Fundos estrangeiros devem adiar compra de novas usinas

Em meio à crise de crédito mundial, fundos estrangeiros que pretendiam ampliar agressivamente seus investimentos no setor sucroalcooleiro no País devem retrair-se no curto e médio prazo, na opinião de analistas.

O volume de usinas endividadas, sobretudo as de capital fechado, era chamariz para o apetite de investidores como os fundos privados Kidd & Company, Stark Investments e Och-Zitt Management – os três têm participação na Infinity Bio-Energy, além dos investidores privados James Wolfensohn (ex-diretor do Banco Mundial) e do empresário indiano Vinod Khosla – sócios da Brenco.

Com as usinas endividadas, o cenário para fusões e aquisições ficaria mais favorável, antes do enxugamento de crédito e da desaceleração de algumas economias no mercado global. Diante desse quadro, muitos investidores optam pela cautela.

Para o analista Peter Ho, da corretora Planner, planos de investimentos ousados serão transferidos para o longo prazo, a partir de 2011. “Mesmo que tenham volume de capital, esses investidores não têm como prever o tempo do retorno de investimentos por conta do cenário atual”, comenta. “As companhias que abriram capital vão sofrer menos porque têm acesso a capital mais barato”, complementa.

O analista da Win Trade, home broker da Alpes Corretora, Fernando Góes, concorda com as análises feitas por Ho, embora o momento não seja de festa para quem tem ações na Bolsa. Desde o início do mês de outubro, os papéis da Cosan S.A. e do Grupo São Martinho, dois dos maiores do setor com capital aberto, recuaram de R$ 27 para cerca de R$ 12 e de R$ 25 para R$ 15, respectivamente.

“Os efeitos da crise mundial de crédito, além do cenário do setor, já estão embutidos no preço atual. Acredito que no curtíssimo prazo os papéis vão recuperar preços, mas mais por questões técnicas e não fundamentais”, analisa Góes.

As empresas de capital fechado têm como alternativas de recursos os bancos e o caixa que gera a própria a atividade. Como o crédito está mais escasso, as linhas de financiamento oferecem juros mais altos e prazos mais curtos.

No caso do mercado de açúcar e etanol, os níveis de preços atuais, apesar de estarem em patamares mais elevados do que no mesmo período da safra anterior, ainda não trazem folga ao caixa das usinas. “Os custos sofreram forte alta nesta safra e o fertilizante foi um dos vilões”, diz Ho.

Os representantes do setor admitem que a situação é preocupante, já que muitas companhias começarão a próxima safra descapitalizadas. “As usinas passaram por duas safras que comeram seu capital de giro”, diz Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Para o executivo, o próximo ano não será fácil, no entanto, afirma que as empresas têm capacidade de sobreviver.

Cosan

Antecipando-se à crise de crédito, a Cosan S.A. anunciou aumento de capital neste ano. Essa é a maneira mais barata de injetar recursos em uma companhia, avalia o analista da Planner. O prazo para mostrar interesse em comprar ações vence no dia 22 deste mês.

“A intenção é depender o menos possível do mercado porque as taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras praticamente subiram 100% no mercado internacional. Desde o final do ano passado até hoje, saltaram de níveis entre 2% e 3% ao ano para 8% a 9%”, avalia Ho. A Cosan S.A. precisa buscar recursos porque tem dívidas de longo prazo no valor de R$ 1,475 bilhão e de outros R$ 63 milhões no curto prazo.

Para o especialista, o recente anúncio da Cosan Limited faz parte da estratégia para conseguir dinheiro de forma mais barata. No início do mês, a companhia anunciou o recebimento de aporte de US$ 130 milhões da Gávea Investimentos, gestora de recursos do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga.

A operação torna a gestora participante do quadro acionista da empresa. “Foi uma maneira de aumentar o caixa da Cosan Limited. A intenção é ampliar a participação dela no quadro acionista da Cosan S.A.nessa operação de aumento de capital e, assim, injetar mais recursos na S.A.”. A Cosan Limited tem R$ 1,398 bilhão em caixa e não tem dívidas.

Em meio à crise de crédito, fundos estrangeiros, como o Stark, que pretendiam ampliar agressivamente seus investimentos no setor sucroalcooleiro no país devem retrair-se no curto e médio prazo.

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