Nordeste se redime e recupera mata atlântica

Com cerca de 97% da área original de Mata Atlântica devastada pela ação do homem o Nordeste começa a despertar para a importância da preservação ambiental da área que contém uma das maiores biodiversidades do planeta. Apontado como o responsável por grande parte desta situação, o setor sucroalcooleiro se redime e é hoje um dos grandes aliados para a preservação da Mata Atlântica.

Reservas particulares proliferam em quatro estados da região e já somam cerca de 13 mil hectares. Para o superintendente do Instituto para Preservação da Mata Atlântica —IPMA, Fernando Pinto, esta área deverá ser ampliada para algo próximo dos 20 mil hectares até o final deste ano. “Um número bastante razoável para a Região”, diz. Os ganhos mais imediatos para as empresas que investem na preservação do meio ambiente surgem na forma de marketing ambiental e na preservação de mananciais

De acordo com o superintendente da organização não governamental 100% brasileira, o IPMA possui no momento 32 usinas-sócias engajadas em projetos de preservação da Mata Atlântica. Chamadas de Reservas Particulares do Patrimônio Natural —RPPN, as áreas de preservação ambiental da vegetação nativa que contam com o apoio da ONG encontram-se espalhadas pelos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. O estado com maior concentração de usinas e destilarias engajadas é Alagoas, com 22 RPPN. Em seguida aparece Pernambuco (4 unidades) e Rio Grande do Norte e Paraíba, com duas unidades cada.

“Os resultados são positivos. Hoje contamos com 32 usinas envolvidas no projeto e a procura é crescente. No momento estamos mantendo contato com seis empresas da Paraíba. Outras três, localizadas em Pernambuco, passaram a ser usinas-sócias este ano”, garante Fernando Pinto. Para integrar o quadro de “sócios” as usinas passam por uma avaliação de sua situação ambiental e o interesse para a preservação é criteriosamente analisado. Quando o cadastro é aprovado as usinas desembolsam uma quantia de R$ 450,00 mensais para auxiliar os trabalhos desenvolvidos pela ONG.

Estes recursos servem para a manutenção do viveiro de mudas – que conta com uma capacidade de produção de 1 milhão de mudas/ano – e para o desenvolvimento de projetos sócio-ambientais. O IPMA fornece as mudas necessárias ao replantio, acompanhamento técnico, orientação e coleta da sementes nas áreas nativas de Mata Atlântica. “Só não fazemos a implementação, que fica a cargo das próprias empresas. Elas é que fazem o replantio da vegetação. Frise-se que não se trata de mero reflorestamento. O trabalho é desenvolvido de forma a ser uma recomposição natural induzida de forma a acelerar o processo que a própria natureza realiza ao longo dos anos”, explica.

Segundo ele, a procura pelas mudas é crescente e cada vez mais as empresas procuram por novas variedades. Em 2002 foram disponibilizadas no viveiro do IPMA mudas de 65 espécies diferentes da Mata Atlântica. Este ano, contudo, a oferta de variedades deve cair para cerca de 40 espécies. A explicação para isto está no aspecto climático – as chuvas podem afetar a oferta de sementes nas matas, por exemplo. Coisas de quem trabalha com a natureza.

Alagoas replanta 500 mil mudas desde 2001

Apesar da aparente dificuldade os resultados são visíveis. Somente em Alagoas já foram replantadas mais de 500 mil mudas de árvores desde 2001. O resultado é considerado tão bom que o programa de recomposição natural induzida está sendo levado para Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Associado aos projetos de preservação ambiental, o IPMA também procura trabalhar a sustentabilidade através do artesanato e ecoturismo, educação ambiental, planos de manejo e pesquisas científicas. “O objetivo desta nova etapa é envolver não apenas as empresas mas também as comunidades”, acrescenta Fernando Pinto.

Coruripe planta coqueiro Ouricuri em áreas acidentadas

A Usina Coruripe Açúcar e Álcool, pertencente ao grupo alagoano Tércio Wanderley, destina atualmente boa parte de seus 35 mil hectares para a preservação da Mata Atlântica. O programa teve início em 2001, com a implantação das primeiras RPPNs, e hoje a área de mata nativa chega a 7,5 mil hectares. Outros 689 hectares são ocupados com áreas de reflorestamento.

Associada ao conservacionismo das áreas de Mata Atlântica, a Coruripe vem implantando, juntamente com a Prefeitura do município de Coruripe e a Associação das Artesãs do Pontal de Coruripe, um projeto no qual dispensará parte de seus canaviais localizados nas áreas mais acidentadas visando o plantio do coqueiro Ouricuri. O Ouricuri é uma espécie nativa da Mata Atlântica e muito utilizado no artesanato. A extração contínua vem colocando em risco esta atividade. Parte dos 689 hectares de reflorestamento é destinado ao replantio desta espécie com a utilização de mudas produzidas na própria usina.

A biodiversidade e as iniciativas de preservação fizeram com que a Usina Coruripe fosse reconhecida pelo Conselho Nacional da Reserva da Bioafera da Mata Atlântica – órgão reconhecido pela Unesco – recebendo a homologação como Posto Avançado da Biosfera da Mata Atlântica. A usina também foi a primeira do Brasil a receber esta homologação. Entre os projetos implementados estão, ainda, a existência de corredores naturais de vegetação, proteção de matas ciliares e pesquisas científicas em parcerias com institutos de pesquisas e universidades.

Usina Salgado

Os maiores ganhos para as usinas não são apenas na preservação das últimas áreas de Mata Atlântica da região. “Os resultados são grandes para o próprio trabalho comercial das usinas. Um bom projeto de preservação auxilia até mesmo na hora de exportar. Muitos países preferem adquirir produtos de empresas com foco na responsabilidade sócio-ambiental”, afirma Fernando Pinto, superintendente do Instituto para Preservação da Mata Atlântica —IPMA. De olho nesta dupla oportunidade, o setor luta contra a devastação de anos atrás. Uma das usinas que pretendem ingressar no seleto rol das empresas ambientalmente responsáveis é a pernambucana Salgado.

A Usina Salgado possui cerca de 15 mil hectares. Deste total, 9 mil estão ocupados com cana. A empresa possui entre 600 e 800 hectares de Mata Atlântica e entre 1,2 mil e 1,5 mil hectares de manguezais.

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