GNV: Economia supera a preocupação

A notícia de que os carros convertidos para Gás Natural Veicular (GNV) emitem altos índices de formal surpreendeu os motoristas adeptos do chamado kit gás, considerado mais econômico por quem costuma dirigir muitas horas por dia.

Foi para economizar que o taxista Jorge Rodrigues, 48 anos, converteu seu Santana para gás, há quatro anos. Apesar de mostrar preocupação com a presença do formol na atmosfera, o taxista revela que pretende ignorar os possíveis riscos à sua saúde e continuar usando o kit gás para trabalhar.

Jorge, que dirige cerca de 15 horas, diariamente, conta que com o GNV economiza R$ 60 por cada dia de trabalho. Ele investiu R$ 2 mil para converter o carro para gás natural.

– Economicamente não vejo solução para este problema. Prefiro correr o risco e continuar absorvendo o formol – disse Jorge, que sugeriu que as fábricas deveriam criar uma peça para ser adaptada aos veículos convertidos e resolver o problema.

O representante comercial, Marcelo Gonçalves, 34, conta que também adotou o kit para economizar. Muitas vezes, ele precisa dirigir por até 10 horas.

– Fico preocupado com esta informação. Como os órgãos fiscalizadores deixam passar esta emissão durante a vistoria? – questionou.

O vendedor André Luiz Pessoa, 32, faz cálculos para provar as vantagens do kit. Usando gasolina, ele gasta R$ 80 para ir e voltar de Saquarema, na Região dos Lagos. O mesmo percurso com o veículo no GNV custa R$ 11.

– Por enquanto, o custo benefício do carro convertido para gás natural é maior. Apesar dos riscos, não vou deixar de usar – garantiu o vendedor.

Motorista de táxi há 10 anos, Rubens Ferreira, 58, também não voltaria a abastecer com gasolina. Ele acaba de comprar um carro que virá com o GNV direto da fábrica.

– Por enquanto, dirijo 16 horas por dia e não sinto nada – disse o taxista.

O motoboy Sérgio Pinto Coutinho, 40, que tem uma van movida à diesel, usaria GNV se pudesse fazer a conversão.

– Mesmo sabendo dos riscos que o formol pode trazer, eu não pensaria duas vezes para converter o meu veículo para o gás. Iria economizar muito – contou.

Além dos motoristas, frentistas que trabalham nos postos de gasolina se mostraram preocupados com o perigo da emissão do formol pelos carros GNV.

– Respirar este ar é ter uma morte lenta – disse um frentista, que não quis se identificar.

Formol contamina o ar do Centro

Não é só a frota de veículos convertidos para Gás Natural Veicular (GNV) que tem crescido nas ruas do Rio. Os índices de formaldeído, também conhecido como formol, usado para embalsamar cadáveres, têm se elevado na atmosfera da cidade e a exposição contínua dessa solução pode causar problemas nas vias respiratórias e no sistema nervoso central. Um estudo realizado no Centro do Rio revela que o teor da substância no ar passou de 20 partes por bilhão (ppb), registrado em 1998, para até 160 ppb detectado no final do ano passado. O Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional dos EUA (NIOSH) recomenda que o limite máximo presente no ar seja de 0,1 partes por milhão (ppm), o que equivale a 100 ppb. A recomendação é válida para oito horas num ambiente de trabalho.

– No Centro do Rio, a exposição das pessoas ao formaldeído na atmosfera é por 24 horas – alertou o químico Sérgio Machado Correa autor da pesquisa Impacto das Emissões Veiculares na Qualidade do Ar da Cidade do Rio, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj).

Para monitorar os vários tipos de poluentes da atmosfera, Correa adaptou um simulador da qualidade do ar, sistema que informa as concentrações de poluentes durante o dia, da agência ambiental norte-americana para o Rio.

– O simulador não produzia os dados reais da poluição na atmosfera apresentados pela Feema. Então, passei a monitorar os poluentes não legislados como alcanos, aromáticos e cetonas. Com isso, o simulador correspondeu a realidade – contou Correa, também professor da Univesidade do Estado do Rio de Janeiro.

Segundo o pesquisador, durante o estudo dos poluentes não legislados, o teor de fomaldeído na Avenida Presidente Vargas mostrou-se em elevação. Em 2000, foram registrados 54 ppb na atmosfera. Três anos depois, o índice chegou a 115 ppb. O monitoramento levou os pesquisadores a suspeitar de que os carros convertidos para GNV contribuiam para a elevação dos índices.

Em uma amostragem, 60 veículos bicombustíveis foram analisados. O teor do formaldeído foi medido com o veículo circulando com gasolina e depois com GNV. O resultado mostrou que os carros emitem quatro vezes mais a substância quando movidos a GNV. Apesar dos resultados apresentados pela pesquisa, o químico lembra que a gasolina emite 60 poluentes, enquanto o GNV produz 10, em teores mais baixos.

– Dos carros analisados 59 não tinham sido projetados para operar com GNV. O único que não apresentou problemas foi um Santana que já veio com o kit gás da fábrica. Depois das análises, percebemos que a emissão do formol se dá apenas nos motores convertidos. Cerca de 5% do gás não queimado pelo motor é convertido para formaldeído – disse o químico.

De acordo com Correa, a explicação para a não emissão do formol nos veículos que já vêm com o kit gás das fábricas está no remapeamento da injeção eletrônica. A estratégia teria reduzido a emissão de formaldeído.

– Segundo dados do Detran, 6% da frota do Rio é movida a gás. Toda a cidade respira o formaldeído lançado no ar. Com o vento, os poluentes do Centro são levados para os bairros da Tijuca, Méier, RioComprido e São Cristóvão – alertou Correa.

Segundo a médica Carmem Fróes Asmus, professora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, quando o formaldeído está acima do limite de segurança na atmosfera, a exposição pode causar problemas no sistema nervoso central e nas vias respiratórias. A exposição aguda pode provocar ainda dor de cabeça, confusão mental, sonolência, irritação respiratória, formigamento no nariz e tosse seca.

– É preocupante que se tenha percebido o aumento do formaldeído na atmosfera. Esta elevação também precisa ser monitorada – avaliou a médica.

O deputado Carlos Minc (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, lembra que 1,6 milhão de veículos faz parte do cadastro do Detran. Esses carros são responsáveis por mais de 500 mil toneladas de poluentes. Segundo Minc, 60% deles estão desregulados e produzem 125 mil toneladas a mais de poluentes.

– Precisamos saber quanto deste formol lançado no ar é danoso para saúde – disse Minc.

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