Dólar a R$ 2,30 já é uma previsão conservadora, diz economista do BNP

Conhecido pelas previsões que destoam do consenso do mercado, o economista-chefe para a América Latina do Banco BNP Paribas, Marcelo Carvalho, diz que imaginar um voo do dólar – hoje rodando entre R$ 2,10 e R$ 2,15 – a R$ 2,30 já é uma projeção conservadora. E, com o avanço da moeda americana, o IPCA deve terminar o ano rondando os 6%. A ata do Copom, na opinião do economista, indica que vem mais aumento de juros daqui para a frente, levando a taxa Selic a, pelo menos, 9% ao ano. “O BC reconheceu que as pressões inflacionárias são fortes, ao escrever que o balanço de riscos para a inflação se apresenta desfavorável. Eu não me lembro da última vez que o Copom disse isso.”

Valor: Qual foi a principal mensagem da ata do Copom?

Marcelo Carvalho: Foi uma ata dura e consistente com a alta de 50 pontos básicos (0,50 ponto percentual) na semana passada. A ata sinaliza um aumento de 50 pontos na próxima reunião e outros aumentos pela frente. Espero mais dois aumentos de 50 pontos, o que levaria a Selic para 9%. Mas pode ser mais.

“Espero mais dois aumentos de 50 pontos básicos, o que levaria a Selic para 9% ao ano. Mas pode ser mais”

Valor: Quais trechos da ata revelam essa postura mais consistente e dura do Copom?

Carvalho: Há um claro reconhecimento de que o cenário de câmbio mudou, que a tendência é de apreciação do dólar. Isso impõe um desafio maior para o BC, já que a desvalorização do real é ruim para a inflação. Na ata anterior, havia a história de que a estabilidade do câmbio ajudaria no controle da inflação e de que a alta do dólar em 2012 não iria se repetir neste ano. O Copom não tem mais essa visão, o que é muito bom, porque o câmbio já se mexeu bastante. O BC descreve o cenário de atividade em expansão, com a absorção interna crescendo acima do PIB. Ele não traz a conclusão, de que isso piora as transações correntes. Mas tudo bem. Já há uma clara preocupação com a persistência da inflação.

Valor: O Copom fala em assegurar a convergência tempestiva da inflação para a trajetória de metas. Como o sr. interpreta esse trecho?

Carvalho: O Tombini [Alexandre Tombini, presidente do BC] já tinha usado essa expressão. É um discurso mais duro. Ele diz que a inflação em doze meses ainda tem tendência elevada. E fecha com chave de ouro ao escrever que o balanço de riscos se apresenta desfavorável. Eu não me lembro da última vez em que o Copom disse isso. Sempre dizia que o cenário para frente era melhor. A coisa podia estaria ruim, mas sempre iria melhorar. Desta vez, o Copom foi muito mais sincero e honesto.

Valor: A ata de abril perdeu importância rapidamente, após declarações de membros do Copom. Essa ata vai durar?

Carvalho: A última ata durou pouco porque era muito ambígua. Ao mesmo tempo falavam em subir juros e em cautela. A brincadeira era de que em abril o BC fez um aperto meio mole. Não havia convicção. Logo em seguida, um diretor do BC [Carlos Hamilton Araújo, diretor de política econômica] deu declarações mais duras, e a ata envelheceu rapidamente. Esta ata tende a durar mais, por ser mais consistente. Mesmo assim, temos que lembrar que o cenário já mudou bastante desde a semana passada, com a alta do dólar.

Valor: Qual a tendência do câmbio?

Carvalho: Já trabalhávamos com o câmbio indo para R$ 2,30. Mas o caldo entornou lá fora. Estamos revendo a projeção, mas já posso dizer que dólar a R$ 2,30 hoje parece algo bem conservador. Há uma piora muito grande da conta corrente. E o cenário também não é positivo para a conta de capital, que poderia financiar o déficit em transações correntes. O mundo mudou, com a crescente preocupação de que o Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] reduzirá os estímulos. Não vai ter tanto dinheiro para os emergentes. A retirada do IOF da renda fixa veio até nesse sentido, para tentar amenizar um ajuste de portfólio global em renda fixa. A tendência do câmbio é de alta, e a inflação deve fechar o ano perto dos 6%. A percepção é que o BC terá que subir os juros mais do que se imaginava.

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