Olam diz que ainda quer comprar usinas no Brasil

A Olam International, uma das maiores tradings de commodities agrícolas da Ásia, voltará a prospectar usinas de cana-de-açúcar no Brasil. Não diz quando nem onde, mas garante que a entrada no mercado sucroalcooleiro brasileiro é “essencial” para a expansão dos negócios da companhia no segmento.

“Não desistimos de investimentos em açúcar no país, inclusive de aquisições de usinas”, afirmou ao Valor Sathyamurthy Mayilswamy, vice-presidente sênior para a América do Sul da companhia. “Definitivamente queremos avançar nisso. Mas somos uma empresa de capital aberto e, por isso, só podemos anunciar aquilo que é concreto”.

Com faturamento global de US$ 17,1 bilhões no ano fiscal de 2012 – números regionais não são revelados -, a companhia com sede em Cingapura está presente em 65 países e atua no comércio de produtos agrícolas, sobretudo café, algodão, açúcar, cacau, castanhas e especiarias.

No Brasil desde 2005, a Olam está posicionada atualmente entre as principais comercializadoras de café e algodão certificados (100% exportados), e há dois anos deu início à produção de tomates para a indústria de alimentos local, com fazendas em Goiás e São Paulo.

O receio do executivo em detalhar novos aportes – aqui ou na Argentina e no Uruguai, os outros dois países sob o seu comando – pode estar associado ao negócio de US$ 240 milhões com a Usina Passos, na cidade mineira de mesmo nome, desfeito na última hora em dezembro do ano passado e que marcaria a estreia da trading na produção de açúcar no Brasil.

Na época, a Olam informou que pagaria US$ 126,8 milhões pela usina e desembolsaria outros US$ 115,5 milhões em cinco anos para aumentar a capacidade de moagem de cana da unidade. O compromisso de compra chegou a ser oficializado pela empresa na bolsa de Cingapura, onde está listada.

“Estamos sempre em conversas com pequenas e médias usinas aqui”, diz Sathya, como é conhecido. Açúcar, ele explica, é o caminho natural para investir no Brasil, dada a oferta do produto e a necessidade mundial do adoçante. “Seria [uma produção] para exportação. Mas antes precisamos focar nas operações já existentes”. Nesse sentido, grãos em alta no mercado, como soja e milho, estão fora de cogitação no curto prazo. Óleo de palma (dendê) também, apesar dos investimentos que a Olam tem feito em plantações na África e do interesse do Brasil em expandir a produção no Pará para reduzir a dependência de importação.

“E olharíamos para a aquisição de terras no Brasil se o governo permitisse estrangeiros”, afirma o executivo indiano, que há cinco anos mudou-se com a família para São Paulo. “Não tinha como não ficar animado. É um país agrícola”.

Nos últimos meses, no entanto, qualquer expectativa de crescimento via aquisições foi jogada por terra. A trading asiática anunciou no fim de 2012 uma reestruturação na tentativa de reduzir seu ritmo de investimentos para o período de três anos a algo em torno de 1,2 bilhão de dólares de Cingapura (o equivalente a US$ 964 milhões na época). A decisão foi motivada pela acusação do fundo britânico Muddy Waters, do especulador Carson Block, de que a companhia se tornaria insolvente, citando práticas de contabilidade agressivas e alto endividamento.

A partir daí, as operações em alguns negócios e países foram enxugadas de forma a liberar aproximadamente US$ 500 milhões em caixa. Além disso, a Olam fixou como meta começar a gerar fluxo de caixa livre no ano fiscal de 2014, que terá início em 1º de julho.

Para o Brasil, o resultado dessa reorientação foi a interrupção das conversas com a Usina Passos. Segundo fontes do mercado, a companhia teria feito exigências impossíveis de serem cumpridas, quando na verdade a decisão estaria atrelada às turbulências pelas quais atravessava em nível global.

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