Estoques elevados sustentam alta dos preços do etanol

Os preços do etanol devem continuar a subir nos próximos meses, refletindo o elevado nível de estoques do combustível. Até a primeira quinzena de outubro, um total de 7,7 bilhões de litros estava armazenado no País, volume 57% maior que o registrado no mesmo período de 2009.

O aumento da estocagem de etanol ocorre, em parte, porque as usinas estão capitalizadas, graças ao bom momento para o mercado de açúcar. “A safra de açúcar produziu muito bem e os preços estão bons. Com isso, as usinas conseguiram se capitalizar e, no momento, não precisam vender etanol para capital de giro”, afirma o analista da consultoria AgraFNP, Bruno Bos.

O cenário é bem diferente da safra passada, quando o setor tinha pouca liquidez. Para fazer caixa, os usineiros colocaram mais etanol à venda, o que resultou em forte queda de preços durante a safra. Com estoques reduzidos, os preços voltaram a subir na entressafra (período de plantio da nova safra, geralmente de dezembro a março).

A liberação de uma linha de crédito de R$ 2,4 bilhões pelo governo também impulsionou o aumento dos estoques de etanol em 2010. Há pouco mais de um mês para o fim do período de moagem da cana, o setor contratou aproximadamente R$ 1 bilhão em financiamento, segundo o coordenador geral de açúcar e álcool do Ministério da Agricultura, Tiago Giuliani.

De acordo com o técnico, para cada litro financiado, as usinas precisam se comprometer a manter 1,5 litro de etanol no estoque. O produto poderá ser comercializado a partir de janeiro, no auge da entressafra. O juro para o financiamento é de 9% ao ano, abaixo da taxa oferecida no Plano Safra do ano passado. Para Giuliani, apesar do juro menor, o setor não utilizará todo o crédito disponível.

Além de evidenciarem uma s ituação favorável para produtores, o aumento do nível de estoques é visto como uma forma de reduzir a volatilidade de preços e de garantir que o mercado tenha etanol suficiente para atender a demanda nos meses de entressafra.

“Não pode acontecer como em 1990 e 1991, quando a população ficou sem álcool para abastecer os carros”, lembra Giuliani. A cana é usada tanto para produzir açúcar quanto etanol. Na época, os preços mais elevados do açúcar fizeram com que a produção de etanol recuasse significativamente, o que levou ao desabastecimento.

Os atuais níveis de estoque, de 7,7 bilhões de litros, já são suficientes para atender à demanda brasileira por etanol por pelo menos três meses – considerando que o consumo médio mensal do produto é de aproximadamente 2 bilhões de litros.

Preços

Não fosse pelo elevado nível de estoques, o cenário para o setor de etanol apontava para um recuo nos preços tanto do anidro quanto do hidratado. “A produção de etanol foi maio r neste ano, observa-se recuo da demanda e queda nas exportações. Tudo indicava queda de preços, e ainda assim os preços se mantêm elevados, por conta dos estoques”, avalia o consultor da AgraFNP. A manutenção desse cenário deverá sustentar o movimento de alta dos preços pelos próximos meses.

Entre os dias 18 e 22 de outubro, o litro do etanol hidratado combustível foi cotado em R$ 0,976, ante R$ 0,958 no mesmo período de 2009. O etanol anidro valia R$ 1,187 por litro, ante R$ 1,120 no ano passado, segundo dados do Cepea, entidade de pesquisa ligada à Universidade de São Paulo.

Desde o começo da safra atual, em abril, o Brasil produziu 20,7 bilhões de litros de etanol, aumento de 22,5% em comparação com a produção do ano passado, segundo dados do Ministério da Agricultura. A produção maior foi favorecida pelo tempo seco verificado em boa parte do ano.

Já as exportações caíram pela metade nesse ano. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), até set embro o Brasil exportou 1,3 bilhões de litros de etanol, ante 2,6 bilhões de litros vendidos ao exterior nos nove primeiros meses do ano passado. O bom desempenho do setor nos Estados Unidos, principal mercado para o produto brasileiro, explica boa parte do movimento.

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