Etanol pode perder “corrida” contra a gasolina até em SP

O Estado de São Paulo, maior produtor e consumidor de álcool hidratado do país, está muito perto de ver o combustível ficar menos competitivo do que a gasolina nas bombas dos postos, o que não é comum. Levando-se em consideração preço e rendimento dos motores, compensa encher o tanque com etanol se este custar até 70% do valor da gasolina. O percentual já superou 60%, e em dezembro, se a tendência atual for mantida, os 70% também ficarão para trás.

Se a expectativa for confirmada, será a primeira vez desde 2006 que os preços médios do hidratado vão superar seu limite de competitividade durante a safra – de abril de um ano a março do seguinte -, disse ao Valor Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar). Não é um bom sinal, já que o Estado responde por quase 60% da produção de cana do país e entre 50% e 55% do consumo nacional do hidratado.

O etanol é mais competitivo em território paulista por diversos motivos. Primeiro, porque o mercado é concorrido – tanto na produção como na distribuição. Mas também porque tem o ICMS mais baixo, de 12%, que o de outros Estados. “O custo logístico em São Paulo também é o menor do país”, afirmou Padua.

Levantamento da ANP mostra que entre 8 e 14 de novembro o litro do etanol hidratado valia, em média, 64% do litro da gasolina C (já com 25% de álcool anidro) em São Paulo, mas o percentual está acima de 60% desde outubro. O consumo mensal de gasolina C em São Paulo ficou em 545 milhões de litros em setembro, enquanto o de álcool atingiu 722,16 milhões de litros.

No dia 13, o litro do hidratado vendido pelas usinas às distribuidoras atingiu R$ 0,9253 (sem impostos), segundo o Cepea/USP, com alta acumulada de 64% nesta safra. Nas bombas, o pr! eço médio do litro do hidratado no país está em R$ 1,679, alta de 14% no acumulado da safra. Em São Paulo, a valorização na safra é de 22%, com cotação média de R$ 1,549 em novembro.

Na média de 2006, os preços do hidratado no Estado de São Paulo ficaram em 53,3% do valor da gasolina nos postos; em 2007, o perceutal caiu para 53,09%, para depois subir para 53,54% em 2008. Nesta safra até novembro, a média está em 54,69%, informou Padua com base no levantamento da ANP.

No último relatório da agência, o álcool hidratado permanecia mais vantajoso que a gasolina em seis Estados – Goiás, Mato Grosso, Paraná, Pernambuco, São Paulo e Tocantins. Em outros três (Alagoas, Mato Grosso do Sul e Rondônia), os preços atingem exatamente o limite de 70%. Nos outros Estados e no Distrito Federal a relação ultrapassou 70%.

As novas altas dos preços em São Paulo acendem a luz amarela no setor. Guilherme Nastari, da Datagro, observa que, se o etanol hidratado perde competitividade também em São Paulo, a tendência é que aconteça uma retração significativa no consumo nacional – o que certamente reduzirá os preços. Mas o espaço para isso será pequeno, porque a região Centro-Sul entra em dezembro no período de entressafra, que vai até março.

A expectativa é que as cotações do álcool combustível tenham uma certa folga para subir até 10% nas usinas durante a entressafra, segundo Júlio Maria Martins Borges, da Job Economia. Segundo ele, as cotações não devem ter uma alta significativa, mas deverão se acomodar em patamares elevados.

O governo anunciou há algumas semanas que poderia estudar a redução do percentual de mistura do álcool anidro na gasolina – dos atuais 25% para 20% – para evitar novas altas de preços e garantir o abastecimento. Mas qualquer decisão nesse sentido não deverá sair antes de dezembro. Nem o Ministério da Fazenda está pressionando por causa da inflação nem a Agricultura está muito preocupada com abastecimento, apurou o Valor. O governo aguarda balanço do setor para saber se o abastecimento é suficiente até março. (Colaborou Mauro Zanatta, de Brasília)

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