“Il Naso !”

O falecido Paulo Brandão foi à Europa em meados dos anos 80, para se atualizar sobre as técnicas de projeção do mercado de energia elétrica. Na França, encontrou grandes equipes com especialistas em variados campos de matemática, economia e informática. Trabalhavam em instalações modernas, cada um equipado com um micro-computador que, na época, era um sonho inalcançável para os técnicos daqui devido à lei da informática. Foi bombardeado com as últimas novidades e por modelos mais novos e saiu tonto com a quantidade e qualidade de informações recebidas.

Na Itália, visitou um especialista conhecido pela cultura sobre o tema. Era um homem simpático e expansivo que o recebeu em uma sala pequena, cheia de papéis, que dividia com sua equipe constituída de … um auxiliar. Depois de uma conversa introdutória sobre futebol, ainda impactado pela experiência francesa, Paulo quis saber qual era, na opinião dele, a ferramenta mais importante no seu trabalho. Como resposta, o italiano disse: “Il naso!”, destacando cada sílaba e apontando o indicador para o nariz para não ficar dúvida sobre o que queria dizer. Em seguida desfilou uma série de exemplos em que a intuição se mostrava mais importante que as formas “técnicas” mais usadas na época.

Esta história resume o dilema que persegue o tempo todo os tomadores de decisão: O quê vai acontecer? Como estar preparado? As técnicas para responder vão do intuitivo “eu acho” do “naso” às “técnicas científicas” caracterizadas, hoje, por “modelos matemático-computacionais” que processam grandes massas de informações e propõem respostas.

A virtude nesse trabalho, naturalmente se resume a dosar adequadamente o “naso” e as sugestões das telas do “laptop”. É claro, porém, que o “naso” tem maior importância, pois é com ele que se decide o modelo a usar. E, como quem decide tem o livre-arbítrio de aceitar ou não a sugestão, é o “naso” que acaba dando a última palavra. Em certas culturas empresariais, no entanto, os modelos têm um “sex-appeal” muito forte e passam a propor resultados mesmo quando estes contrariam o bom-senso. Nesses casos, é difícil argumentar com um “eu acho” à luz de planilhas, gráficos coloridos, fórmulas matemáticas.

Eu me lembrei da história do Paulo quando vi, há poucos dias, uma discussão entre especialistas do setor elétrico sobre como atender as futuras demandas que era muito focada na questão dos modelos. A referência era basicamente os mesmos modelos de planejamento que, no início de 2000, nos brindaram com pérolas como a decisão de instalar 49 termelétricas até 2004. Note-se que a situação energética, então, era semelhante à atual quando havia uma folga na oferta energia e havia previsão de déficit com o crescimento da economia.

Como prova de que a miopia no assunto não é um monopólio tupiniquim, empresas estrangeiras para cá mandaram especialistas que, impressionados com tanta sapiência matemática, números e elevada precisão, recomendaram às matrizes investir centenas de milhões de dólares. Tudo isto avalizado por analistas financeiros e de mercado dos bancos e agências de crédito.

Da mesma forma que o assassino é quem aperta o gatilho e não a bala que fura a vítima, em geral os erros não estão nos modelos nem nas matemáticas, mas no seu emprego e uso inadequado, na super-simplificação da realidade e nas omissões de dados importantes. Os modelos de planejamento do setor elétrico padecem de praticamente todos estes os problemas e deveriam ser revistos menos pelas firulas técnicas. Como dirigente do Instituto Nacional de Eficiência Energética- INEE, por exemplo, meu “naso” se preocupa com o descaso com que com a eficiência energética é (des) considerada, seja no seu uso pelos consumidores, seja na geração de eletricidade.

Que a eficiência no consumo tem um efeito real ficou claro em 2001, quando tiveram um efeito equivalente à instalação de mais de 5000 MW. A política improvisada, no entanto, teve um custo que seria evitado se ela fosse praticada de modo planejado a partir de 97/98 quando se atendia a nova demanda usando os estoques dos reservatórios e aumentando o risco de déficit no sistema hidrelétrico. Usar a conservação como uma variável de planejamento equivalente a uma usina nunca foi aceita, na prática, nos modelos. A um tal ponto que a Câmara de Gestão da Crise, que liderou um processo único no mundo, não fez um simples estudo para entender como os consumidores chegaram lá, mas gastou rios de dinheiro passando a limpo os modelos de planejamento. Ainda há potenciais de aumento de eficiência, mas é preciso saber quanto e explicitar uma política.

No lado da oferta, preocupa o fato dos modelos desconhecerem a co-geração (geração elétrica feita junto ao consumidor com alta eficiência, pois o calor dos geradores é usado no processo produtivo). Quando Portugal trouxe o gás natural do Norte da África, criou, primeiro, um mercado de co-geração e, quando o gasoduto ficou pronto, 30% do gás já tinham destinação. Aqui, a desastrada política das grandes termelétricas chegou a estabelecer – em plena crise – quotas para cercear a co-geração. É preciso que os modelos considerem esta e outras alternativas de geração distribuída, notadamente o aproveitamento dos resíduos da cana que têm elevado potencial no país e, além de atenderem as necessidades da sociedade com menos investimentos, reduzem perdas na transmissão (15%) e aumentam a qualidade da energia fornecida.

Como os conceitos acima constam do programa de trabalhos do governo, espero que os laboratórios de planejamento estejam colocando em ação mais um pouco de “naso” para rever alguns conceitos para aumentar o peso do bom senso nas decisões sobre a expansão do sistema brasileiro.

Jayme Buarque de Hollanda é diretor geral do INEE – Instituto Nacional de Eficiência Energética e diretor do Fórum de Cogeração e Geração Distribuída.

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