Falta de crédito para etanol dos EUA pode ajudar o Brasil

A crise de crédito norte-americana, que já leva aquele país a enfrentar recessão segundo analistas, pode abrir uma janela pontual de oportunidades para o etanol brasileiro naquele mercado, a médio prazo.

Na avaliação de Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, oportunidades poderiam aparecer por conta da possibilidade de parcela de destilarias americanas paralisarem operações. “Ainda é um pouco cedo para afirmações, mas, pode acontecer de diversas destilarias pararem operações devido à restrição de crédito. Se ocorrer, pode surgir uma janela interessante de exportações para o Brasil”, avalia Rodrigues.

A desaceleração da economia – que leva ao menor consumo e posterior redução de preços do etanol em um primeiro momento -, somada à restrição de crédito, seriam os motivos para compor esse cenário. Nos Estados Unidos, lembra Rodrigues, as empresas são mais dependentes de crédito do que no Brasil, porque há mais recursos disponíveis. “No Brasil, os empresários aprendem a trabalhar em grande parte com o próprio caixa. Nos Estados Unidos, a estrutura é diferente pelo maior volume de crédito. As empresas trabalham muito sua alavancagem dependendo de recursos”, completa o diretor da Bioagência.

José Vicente Ferraz, diretor do Instituto AgraFNP, também acredita na possibilidade de se abrir uma janela favorável para os exportadores brasileiros de etanol. No entanto, frisa que, se ocorrer, será pontual. “Não acredito que, se surgir, possa ter efeito de longa duração”, diz. Isso porque, na opinião de Ferraz, o setor de destilarias não deixará de ser contemplado pelo pacote de ajuda ao sistema financeiro, avaliado em US$ 700 milhões, planejado pelo governo norte-americano.

As destilarias não são um segmento que detém tanta influência política, no entanto, seus fornecedores de matéria-prima sim. “Os produtores de milho norte-americanos são um segmento influente. E não vão querer que os preços da matéria-prima do etanol caiam por conta de crise enfrentada pelas destilarias”, avalia Ferraz. “Acho difícil que o setor não conte com nenhum tipo de ajuda financeira”. O etanol faz parte de um programa estratégico nos Estados Unidos, complementa Ferraz, porque mesmo inviável continua sendo produzido.

Há quem discorde totalmente da hipótese. Nelson Ostanello, diretor da Bauche Energy, não acha que os preços do etanol no mercado interno americano baixem a ponto de tornar favorável a exportação brasileira. “Não acredito em preços que favoreçam exportações no curto prazo, mesmo com o decréscimo de consumo naquele país”.

Segundo Ostanello, o galão de etanol no mercado interno americano vale, em média, US$ 2,30 (ou US$ 0,61 o litro) e nem a exportação indireta, via Caribe, compensa agora. Para o exportador brasileiro, o embarque indireto valeria a pena se o produto alcançasse, pelo menos, US$ 2,50 o galão. A exportação direta para o mercado norte-americano só compensaria se o galão chegasse a US$ 2,90. “Pode ser que a exportação indireta venha a compensar, considerando os preços atuais do mercado interno brasileiro”. No Brasil, os preços do etanol estão em bons patamares e a tendência é de alta.

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), consultada pelo DCI, preferiu não opinar sobre o tema. A posição da entidade neste momento, segundo informou por meio de sua assessoria de imprensa, é de que a situação nos Estados Unidos ainda está muito indefinida e, dessa maneira, emitir opiniões agora seria especulação.

Estrutura distinta

Rodrigues, da Bioagência, lembra que a estrutura do setor é totalmente distinta no Brasil e nos Estados Unidos. As destilarias americanas atuam somente na produção do etanol, o negócio não envolve investimentos na parte agrícola. “Como não há sazonalidade, o prejuízo do dono da destilaria norte-americana, ao paralisar operações, seria menor do que o de um usineiro no Brasil, onde o empresário investe também na plantação de cana-de-açúcar”, comenta.

Ainda sobre a crise de crédito norte-americana, Ferraz, do AgraFNP, acredita que o Brasil sofrerá menos do que outros países com a desaceleração da demanda no mercado global, por ter custos mais baixos de produção e pela valorização do câmbio.

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