Lições e aprendizagens

A leitura mais detida dos resultados destas últimas safras canavieiras na região Centro-Sul pode nos possibilitar alguns importantes ensinamentos.

Por exemplo, veremos que em condições de mercado liberado acima de tudo vigorará a lei da oferta e procura. Nas safras 1998/99 e 19999/00, nesta grande região, a moagem anual de cana superou a casa das 260 milhões de toneladas de cana foram esmagadas. As produções de açúcar e álcool inundaram os mercados e os seus preços desabaram. Quem não se lembra dos sombrios abril/maio de 1999, quando o etanol chegou a ser comercializado a humilhantes R$ 150/m3 e o açúcar a ridículos R$ 8,00/saco 50 Kg no mercado interno?

O cenário em 2000/01 foi totalmente diverso, em função da quebra da produção canavieira, da ordem de 22%, resultante da combinação de fatores financeiros (dificultando o manejo adequado dos canaviais) e climáticos. Houve forte retração na oferta de açúcar e álcool e novamente as forças do mercado se fizeram sentir. Desde meados de 2000 este mesmo mercado interno propicia ao açúcar excelentes preços, sempre superiores a R$ 20,00/sc. Ou álcool a mais de R$ 0,60 por litro (fonte: médias semanais calculadas a partir dos dados divulgados pelo CEPEA/ESALQ, referentes ao Estado de São Paulo).

Mas volta-se ao lado cruel do negócio: redução da moagem. O prezado leitor, por experiência própria, já terá percebido que a ociosidade da estrutura produtiva da agroindústria provoca dolorosa elevação dos seus custos fixos unitários. As conseqüências são nefastas: nossos estudos apontam neste último ano-safra incremento significativo nos custos de produção. Assim, sempre de acordo com nossos estudos, os custos de produção do açúcar, em média, atingiram R$ 13,15/sc 50 Kg e os do álcool o valor de R$ 375,00/metro cúbico.

Mas é importante frisar que estas elevações dos custos dos produtos finais absolutamente não foram sentidas na mesma intensidade por todas as empresas do setor sucroalcooleiro da região Centro-Sul. Destacamos dois motivos: primeiro porque a variação do contingente de cana moída não ocorreu à mesma taxa para todas as agroindústrias. Aliás, houve até usinas, na contramão da tendência geral, que aumentaram a sua moagem.

E segundo, pela presença de uma variável importantíssima nesta equação: quantidade relativa de cana moída fornecida por terceiros. Acompanhando (com muita justiça, frise-se) os excelentes preços do açúcar e álcool, pelo método Consecana, esta matéria-prima sofreu uma elevação espetacular em seu preço. Desta forma, coeteris paribus, quanto maior a proporção desta matéria-prima no contingente total de cana moída pela usina, mais oneroso se tornou este fator de produção para a empresa. Ou seja, comportamento oposto ao verificado nas duas safras anteriores, quando os péssimos preços daqueles produtos industriais “contaminaram” o preço da cana, pelo mesmo método Consecana.

Assim, dentre as agroindústrias sucroalcooleiras da região, haverá algumas poucas privilegiadas que operaram nesta última safra a plena capacidade e com matéria-prima 100% de produção própria. Constituiu este o melhor dos cenários. Se usualmente são já eficientes (custos baixos), fica fácil imaginar o quão se beneficiaram destes deliciosos ventos favoráveis do mercado em 2000/01.

No outro extremo estarão aquelas com expressivas participações de cana de terceiros e por questões diversas – financeiras e/ou climáticas e/ou estratégicas – com forte diminuição de moagem. Nesta situação não puderam aproveitar em sua plenitude os ótimos preços vivenciados neste último ano-safra.

Principal aprendizagem neste período? Simples: em tempos de mercado livre, Consecana, demanda de hidratado em queda livre, entre outros fatores, impossível dirigir eficazmente uma agroindústria sucroalcooleira sem um mínimo de planejamento. E devidamente apoiado por um efetivo sistema de informações gerenciais, com ênfase para os custos de produção.

Ivan Chaves de Sousa faz parte do Conselho Editorial do JornalCana

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