, o que é fundamental”, ponderou. Por fim, o executivo afirmou que um setor estável e seguro de seu desenvolvimento é capaz de levar o Brasil a assegurar o seu papel na geopolítica mundial.

Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, a questão do papel do setor na geopolítica é de suma importância. “Sempre achei que o etanol poderia mudar o cenário político e econômico mundial”, afirmou.

Rodrigues, que também é presidente honorário do ISSCT, argumentou que muitos países têm condições para produzir alimentos, “mas não agroenergia. Porque ela só é competitiva onde existe sol o ano inteiro e os países do hemisfério sul têm isso”, ressaltou. Como exemplo, ele citou o fato de 45% da matriz energética brasileira ser composta por fontes renováveis, percentual três vezes superior à média mundial.

Ele revelou que é nessa região do globo, onde estão os países da América do Sul, África Sub-Saariana e alguns países mais pobres da Ásia, que a renda mais cresce e, consequentemente, a população. “Em alguns anos, esses países serão os responsáveis por produzir as commodities mais importantes para o mundo”, ressalta.

Apesar do cenário positivo à frente, Rodrigues ressalta que é fundamental o desenvolvimento de um plano estratégico eficaz para o setor no Brasil. “Hoje temos muitos encontros, discussões, mas, apesar dos esforços, ainda não temos um plano consistente”.

Em resposta ao apelo de Rodrigues, a Secretária de Agricultura do Estado de São Paulo, Mônika Bergamaschi, afirmou que São Paulo tem condições de contribuir de forma significativa para a construção desse plano estratégico. “Somos os maiores produtores de cana do país, com 21,5 milhões de hectares plantados”.

A secretária ressaltou também que o Estado tem 55% de sua matriz energética vinda de fontes renováveis e que a meta é chegar a 69% em 2020. “Não tenho dúvidas de que a chave para fornecer alimento e energia para as pessoas está na pesquisa e na inovação”, concluiu.

Texto extraído Midia News

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