Exportação vai incrementar setor alcooleiro de MS

A perspectiva de uso do álcool como combustível em outros países tem provocado movimentação no setor sucroalcooleiro nacional, principalmente em Mato Grosso do Sul onde a previsão é de uma colheita de 9,5 milhões de toneladas de cana este ano, com a possibilidade de atingir de 20 a 25 milhões de toneladas em quatro anos. Nos últimos meses, o País se transformou em vitrine para estrangeiros que querem importar o produto

brasileiro para misturá-lo à gasolina ou apenas aprender as técnicas de produção. Os interessados vêm de várias partes do mundo, como Coréia, Austrália, Canadá, China, Tailândia, Índia, e África do Sul. Mas as negociações mais avançadas envolvem Japão e Suíça. No caso da Suíça, acordos com produtores goianos prevêem vendas iniciaisde

100 milhões de litros de álcool anidro por ano, enquanto o Japão deverá fechar, ainda em 2003, contrato de 50 ou 100 milhões de litros anuais. O volume pode parecer pequeno, mas é apenas o início de um processo que poderá transformar o Brasil no maior exportador de álcool do mundo, afirma o diretor do Departamento do Açúcar e do Álcool do Ministério da

Agricultura, Ângelo Bressan. Segundo ele, a quantidade contratada agora apenas visa a

atender projetos-pilotos. Mesmo assim, representaria 40% do que o Brasil exporta hoje, em torno de 500 milhões de litros. A procura pelo álcool brasileiro tem explicação. O combustível será usado na mistura com a gasolina e diesel em um esforço dos países para se adequar ao Protocolo de Kyoto e reduzir as emissões de gases poluentes na

atmosfera, principalmente do gás carbônico (CO2). Segundo dados do Ministério da

Agricultura, a expectativa é que apenas a Europa passe a consumir entre 19 e 20 bilhões de litros de álcool por ano até 2010. No Japão, explica Bressan, as estimativas apontam para um consumo de 6 bilhões de litros anuais, se forem injetados 10% de álcool anidro na gasolina, cujo consumo é de 60 bilhões de litros no País. As empresas mais envolvidas neste processo, segundo ele, são Mitsui e Mitsubishi. Mas a implementação de um programa como esse não é feito de um dia para outro, ressalta o diretor do Ministério da Agricultura. Assim como no Brasil, a maior preocupação dos demais países é garantir o abastecimento

do mercado. “Isso tudo tem um timing e esse timing é mais lento do que a

gente gostaria”, afirma o presidente da União da Agroindústria Canavieira do

Estado de São Paulo (Unica), Eduardo Pereira de Carvalho. Apesar disso, ele acredita que o uso do álcool como combustível mundial uma realidade. “Em mais dias ou menos dias, os combustíveis renováveis vão ocupar espaço dos combustíveis fósseis (petróleo), seja pelo simples fato de serem infinitos, pelo custo do produto ou para cumprir o Protocolo de

Kyoto”, afirma Carvalho. “É nessa hora que as demais nações voltam suas atenções para o Brasil, o maior e mais eficiente produtor de álcool do mundo.” A nossa vantagem, explica ele, é que o custo de produção do álcool brasileiro, extraído da cana-de-açúcar, é altamente competitivo. Os Estados Unidos, por exemplo, produzem 8 bilhões de litros de álcool a partir do milho e países da Europa usam o trigo como matéria-prima. Mas essas alternativas representam um custo de produção muito alto. Além disso, ressalta Bressan, dominamos as técnicas de plantio e temos as tecnologias para construção de usinas que nos permitem produzir álcool e açúcar. O presidente do Sindicato da Indústria da Fabricação do Açúcar e do Álcool do Estado do Mato Grosso do Sul, José Pessoa de Queiroz Bisneto, lembra ainda que, além do know-how, o Brasil tem clima ideal para a plantação da cana-de-açúcar e terra disponível. Segundo estimativas, o País tem 90 milhões de hectares propícios para a agricultura. A área de produção da cana hoje é de 5 milhões de hectares, que permitem a produção de cerca de 12,6 bilhões de litros de álcool por ano. Na opinião de Pessoa, este movimento em prol do álcool vai culminar na consolidação do combustível como uma commodity. “O Brasil é o único País com capacidade de produção de álcool para competir com a gasolina”, diz Bressan.

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