Invento da Dedini dobra produção de álcool carburante

Meta é dar início à comercialização ainda em 2003. Há muita ansiedade em Piracicaba, município de 330 mil habitantes a 160 quilômetros de São Paulo, capital: daqui a 18 dias a Dedini S.A. Indústria de Base, maior construtora de usinas de açúcar e álcool do mundo, com mais de 700 unidades no currículo, vai finalmente poder exibir a usineiros do Brasil e do exterior o seu invento. É algo que deve causar impacto: trata-se na verdade de uma nova tecnologia que pode dobrar a capacidade de produção de álcool carburante do País e que usa palha, bagaço e ponta em lugar do caldo da cana, a matéria-prima do processo tradicional.Do dia 14 a 19 de julho será promovido em Piracicaba o Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia do Setor Sucroalcooleiro.

Entre os convidados estarão 30 usineiros latino-americanos e dezenas de brasileiros. Todos irão se deslocar até o município de Pirassununga, a 80 quilômetros de Piracicaba, para conferir de perto a eficácia da nova tecnologia, que joga a atual produção de álcool no Brasil do patamar de 6,4 mil litros por hectare de cana para 12,05 mil litros. Em Pirassununga, dentro da Usina São Luiz, do Grupo Dedini, funciona há vários meses a usina-piloto com a nova tecnologia pelo processo de hidrólise, fermentação e destilação da palha e do bagaço da cana.

A Dedini patenteou o invento em todos os países onde existe razoável potencial de produção de álcool carburante a partir da cana. Sua expectativa é fechar o ciclo experimental da tecnologia e dar início à comercialização ainda neste ano.

A empresa está de olho tanto nas 309 usinas brasileiras como no mercado internacional para o álcool que deve passar por forte expansão após a esperada validação do Protocolo de Quioto.

Obrigados a reduzir suas emanações de gases poluentes, os países industrializados, segundo previsão do diretor corporativo da Dedini e presidente da DDP Participações S.A. (holding do grupo), Tarcísio Ângelo Mascarim, devem adotar programas de adição do álcool à gasolina. Outra convicção de Tarcísio Mascarim é que a produção de álcool a partir da cana é muito mais competitiva do que as demais tecnologias existentes no mundo.

Durante evento em julho, usineiros do Brasil e do exterior visitam piloto da nova técnica que opera em Pirassununga (SP). A ciência brasileira que versa sobre a produção de álcool e açúcar está perto de viabilizar uma idéia que dará ao País o poder que necessitará no esperado crescimento do mercado mundial de álcool combustível. As destilarias do País, que bem reguladas beiram hoje a produção de 6,4 mil litros de álcool com um hectare de cana, poderão chegar a 12.050 litros com o mesmo talhão. Como? Com um processo de hidrólise, fermentação e destilação de palha e bagaço da cana.

Esta será uma das principais novidades a circular no Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia do Setor Sucroalcooleiro (Simtec), evento que acontece entre os dias 14 e 19 de julho, em Piracicaba, interior de São Paulo. O evento pretende recolocar o pólo metal mecânico e de inteligência da região de Piracicaba como potencial fornecedor de bens de capital e de tecnologia para a produção de açúcar e álcool.

Recuperar a exportação

Para isso, 30 usineiros latino-americanos foram convidados para o Simpósio. É pela América Latina que o setor quer recuperar a capacidade exportadora. O grupo terá agenda cheia. Participará de palestras e de visitas. Entre as quais está a passagem pela Usina São Luiz, do Grupo Dedini, em Pirassununga. Lá verão em operação uma usina piloto para a produção de cinco mil litros de álcool.

A novidade nesta usina é a matéria-prima, pois ao invés de produzir álcool a partir do caldo, a unidade processa as sobras, palha e bagaço. A tecnologia, batizada de Dedini Hidrólise Rápida (DHR), patenteada em todos os países onde existe razoável desenvolvimento do setor sucroalcooleiro, tem conseguido quase que duplicar a produção de álcool combustível com a mesma área de cana.

Co-financiada por Dedini, Copersucar e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), esta é a primeira unidade em escala semi-industrial no mundo assentada sobre a tecnologia.

Sinais preliminares

Os resultados econômicos finais sairão ao término desta safra, o que ocorre no segundo semestre, mas os dados preliminares indicam que o potencial da tecnologia já permite produzir este álcool a um custo igual ao método convencional. Isso significa que o álcool DHR pode chegar a um preço de US$ 14 a US$ 15 o barril, o mesmo valor da tecnologia de produção que levou o Brasil a líder mundial em tecnologia para a produção de álcool a partir da cana. Hoje, o petróleo tipo Brent está próximo de US$ 30.

A expectativa da Dedini é encaixar a tecnologia na esperada demanda mundial por este tipo de combustível, o que deverá ocorrer com a inclusão do álcool na matriz de energia dos países desenvolvidos. Alguns concorrentes do Brasil também produzem álcool. Em geral, extraem de milho e de beterraba. O problema aí é o custo.

Cana é mais competitiva

“A produção de álcool a partir da cana é muito mais competitiva do que as demais tecnologias existentes no mundo”, afirma Tarcísio Ângelo Mascarim, diretor corporativo da Dedini S.A. Indústrias de Base e presidente da DDP Participações S.A., holding do grupo. A estratégia da empresa, que fechou neste ano o primeiro contrato de transferência de tecnologia para a montagem de destilarias na Índia (país que também determinará a adição de álcool à gasolina), é oferecer já a partir do próximo a tecnologia às empresas interessadas no mercado mundial para o álcool carburante.

A idéia em se utilizar sobras da cultura para se produzir mais álcool não é nova, mas dependia de uma inovação tecnológica. Alguns países tentaram, mas esbarraram na inviabilidade econômica do processo. O salto tecnológico obtido no Brasil foi desco-brir uma forma de viabilizar a hidrólise rapidamente, a etapa chave do processo.

Processo contínuo

A produção tem três etapas: hidrólise, fermentação e destilação. O domínio tecnológico mais importante estava na primeira fase. O desafio era juntar toda o material celulósico da cana (palha, pontas e bagaço) e transformá-lo rapidamente em açúcares. A tecnologia mundial para isso existia, mas o ciclo de conversão de celulose para açúcar é excessivamente lento (de 4 a 8 horas), o que exigia alto consumo de energia e geração de açúcar em quantidade pequena.

Na tecnologia DHR, os pesquisadores conseguiram desenvolver um processo contínuo. O material celulósico é convertido em açúcar num tempo máximo de 15 minutos. Algumas condições são necessárias para isso: uma pressão entre 25 e 30 atmosferas e um solvente eficaz para dissolver a lignina (a substância que garante a rigidez da celulose). Para isso, o processo usa o próprio álcool. Ao dissolver a lignina inicia-se o processo de transformação do material celulósico em açúcares. Após este processo inicial, parte-se para a fermentação e a posterior destilação.

Grupo Cosan alerta

O Grupo Cosan, a maior companhia do setor sucroalcooleiro do Brasil, mostrava, em matéria publicada na edição do Gazeta do Brasil de ontem, 24, que a nova tecnologia da Dedini vai concorrer com a geração de energia, pelo regime de co-geração, na medida em que as duas técnicas se utilizam da mesma matéria-prima (bagaço da cana). Armando Vieira Viotti, diretor industrial do Grupo Cosan, advertia que as usinas devem avaliar com bastante cuidado o assunto ao fazerem a adoção da nova tecnologia para o álcool pois algumas delas precisam de um bom volume de biomassa para conseguir gerar energia excedente.

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