Mercado de Açúcar – Trem Fantasma

O mercado de açúcar em NY fechou a semana entre 21 e 30 dólares por tonelada de queda com maior pressão nos meses com vencimento mais curto. Explica-se: a acentuada desvalorização do real na semana – 7,14% pelo fechamento da Ptax – contribui para que todos fizessem a conta e percebessem que a fixação em reais era atraente.

Somam-se a isso a queda do petróleo abaixo de 41 dólares por barril (que saudades daqueles gurus que previram o preço do barril a 150, 200 dólares!!) que empurrou ladeira abaixo todas as commodities; e os 500.000 empregos que desapareceram no mês de novembro nos EUA acendendo o alerta máximo de recessão inexorável para 2009. Por falar em barril a 41 dólares, os combustíveis renováveis estão na berlinda: o etanol está 50% mais caro que a gasolina nos EUA.

Evidentemente que a queda do açúcar esta semana deveu-se uma vez mais a fatores exógenos. Deveremos entrar a semana com uma correção dos preços para cima, a menos que o real continue a dar sobressaltos. Um ponto, no entanto, que deve ser observado é que a deterioração da economia mundial faz com que os investidores saiam de tudo que lhes pareça ter risco.

E, nessas horas de agonia, as commodities são um desses fantasmas assustadores. Por outro lado, a demanda física de açúcar continua de férias em alguma ilha do Pacífico. A falta de crédito continua brava e o sentimento é que isso só vai melhorar depois das festas de fim de ano.

A posição em aberto apresenta ligeira melhora crescendo quase 450.000 toneladas na semana. Os fundos de índice continuam comprados o equivalente a 11.500.000 toneladas de açúcar.

Observando os últimos números da produção, consumo e exportação de açúcar para 2008/2009 publicados recentemente pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), e comparando-os com a média dos dois anos anteriores, até mesmo para atenuar eventuais distorções, temos alguns pontos interessantes.

Por esse critério, a produção mundial caiu 6.600.000 de toneladas capitaneada basicamente pela redução da safra na Índia. Já o consumo mundial, novamente pelo mesmo critério, cresceu nada menos que 7.000.000 de toneladas. Esse aumento deveu-se à expansão do consumo na China, próximo de 2,2 milhões de toneladas e da Índia, com 1,5 milhão de toneladas. Bem atrás vem o Brasil com 800.000 toneladas e Paquistão, Oriente Médio e Tailândia.

O comércio internacional continua estagnado, oscilando entre 49-51 milhões de toneladas por ano. As questões a serem observadas em 2009, ou seja, aquilo que pode fazer a diferença, são o custo de produção do Brasil em função da desvalorização do real e a crise internacional perversa que aponta para um crescimento menor em países locomotiva como a China e a Índia.

O Brasil continua competitivo em termos de custo de produção, o que não vai ocorrer com outros países produtores/exportadores. O real se desvalorizou em 39% nos últimos 12 meses, contra 29% da moeda paquistanesa, 36% da australiana, 24% da indiana e apenas 4% da tailandesa. A economia chinesa e indiana devem crescer 8% e 6.1%, uma queda significativa se compararmos os 9.6% e 7.7% anteriormente previstos.

O etanol, como já dito aqui nesse espaço por diversas vezes, vai sofrer com o derretimento do preço do petróleo no mercado internacional, que traz a sensação de “empobrecimento” das economias da Arábia Saudita e Emirados Árabes, grandes compradores de açúcar brasileiro. Os projetos de novas destilarias serão abandonados numa gaveta qualquer.

A gasolina mais barata pode trazer pressões para a redução do preço ao consumidor, muito embora exista a percepção de que fazer essa redução nesse momento pode afetar o fluxo de caixa da estatal brasileira do petróleo. A queda acentuada na venda de veículos no Brasil, segundo os números no site da Anfavea, podem levar a uma super oferta de etanol. Uma queda de 25% anualizada representa redução de consumo na ordem de 1,68 bilhão de litros sem contar a queda de consumo via redução da atividade econômica.

Há um ponto positivo no meio disso tudo: no começo de 2009, pode haver uma redução nos estoques de etanol e eventualmente jogar os preços para cima. No entanto, a necessidade de caixa por parte das usinas faz com que 60% delas vendam sua produção basicamente no dia seguinte, diminuindo o aproveitamento de eventuais oportunidades oriundas de redução pontual de disponibilidade.

Como fatores altistas para 2009, podemos citar a falta de tratos culturais. O setor de fertilizantes já está sentindo os reflexos da falta de crédito para o setor agrícola: queda de 30% na produção industrial de adubos, fertilizantes e defensivos agrícolas. Falta de trato por falta de grana é um fator altista. Fundamentalmente, ainda temos a Índia cuja safra se reduz em 20%.

Como fatores baixistas, temos uma penca deles: a falta de crédito pode provocar vendas a qualquer preço para fazer caixa; o nível de hedge por parte das usinas é pequeno e pode fomentar pânicos; as tradings continuam olhando para cima e assobiando, ou seja, estão comprando apenas da “mão para a boca”; o cenário mundial (ou mesmo interno) pode eventualmente trazer à tona alguns esqueletos que estavam “escondidos” por aí; a queda na venda de carros flex incomoda; e, por último mas não menos importante, a queda no preço do petróleo pode mudar estruturalmente a matriz de produção brasileira. Ou seja, 2010 deve ser um ano melhor. 2009 dá a sensação de que estamos sentados no trem fantasma: cada curva um susto.

Para quem tem peito e crédito: vender straddle de 11,50 centavos de dólar por libra-peso (venda de opção de venda e opção de compra do mesmo preço de exercício) para vencimento maio de 2009. Coleta um prêmio de 200 pontos. Se o mercado cair, fica comprado a 9,50 (risco pequeno), se subir fica vendido a 13,50. Se travar a dólar a – digamos – R$ 2,5000 liquida o açúcar a R$ 34,00 por saca PVU contra um custo aproximado de RS 22,00.

A boa noticia da semana foi a possível venda da bolsa de NY (hoje ICE, antiga NYBOT) para a CME, que inclui café, açúcar, cacau, suco de laranja e algodão. A ICE deu vários exemplos de sua pouca afinidade com as commodities e falta de tato para lidar com algumas questões. Uma delas, por exemplo, a lambança que fizeram no início desse ano com uma trading brasileira de açúcar liquidando a posição da mesma arbitraria e compulsoriamente. Seria um belo presente de Natal.

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