Os contratos futuros de álcool e açúcar da BMF

Os contratos futuros de açúcar e álcool foram criados pela Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo (BMF) e pelos agentes econômicos envolvidos na produção desses produtos na década de 1990, quando ocorreu a desregulamentação do Complexo Agroindustrial Canavieiro. No período anterior, essa transação financeira não era necessária, pois os preços eram tabelados pelo Estado e, assim, não havia como tentar evitar os riscos das variações de preço.

Este texto tem por objetivo mostrar que os negócios com açúcar e álcool na BMF têm tido baixo volume se comprados com o café, outro produto que foi amplamente regulado pelo Estado. Assim, pretende-se apontar a necessidade da discussão de uma agenda de pesquisa comparativa sobre esses contratos, visando entender as causas deste baixo desempenho e da viabilidade da manutenção desses contratos pela BMF.

As especificações técnicas desses contratos são as seguintes: o açúcar deve ser cristal especial, com mínimo de 99,7 graus de polarização, máximo de 0,08% de umidade, máximo de 150 cor ICUMSA, máximo de 0,07% de cinzas, para entrega no Município de São Paulo e as negociações são feitas em sacas de 50 kg e são cotadas em dólares por saca; o álcool segue as especificações técnicas definidas pela Agencia Nacional do Petróleo (ANP), o tamanho do contrato é de 30 m3 e as negociações são feitas em Reais por m3.

As tabelas 1 e 2 ajudam a ilustrar a atual situação desses contratos. No caso do açúcar, percebe-se que a produção nacional está crescendo continuamente desde 2000, mas o número de contratos vem se mantendo constante em torno de 3% da produção.

No caso do álcool, a situação se repete. Percebe-se uma aceleração dos negócios entre 200 e 2001, mas em seguida os negócios voltam a cair, sendo que em 2004 apenas 8% do volume produzido foi negociado em bolsa.

Quando esses resultados são comprados aos do contrato de café arábica, um produto com um passado de desregulamentação recente como o açúcar e o álcool, percebe-se uma grande diferença. O número de contratos negociados na BMF desde 200 cresceu de forma exponencial e atingiu um volume de 200% da produção de café nacional em 2004. Se os contratos da cadeia sucroalcooleira atingissem os níveis de negócios do café, seriam negociados 958.724 contratos para o álcool e 190.861 para o açúcar, aproximadamente.

Mas porque isso está ocorrendo visto que a produção de açúcar e álcool está aumentando e que as perspectivas de exportação e consumo interno são positivas? Será que não existe risco de preço e por isso necessidade de hedge? Essas perguntas precisam ser respondidas de forma adequada através de uma ampla pesquisa juntos aos agentes da cadeia sucroalcooleira.

Mas podem-se discutir algumas hipóteses. Uma delas seria a falta de conhecimento dos possíveis operadores (produtores) com relação aos mercados futuros, aliada à fragilidade dos mercados de derivativos agrícolas, muito aquém de nossa capacidade e qualidade produtiva. A maioria dos nossos produtores ainda sente dificuldade na hora da negociação e não entende bem a lógica dos mercados de derivativos. Pesquisa realizada na Esalq em 2005 aponta que os produtores de açúcar e álcool preferem manter operações financeiras mais tradicionais a direcionar recursos para o hedge de preços e câmbio.

Outro fator é a idade dos contratos futuros agrícolas, e conseqüentemente, dos de álcool e açúcar, pois ainda são recentes, foram criados em 1998 e 1996, respectivamente, estando em fase de maturação, quando comprados com seus congêneres internacionais.

A concorrência internacional também atrapalha a liquidez na BMF, pois parece que muitos agentes preferem fazer operações de hedge de açúcar fora do país. Mas, por outro lado, a Bolsa de Nova Iorque criou um novo contrato de álcool e ainda não está tendo êxito, pois o Brasil é o grande produtor mundial desse produto.

Outro fator é o modelo Consecana de precificação da cana-de-açúcar, pois o preço é formado de trás para frente, do produto final para a matéria-prima. Assim, o produtor rural tem pouco poder na formação do preço da cana e muitos deles não entendem bem como o cálculo é feito. Por outro lado, muitos produtores têm postura tradicional e não têm interesse em investir em mercados futuros para evitar os riscos de preço.

A estrutura da cadeia produtiva canavieira no Brasil também pode ser um fator que prejudica o volume de contratos negociados na BMF, visto que ela é integrada para trás, ou seja, as usinas controlam cerca de 75% do fornecimento da matéria-prima. Nos elos para frente, as usinas negociam com elos concentrados, como a indústria de alimentos e o varejo. Assim, o número de compradores e vendedores é relativamente pequeno e isto prejudica a eficiência nos mercados, sendo que pode ocorrer comportamento oportunista e manipulação dos preços.

Assim, parece que a principal diferença que existe nesses mercados é quanto à integração, pois quando se comparam os contratos em análise com o de maior liquidez na BMF, o café, nota-se que não há níveis significativos de integração para frente e para trás da indústria de torrefação e moagem. Assim, existe uma grande quantidade de produtores de diversos portes que podem negociar na bolsa e uma grande quantidade de indústrias de diversos portes que podem fazer o mesmo.

A conclusão que fica da exposição acima é que se faz necessário uma ampla pesquisa com todos os agentes envolvidos na cadeia sucroalcooleira para descobrir os reais problemas desses contratos para, posteriormente, corrigi-los, fazendo com que os agentes tenham uma ferramenta efetiva de administração de risco de preços.

Carlos Eduardo de Freitas Vian

Professor Dr. do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq/USP

cefvian@esalq.usp.br

Elcio A Geraldini Jr

Graduado em Economia pelo ISCA Faculdades de Limeira. Consultor de empresas

elciogeraldini@yahoo.com.br

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