A crise fabricada da cana

Ruínas da Usina Galo Bravo, em Ribeirão Preto, que encerrou suas atividades em 2010
Ruínas da Usina Galo Bravo, em Ribeirão Preto, que encerrou suas atividades em 2010

Crises são inerentes a qualquer atividade produtiva. São geradas normalmente por fatores externos, ou seja, excesso de produção derrubando preços, problemas climáticos, queda de consumo, enfim, diversos fatores. Estas são as crises de mercado. Outras são crises fabricadas, ou seja, crises desnecessárias, pois são fruto de erros grosseiros de políticas públicas, ou de gestão. Este é o caso da cana. A cana hoje está em crise, carregando a sociedade brasileira para um agravamento da crise econômica, por causa principalmente do governo federal, inerte, mesmo com todos os avisos, desde 2008.

São muitos os prejuízos à sociedade brasileira devido à crise no setor sucroenergético. Em primeiro lugar, a perda do potencial exportador de açúcar. O consumo, de acordo com a Organização Internacional do Açúcar, tem crescido 2,24% ao ano e a Tailândia tem tomado espaço do Brasil.

Na mesma linha de raciocínio, tem-se também a perda do potencial exportador de etanol, visto que o mercado americano está aberto em mais de 8 bilhões de litros/ano, e o país não se encontra em boa situação para se tornar um exportador em quantidade. O Brasil passou a realizar importações do biocombustível dos EUA. As importações atingiram volumes aproximados de 310 milhões de litros na safra 2013/14, com previsão de dobrar esse volume na safra 2014/15. A cana, que poderia dar enorme ajuda para reduzir a deficitária balança comercial do Brasil, não tem contribuído.

Com o aumento da frota no país, ocorreu uma explosão do consumo e das importações também de gasolina, afetando desnecessária e gravemente a balança comercial e a Petrobras. Pela bizarra política governamental de manutenção artificial do preço da gasolina, a Petrobras passou a importar grandes quantidades de gasolina a um preço maior que o repassado para as distribuidoras, gerando um rombo enorme no caixa da empresa. O etanol foi substituído pela gasolina, gerando um adicional de poluição, visto que a gasolina não é um combustível renovável.

A perda de participação do etanol – e também da cogeração de energia através da queima do bagaço e da palha da cana – é mais um ponto que prejudica o país no alcance das metas ambientais que se propôs a cumprir.

A cogeração de energia pela biomassa poderia gerar muito mais, mas preferiu-se ligar as termoelétricas, muito mais poluentes, e com custo de produção bem mais caro.

Com toda a crise que o setor vem enfrentando, o país perde em arrecadação de impostos atuais e potenciais, e principalmente desperdiça o potencial de geração de empregos e de geração e distribuição de renda com novas usinas. Passou-se por uma perda de 60 mil empregos diretos nos últimos dois anos no setor produtivo; nesse ano, 44 usinas fecharam na região Centro-Sul do país. Está se destruindo o setor de bens de capital na área, líder mundial em tecnologia. Em Sertãozinho (SP), uma das áreas mais importantes em metalurgia para o setor sucroenergético, em 2007 havia 15 mil metalúrgicos, com potencial para 20 mil, e hoje não passam de 10 mil metalúrgicos.

Energia é poder, soberania e imagem internacional, e a perda desses fatores pela sociedade é resultante de equivocadas políticas governamentais na área de energia. Para salvar o setor sucroenergético, retornando seus benefícios à sociedade, tem-se de partir para outra agenda, já conhecida há seis anos pelo menos, mas parcialmente ignorada pelo governo brasileiro, que, neste caso da cana, demonstra uma cegueira “como nunca antes vista na história deste país”.

Marcos Fava Neves – Professor na FEA/USP
Fonte: Gazeta do Povo

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