A limitada ajuda do etanol à inflação

O preço do etanol hidratado aparentemente chegou ao teto na entressafra de cana-de-açúcar. E foi um nível histórico, a maior cotação já registrada em valores absolutos, sem considerar a inflação, com o combustível negociado nas usinas a R$ 1,95 o litro nas duas últimas semanas. O valor é 53% superior ao de igual período do ano passado. Nos postos, o álcool também bateu recordes seguidos e o litro beirou os R$ 3 em São Paulo, Estado maior produtor e com o menor Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do País cobrado sobre o combustível.

Com o início da colheita da cana-de-açúcar na safra 2016/2017, usinas dão prioridade para a produção do etanol hidratado à fabricação de açúcar. Neste momento, companhias correm primeiro para abastecer os próprios tanques e evitar um colapso de abastecimento, sempre negado pelas próprias usinas e entidades setoriais, mas que se tornou iminente no fim da entressafra. Só não faltou etanol neste início de ano graças à queda no consumo com a alta nos preços e à crise econômica, e ainda porque usinas se atreveram a colher cana e a produzir etanol mesmo em condições climáticas adversas.

O aumento da oferta deve, naturalmente, baixar os preços do etanol nas usinas e nas bombas. Como é comum em começos de safra, usinas menos capitalizadas desovam a produção mais rapidamente em busca de liquidez e os valores recuam. Como o etanol e a gasolina – esta com entre 25% e 27% de álcool anidro misturado – respondem por uma fatia importante de indicadores de inflação, a queda é um alívio para o consumidor e, principalmente, para o governo desesperado em busca de boas notícias.

Mas a notícia ruim é que o recuo do preço do etanol nos postos e os impactos na inflação devem ser limitados e ainda restritos ao começo da safra. Projeções do setor apontam que R$ 1,85 seria piso. Isso porque se o litro álcool atingir esse valor nas usinas, uma baixa de apenas R$ 0,10, ou 5% sobre os atuais preços médios, o açúcar passa a ser muito mais remunerador. Na safra passada, em meados de 2015, o piso de preços do etanol foi de R$ 1,16 nas usinas, valor impensável para 2016/2017.

É claro que nem toda usina tem a capacidade de virar a chave e passar a produzir só açúcar. E se isso acontecesse, a pressão sobre o mercado mundial derrubaria também o preço da commodity. Mas o cenário de déficit global e de preços do açúcar em alta, além de câmbio positivo, mostram que o piso para o etanol nesta safra será mais alto que o da passada. É bom para o produtor. Mas muito ruim para o consumidor e para o governo.

Fonte: (Agência Estado)

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