Nova fábrica vai produzir guardiães para canaviais

O Brasil poderá começar a operar em breve a primeira “fábrica” para produção de nematóides – vermes de até 1 milímetro de comprimento cuja principal função é atacar pragas de plantas. O feito é do Instituto Biológico, da Secretaria de Agricultura de São Paulo, que anuncia para o primeiro semestre de 2009 a abertura oficial da unidade, localizada em Campinas, após um período de cinco anos de pesquisas.

A experiência inédita terá como foco inicial o bicudo da cana, um dos piores pesadelos do setor sucroalcooleiro. “O carro-chefe do Estado é a cana-de-açúcar e por isso estamos começando com ela”, afirmou ao Valor o diretor-geral do Instituto Biológico, Antonio Batista Filho. “Até então só tínhamos pesquisa nessa área. A partir de agora teremos produção em escala industrial”. Segundo ele, a estimativa é de uma produção inicial de nematóides para dois mil hectares com plantio de cana no Estado.

A produção desses vermes “do bem”, como diz Batista, só está sendo possível graças à reativação de um dos 33 laboratórios do instituto, em Campinas, que está em fase final de adaptação e deverá ser entregue em janeiro. Só a atualização do laboratório consumiu R$ 100 mil. “Se pensarmos em tudo o que já foi investido nos cinco anos em pesquisa, foram muito reais”, diz Batista.

Os nematóides, no entanto, ainda não serão a salvação da lavoura, alerta o diretor, mas uma ferramenta a mais para o controle biológico do bicudo da cana, hoje ainda contido com o uso amplo de produtos químicos.

Os pesquisadores levarão ao canavial o verme de nome Heterorhabditis, gênero de nematóide que carrega em seu intestino uma bactéria fatal. Assim que penetra no inseto, ele libera a bactéria, que se multiplica e provoca a morte do hospedeiro. O processo todo dura de 24 horas a 48 horas.

O Heterorhabditis tem também uma vantagem: seu peculiar comportamento de “procura e perseguição” do hospedeiro. Graças a quimioreceptores na região cefálica, ele é capaz de localizar com facilidade o bicudo através, sobretudo, das liberações de gás carbônico da vítima.

“Foi a melhor resposta ao bicudo da cana que encontramos”, afirmou o pesquisador Luis Garrigós Leite, do Laboratório de Controle Biológico do Instituto. “Os testes iniciais com nematóides apresentaram ganho de produção de 17 toneladas de cana, os mesmos ganhos registrados com os inseticidas químicos”.

Segundo o pesquisador, bioinsetidas similares são fabricados em vários países, mas não são importados pelos produtores brasileiros por conta da burocracia (questão de sanidade) e do alto custo desses produtos. Leite diz que a dose de bioinseticida por hectare custa em média US$ 200.

Se sair do papel já em 2009, como deseja a direção, será a coroação do Instituto Biológico. Afinal, o órgão consagrou-se justamente por gerar um dos primeiros programas de controle biológico do Brasil, nos anos 20 – a agricultura paulista sofria naquela época com a broca do café. Um grupo de “notáveis” reunidos para discutir medidas de proteção contra a praga foi o embrião do instituto, formalizado em 1927. Sua primeira ação: enviar um pesquisador para Uganda, na África, em busca do predador da broca. Ele voltou com 1600 vespas (vivas), que trouxeram alívio aos cafezais.

De lá para cá, o instituto diversificou tarefas e ganhou a responsabilidade pela sanidade de todo o gado bovino que entra em São Paulo. Seu Laboratório de Viroses de Bovídios representa 40% das atividades do órgão e é o único que realiza no Estado o exame de sorologia para encefalopatias – doenças como aftosa e a língua azul. Outro setor de destaque é o de Monitoramento de Resíduos de Alimentos, que representa 20% da arrecadação anual de R$ 3,7 milhões do setor privado. A produção de antígenos para brucelose e tuberculose animal é outra área prioritária, respondendo a 45% do fornecimento nacional.

Batista prevê crescimento no orçamento geral do instituto, que começou a crescer na esteira do programa estadual de risco sanitário zero. Foram destinados para a sanidade animal e vegetal R$ 23 milhões em 2007. Neste ano e no próximo, a expectativa é de incremento de R$ 6 milhões.

“Boa parte desse dinheiro está sendo investida na modernização dos laboratórios”, diz Batista. Ele não esconde, porém, a satisfação com a criação da fábrica de nematóides. “Já existem fábricas que produzem vírus, bactérias e fungos que atacam insetos. Os nematóides são inéditos”

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