Grandes grupos ocupam o espaço de famílias tradicionais nas usinas

Durante décadas, eles protagonizaram uma história cheia de sucesso e polêmica em uma das atividades mais antigas do Brasil: a produção de açúcar e álcool. Desenvolveram o maior e mais eficiente programa de biocombustível do mundo, fizeram fortuna, ganharam os holofotes do mercado internacional e despertaram a cobiça de megainvestidores. Agora, famílias tradicionais, cujo sobrenome virou sinônimo da indústria sucroalcooleira, começam a se tornar meros coadjuvantes de uma história que volta a ser reescrita e tem como mote a concentração e os ganhos de escala.

O mais recente capítulo dessa nova fase do setor é a megatransação entre a Santelisa Vale – das famílias Biagi e Junqueira Franco – e a Louis Dreyfus Commodities (LDC) Bioenergia. Com a operação, a gig! ante francesa passa a ter 5,1% do setor e sobe ao segundo lugar no ranking dos maiores grupos do País. A LDC perde apenas para a Cosan (9,3%), a maior produtora de açúcar e álcool do mundo, da família Ometto, que se uniu ao Grupo Nova América, dos Resende Barbosa.

Em menos de uma década, a participação dos cinco maiores grupos do setor subiu de 12% para 21,54%. Em cinco anos, esse número pode chegar a 40%, avaliam especialistas. O avanço alcançado até agora foi resultado de 99 fusões e aquisições entre 2000 e 2009 na indústria sucroalcooleira, segundo dados da consultoria KPMG.

Nesse processo, famílias como Junqueira Franco, Biagi, Vieira, Tavares de Melo e Resende Barbosa cedem seus lugares a novos personagens. Entre eles, Dreyfus, Tereos, ETH (da Odebrecht), Bunge, Cargill e Adecoagro (do megainvestidor George Soros), além da gigante Cosan. Nos próximos meses, alguns deles vão fazer barulho em três grandes negócios em andamento no setor.

Os grupos Moema, Equipav e Brenco, responsáveis pela moagem de mais de 20 mil toneladas de cana, devem ser comprados ou incorporados. A americana Bunge é a mais cotada para levar a Moema, de Maurílio Biagi, e a ETH já assinou memorando de entendimento de fusão com a Brenco. No caso da Equipav, pelo menos nove empresas, entre elas a Bunge, são candidatas a aquisição dos ativos.

“Todo mundo está de olho na gente. Somos um dos melhores ativos do País”, avalia Maurílio Biagi Filho, sócio da Moema, o quinto maior grupo do setor. O usineiro é irmão de Luiz e André Biagi, que venderam a Santelisa para a Dreyfus. Se o negócio com a Moema for fechado, o clã Biagi, cuja primeira usina foi fundada em 1931, praticamente passa a ter uma participação minoritária no setor. “Ainda temos umas usininhas por aí”, comenta Maurílio.

Ele acredita que a tendência de consolidação deve continuar nos próximos anos, mas dificilmente o setor será concentrado com! o nos demais segmentos. Hoje a indústria de açúcar e álcool conta com mais de 400 usinas comandadas por mais de 200 grupos, diz o diretor da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão.

Ele explica que a crise internacional iniciada no ano passado castigou o setor, que estava altamente endividado, em especial em moeda estrangeira, por causa de novos investimentos. Entre 2006 e 2009, quando o etanol ganhou importância no contexto contra o aquecimento global, foram injetados no setor US$ 20 bilhões.

Muito endividadas no curto prazo, muitas empresas tiveram problemas de liquidez uma vez que o mercado de crédito mundial se fechou. “Isso provocou uma queda significativa no preço dos ativos e facilitou o “bote” dado pelas multinacionais, capitalizadas”, diz o presidente do Sindicato de Açúcar e Álcool de Minas Gerais, Luiz Custódio Cotta.

Segundo ele, mesmo antes da crise, alguns produtores estavam insatisfeitos com os preços do etanol e aproveitaram as oportunidades. Entre eles, estava a família Tavares de Melo, produtores tradicionais do Nordeste. Uma ala da família vendeu cinco usinas para a Dreyfus e encerrou 78 anos de atividades no setor. O grupo decidiu se concentrar em outros negócios, como o de sucos.

Outra clã tradicional que não resistiu às investidas dos estrangeiros foi a família Vieira, dona da Usina Monte Alegre, em Minas Gerais. A empresa tornou-se sócia minoritária do megainvestidor George Soros, dono da Adecoagro. “Nosso negócio ficou mais capitalizado com essa associação. Durante a crise, sofremos menos que outras companhias do setor”, afirma o diretor da Adecoagro, Marcelo Vieira, cuja família fundou a Monte Alegre em 1917.

“Precisamos juntar o capital do investidor estrangeiro com a experiência dos grupos nacionais, essenciais para o sucesso dos empreendimentos”, avalia Vieira. Mesma opinião tem o consultor Eduardo Pereira de Carvalho, ex-presidente da Unica e ex-diretor da ETH: “Existem a! lguns preconceitos no Brasil que precisam ser eliminados. Um deles é contra o capital estrangeiro. O País não tem poupança suficiente para bancar todos os investimentos.”

Na avaliação dele, que tem trabalhado em alguns negócios, o setor está mudando de dimensão. Ou seja, deixou de ser um produtor local para entrar no universo dos combustíveis, no mundo da energia. Ele acredita que, muito em breve, o plano de algumas petroleiras de estrear no setor se tornará realidade. Oportunidades não faltarão, garante.

Neste momento, as operações envolvem grandes ativos. “Mas os pequenos usineiros terão seu momento. Nós, por exemplo, estamos de olho nas usinas menores.” O sócio da KPMG, André Castelo Branco, acredita que as grandes operações continuarão a ocorrer nos próximos meses, até porque ainda há empresas em dificuldades. Para ele, daqui pra frente o setor será mais corporativo e menos familiar. “Mas esse será um processo gradativo.”

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