Impasse no governo sobre plantio de cana trava zoneamento

O impasse dentro do governo sobre a liberação do plantio da cana-de-açúcar na Bacia do Alto Paraguai, no norte do Mato Grosso, explica o atraso na divulgação do zoneamento agrícola da cultura, segundo fontes próximas às negociações. Prometido para o segundo semestre de 2008, o zoneamento da cana vêm sendo constantemente adiado em função das diferentes visões entre os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente sobre a região em questão e seu potencial para a expansão canavieira.

De um lado, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, e o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, defendem a liberação do plantio da cana na região, que fica próxima do bioma amazônico e por onde correm os rios que deságuam no Pantanal. De outro, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, não aceita a ideia de que a lavoura de cana deve se expandir na região, pois os ambientalistas temem que esta expansão possa comprometer o ecossistema do Pantanal.

Ontem, ao longo do dia, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, reuniu-se separadamente com Stephanes e Minc, depois do cancelamento de uma reunião conjunta dos três com o presidente Lula para discutir o tema. A questão sobre a Bacia do Alto Paraguai é controversa e vem adiando investimentos do setor sucroalcooleiro na região, de acordo com o diretor executivo do Sindicato das Indústrias sucroalcooleiras do Estado do Mato Grosso, Jorge Santos.

Segundo ele, enquanto nos últimos três anos o setor sucroalcooleiro se consolidou no Mato Grosso do Sul, passando de 10 para 21 usinas, em Mato Grosso permanecem as mesmas 11 usinas há duas décadas. Destas 11 usinas, cinco estão na região da Bacia do Alto Paraguai: Itamaraty, Barralcol, Libra, Novo Milênio 1 e Novo Milênio 2. Apenas a Itamaraty é responsável pelo processamento de 7,4 milhões de toneladas de cana.

Santos explica que uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) de 1985, de número 001/85, diz que a expansão da atividade canavieira na região da Bacia do Alto Paraguai fica suspensa até que estudos técnicos sejam feitos na região. “A resolução informa que as empresas já existentes podiam continuar operando, mas a área de cana não poderia aumentar e nem novas empresas serem instaladas”, disse.

Porém, segundo o executivo, nestes mais de 20 anos, como nenhum estudo técnico foi feito e a proibição continua, a resolução poderá ser sacramentada no novo zoneamento. Ele disse, contudo, que nestes 25 anos o setor não fez nenhum dano ao meio ambiente e que a expansão da cana na região não irá afetar nem a Amazônia nem o Pantanal.

Enquanto o debate continua, três grandes empreendimentos na bacia estão sendo postergados. A Companhia Energética Vale Norte, por exemplo, pretende construir uma usina em Nova Olímpia com capacidade de processamento de 3 milhões de toneladas e a Cia da Terra tem projetos para construir duas usinas, cada uma com capacidade para processar 2,5 milhões de toneladas de cana. “Mas com esta ameaça do zoneamento, ninguém quer prosseguir os investimentos”, afirma.

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