Etanol brasileiro pode ganhar espaço nos EUA

A instabilidade no Oriente Médio e as consequentes pressões sobre a cotação de petróleo podem trazer ganhos temporários para o setor da energia alternativa e em especial, o do etanol. É essa a avaliação que passou a ser feita entre produtores do combustível no Brasil quando os protestos nos países árabes, e em particular na Líbia, começaram a empurrar com mais força a cotação do barril e a alimentar temores de que a crise política se dissemine para outros grandes produtores de petróleo do mundo árabe.

Só em uma semana, o preço do barril subiu 20% e alguns analistas já traçam cenários sombrios nos quais a cotação poderia bater os US$ 150 ou até mesmo passar dos US$ 200. Na sexta-feira, o barril fechou em US$ 97,00 em Nova York e em US$ 112,14 em Londres.

Quem produz e comercializa etanol no Brasil prevê o seguinte: se, de fato, os preços do barril contin uarem subindo, os EUA tendem a demandar o etanol brasileiro – algo que só aconteceu duas vezes nos últimos anos. Em ambos os casos, situações de emergência.

Os EUA – segundo maior consumidor de energia do mundo, depois da China – são uma ambição antiga dos produtores brasileiros. Mas a tarifa de importação de US$ 0,54 por galão em vigor há uma década praticamente vetam desembarques do etanol do Brasil.

As tarifas ajudam os fazendeiros americanos que produzem etanol à base de milho e garantem a eles mercado sem a concorrência do Brasil, que fabrica etanol mais barato à base de cana de açúcar.

“O que há neste momento nos EUA é uma grande insegurança de que a crise se dissemine por mais países no Oriente Médio e que isso venha a provocar um aumento nos preços da gasolina na bomba. E se isso acontecer será positivo para qualquer combustível alternativo, incluindo o etanol do Brasil”, disse na sexta-feira, de Washington, Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), entidade de produtores de açúcar e etanol.

Seria positivo também para o próprio etanol fabricado nos EUA não fosse o fato de que no país os preços desse combustível sobem mais ou menos no mesmo ritmo que os do petróleo. Isso as usinas americanas são movidas a gás, cujos preços são diretamente vinculados aos do óleo. Em Nova York, o galão do etanol estava na semana passada em US$ 2,60 – ante US$ US$ 1,62 em março de 2010.

A vantagem do Brasil é que aqui as usinas usam bagaço de cana para cogeração de energia, o que ajuda a tornar o etanol nacional mais competitivo nos EUA. Em especial nesses momentos de alta do etanol de milho dos EUA, quando o produto brasileiro também se valoriza no mercado americano, mas não tanto quanto o local.

Outra dificuldade americana: o milho, como outras commodities alimentícias, está em movimento de alta, o que ajuda a puxar para cima o preço do combustível alternativo dos EUA.

“Tudo isso está abr indo uma perspectiva de competitividade do etanol brasileiro no mercado americano”, apesar das tarifas, diz Tarsilo Rodrigues, da Bioagencia, uma das maiores comercializadoras de etanol do Brasil. “Os americanos são muito sensíveis ao preço do combustível. Quando o galão [ou 3,8 litros] passa dos US$ 3, os consumidores ficam muito incomodados e a própria agência de energia americana já fala em um galão a US$ 4. E lá, o etanol subiria junto”, diz Rodrigues. Na semana encerrada na segunda-feira passada, o preço médio da gasolina nos EUA já estava em US$ 3,19.

Em 2006, o etanol brasileiro teve sua primeira entrada, em anos recentes, no mercado americano. Foi quando Washington proibiu o uso de um derivado de petróleo chamado MTBE (éter metil-ter-butílico) como a aditivo da gasolina. “Logo a demanda por etanol explodiu. E como os preços do açúcar estavam relativamente baixos, passamos a atender ao mercado americano de combustível, apesar das tarifas. Essa situação durou uns quat ro meses”, lembra Rodrigues. Em 2008, novas vendas brasileiras graças às inundações nas plantações de milho no meio oeste americano que provocaram uma quebra na safra da matéria prima do etanol local. “Agora deve vir um novo ciclo que, sem dúvida, beneficiaria o Brasil”, diz Rodrigues.

A pergunta óbvia é se os produtores brasileiros teriam etanol suficiente para vender aos americanos este ano quando a cotação so açúcar bate as maiores marcas dos últimos 30 anos e leva muitos produtores a escolherem produzir açúcar em vez de etanol. Mas Marcos Jank diz que se o mercado americano voltar a buscar o combustível brasileiro com preços que valham a pena, as usinas teriam flexibilidade e capacidade para produzir etanol em vez açúcar.

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