O jogo argentino com o açúcar

“O Mercosul não se constrói com ameaças”, bradaram enraivecidos sindicatos e associações de produtores argentinos, em anúncios que tomaram conta dos jornais no dia 21 de março último. Eles reclamaram que o “açúcar não faz parte do Mercosul porque o Brasil faz há quase 30 anos o maior e o mais bem-sucedido programa de energia alternativa de biomassa (Pró-Álcool)”.

Afirmaram que os engenhos brasileiros destinam metade da cana-de-açúcar para fabricar álcool combustível e a outra metade para fabricar açúcar. “Devido ao subsídio implícito nesse sistema, único no mundo, o Brasil quadruplicou suas exportações de açúcar nos últimos dez anos com a conseqüente destruição dos preços no mercado internacional”, concluíram, com uma admiração inequívoca.

A celeuma é só porque os deputados federais Kátia Abreu (PFL/TO) e Mendes Thame (PSDB/SP) propuseram que o Brasil deixe de importar produtos com açúcar argentino, como balas e doces, em represália à aprovação pelo Congresso vizinho da sobretaxação de 40% para cada grama de açúcar brasileiro importado.

A admiração inequívoca a que me refiro é como se traduz o medo danado que eles têm da nossa indústria sucroalcooleira, uma vez que sabem que não podem concorrer com ela. Mas os argentinos estão certíssimos quando defendem seus produtos, mesmo que para isso repitam a mentira e distorçam fatos, como é o caso do açúcar. Reclamam que estão sendo desrespeitados pelo Brasil, mas na verdade é o Brasil que está sendo desrespeitado desde a assinatura do Tratado do Mercosul, quando, inexplicavelmente e já com a habilidade que vêm aperfeiçoando desde aquela época, o açúcar não entrou na pauta de negociações.

O subsídio que eles acreditam existir não passa de um sistema muito

eficiente que o Brasil construiu ao longo de décadas. Por que reclamam tanto de um sistema tão vitorioso? Por que não copiam? Não imitam, como fazem outros países? O argentino, que é duro na queda, pode se consolar com os americanos, que são teimosos mas inteligentes, pois copiaram nosso sistema e o implantaram com enorme sucesso nos Estados Unidos, que, aliás, em dois anos vão produzir mais álcool que o Brasil.

A postura argentina é um atentado à soberania nacional, um desrespeito ao Mercosul, uma mentira deslavada. A Argentina sempre reclamou de nossa indústria sucroalcooleira, talvez pelo fato de obter ganho de produtividade em torno de 2,70%, 3% ao ano nos últimos 20 anos e de ter, de longe, os menores custos de produção em todo o mundo – e não somos nós que dizemos isso. Aliás, o segundo menor custo de produção do mundo é o Nordeste do Brasil.

Precisamos acabar com a catimba argentina, porque é inadmissível o estrago que eles fizeram nos últimos 15 anos, distorcendo os fatos e denegrindo nossa imagem para todos os países açucareiros do mundo. E uma mentira, de tanto ser repetida e não contestada, acaba se tornando verdade absoluta.

Isso aconteceu porque eles se acostumaram com o Brasil recuando sempre.

Na última crise sobre esse assunto, que vez por outra volta à tona, sugeri às nossas entidades que fizessem algumas propagandas – imaginem uma página de jornal com algo deste tipo: “Presidente, não se preocupe, eles são assim mesmo. Catimbam no futebol, no comércio… deixa pra lá!”.

Nós é que sabemos o quanto nos custou desfazer a péssima imagem que o mundo tinha a nosso respeito, fruto da campanha difamatória argentina. Nossos parceiros no Global Alliance, os 17 países açucareiros como Austrália, Índia, Canadá, Tailândia, Guatemala, Chile, Colômbia e África do Sul, vieram conferir nosso sistema e constataram que não há subsídios. Melhor ainda, nos apóiam no pleito da OMC de reformular as regras comerciais para um mercado mais justo, com quebra de barreiras tarifárias para o açúcar brasileiro na

Europa e nos EUA.

Os franceses já começaram a investir aqui. Os japoneses e suíços também querem. E a Argentina? Só ela não descobriu, por exemplo, que o álcool é o melhor e mais barato oxigenante para a gasolina, como aconteceu com Austrália, Índia, China, EUA, Tailândia, só para citar alguns países.

Testemunhamos uma guerra onde o mais forte enfrenta o menos forte e vemos que contra o mais forte é preciso recuar, muitas vezes, e contra o menos forte podemos ser mais agressivos. Infelizmente temos tido a mesma postura tímida diante do mais forte economicamente e também do menos forte do que nós. O perdedor nesse processo é o consumidor argentino, que poderia desfrutar de um açúcar mais barato. Todo mercado é importante, mas quando não exportamos açúcar para a Argentina o produto vai para outro país e a Argentina não importa do Brasil, mas o faz de outro país.

O que é inadmissível para nós, cidadãos brasileiros, é o jogo sujo que

fazem, porque interfere negativamente dentro do Global Alliance, nas

negociações do Mercosul e entre o Mercosul e a União Européia.

Maurilio Biagi Filho é conselheiro da União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (UNICA), integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e vice-presidente da Associação Brasileira da Infra-estrutura e da Indústria

de Base (Abdib).

O jogo argentino com o açúcar

“O Mercosul não se constrói com ameaças”, bradaram enraivecidos sindicatos e associações de produtores argentinos, em anúncios que tomaram conta dos jornais no dia 21 de março último. Eles reclamaram que o “açúcar não faz parte do Mercosul porque o Brasil faz há quase 30 anos o maior e o mais bem-sucedido programa de energia alternativa de biomassa (Pró-Álcool)”. Afirmaram que os engenhos brasileiros destinam metade da cana-de-açúcar para fabricar álcool combustível e a outra metade para fabricar açúcar. “Devido ao subsídio implícito nesse sistema, único no mundo, o Brasil quadruplicou suas exportações de açúcar nos últimos dez anos com a conseqüente destruição dos preços no mercado internacional”, concluíram, com uma admiração inequívoca.

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