Fontes alternativas despertam interesse

O tamanho do mercado, as perspectivas favoráveis para a demanda e o potencial de produção fizeram do Brasil, desde a década de 80, um destino atraente para companhias francesas de energia. Mas, agora, a necessidade de diversificação da matriz elétrica brasileira, com investimentos em energia eólica, biomassa e outras fontes alternativas e renováveis, propicia uma nova oportunidade para as empresas: trazer para o Brasil a experiência que adquiriram na França e em outros países e obter posição de destaque em um mercado promissor que está apenas dando os primeiros passos.

Com importância ampliada devido à tendência de redução da capacidade de armazenamento do parque hidrelétrico -consequência, principalmente, da impossibilidade de construir reservatórios nos nov! os projetos, a maioria na Região Norte -, a exploração de fontes alternativas no país ainda é ínfima diante das perspectivas apontadas por especialistas. As estimativas oficiais, consideradas conservadoras, somente o potencial para geração eólica poderia saltar dos atuais 603 megawatts (MW) para 143 mil MW – mais do que toda a capacidade instalada de energia do Brasil, de 106 mil MW. Hoje, a energia eólica participa com menos de 1% da matriz elétrica brasileira, ao passo que, na França, impulsionado pelo programa de ações para o meio ambiente do governo (Programa Grenelle), o percentual caminha para 4%.

A Alstom, fabricante de equipamentos com forte presença em hidrelétricas e termelétricas, estuda construir uma fábrica especificamente para projetos de energia eólica. Segundo o vice-presidente para a área de energia da empresa, Marcos Costa, a decisão depende do anúncio de regras que deem previsibilidade para o segmento, como a fixação de um ritmo regular nos leilões de ! compra de energia promovidos pelo governo e a definição de uma tarifa que viabilize os investimentos.

Sem revelar o investimento, Costa destaca que uma nova fábrica teria forte potencial de geração de empregos e ter toda a cadeia produtiva instalada no Brasil. Hoje, apenas na área de energia, a Alstom emprega 2,5 mil pessoas no país. Com a inauguração, até o fim do ano, de uma unidade em Rondônia, em parceria com a Bardella, o número será próximo de 2,8 mil.

Para diversificar sua carteira de encomendas – mais de 70% composta por hidrelétricas -, a Alstom pretende assinar em 2010 os primeiros contratos de fornecimento com eólicas no Brasil. A companhia fez propostas para vários dos investidores que vão participar do leilão de compra de energia de reserva marcado para 14 de dezembro pelo governo. Presente em mais de 70 países, a multinacional começou a atuar em energia eólica em 2007, com a aquisição da Ecotècnia, empresa espanhola com mais de 20 anos no segmento.

Controlada pelo grupo GDF Suez – que, internacionalmente, tem mostrado apetite pela energia a partir dos ventos -, a Tractebel cadastrou 11 novas usinas para o leilão do governo. Juntos, os 11 projetos têm potência total de 300 MW, sete vezes a atual capacidade instalada da empresa em energia eólica, dividida em uma planta de 18 MW no Piauí e outra de 26 MW no Ceará. A companhia, maior geradora privada de energia do país, também tem duas pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e uma usina de geração por biomassa (resíduos de madeira) no segmento que denomina energias complementares e que hoje representa apenas 2% de sua capacidade de geração, de 6.432 MW. Do restante, 18% vêm de usinas térmicas (seis unidades) e 80% de hidrelétricas (oito plantas, sem incluir os projetos em desenvolvimento, como Estreito e Jirau, por enquanto sob a estrutura da coligada GDF Suez Energy Brasil).

“Temos a diretriz de aumentar a participação das fontes complementares no n! osso portfólio” diz o gerente de desenvolvimento de negócios da Tractebel, Carlos Alberto Gothe, ressaltando que a energia hidrelétrica vai continuar “por muitas décadas” como a base da matriz brasileira. Hoje, cerca de 75% da energia provê de fontes hídricas.

Em parceria com universidades, a Tractebel também desenvolve projetos piloto para outras modalidades de geração, como solar e a partir da força das ondas. No primeiro caso, a empresa instalou com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) três sistemas de geração fotovoltaica em edifícios de Florianópolis, com o objetivo de observar o rendimento e avaliar as possibilidades de aplicação. Já o projeto de energia das ondas, em parceria com a Coppe/UFRJ, prevê a geração, a partir de 2011, de 100 mil watts de eletricidade no Porto de Pecém (CE) – o suficiente para acender 1,6 mil lâmpadas comuns de 60 watts. Segundo estimativas da Coppe, o Brasil poderia atender 15% de sua demanda energética somente utilizando a força das ondas.

Outra modalidade com significativo potencial, a geração por biomassa (oriunda de matéria orgânica como cana-de-açúcar e resíduos de madeira) também atrai o interesse de companhias da França. Um dos maiores propulsores é o setor sucroalcooleiro, onde uma multinacional francesa, a Louis Dreyfus Commodities, acaba de se tornar a segunda maior empresa do ramo, ao comprar a Santelisa Vale.

Antes de 2001, quando foi adquirida pela Tereos – cooperativa que reúne 12 mil agricultores franceses e é a quarta maior produtora mundial de açúcar, álcool e produtos à base de amido -, a Açúcar Guarani só produzia energia suficiente para consumo próprio. Hoje, além de abastecer suas cinco usinas, a empresa tem capacidade excedente de 24 MW comercializada no mercado livre. Por enquanto, a venda representa apenas 2% da receita da empresa, mas, segundo Jean Claude Religieux, do conselho de administração da Guarani, pode ch! egar a 10% dentro de dez anos.

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