Crise engole novatas no mercado de ações

Com a mesma força e disposição que entraram nas ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) agora os investidores estrangeiros são obrigados a desovar as ações das novatas, diante da necessidade de ajustes nas carteiras em meio ao furacão da crise. Assim como o americano Ospraie, cujas posições no mercado de ações brasileiro tiveram de ser dizimadas, outros fundos de investimento passam pelo processo de desalavancagem global em curso, o que mantém a Bovespa sob pressão.

Durante o boom das ofertas de ações no Brasil, os aplicadores externos tiveram participação crucial. A estratégia era elevar a exposição ao País, considerado uma aposta consensual entre os emergentes pela melhora dos fundamentos econômicos. No entanto, o agravamento da aversão ao risco, a partir da derrocada do setor financeiro dos Estados Unidos, obrigou os gestores internacionais a mudarem de posição. Diante da redução de seus patrimônios, os fundos estão sendo forçados a venderem ativos, em um movimento técnico. Nessa leva, se desfazem exatamente das estreantes compradas na onda dos IPOs.

“Muitos investidores que adquiriram novatas eram também novatos em Brasil”, afirmou Urban Larson, gestor para a América Latina do fundo britânico F&C. “Mas estamos no País há muito tempo e só participamos de 10% dos IPOs.” Preços muito elevados, empresas com administrações pouco convincentes e várias companhias de um mesmo setor são os problemas da safra de aberturas de capital brasileira apontados não só pelo F&C, mas por diversos outros gestores.

A fase ruim do mercado agora evidencia a qualidade duvidosa de alguns projetos. O caso mais emblemático é o da Agrenco, que entrou em recuperação judicial depois de ser envolvida em operação da Polícia Federal. A Laep, dona da Parmalat, também passa por problemas e começa a vender ativos. As duas possuem BDRs e têm sede nas Bermudas, o que reduz a proteção dos acionistas.

No setor de construção – o mais saturado da bolsa brasileira – a consolidação está sendo a saída encontrada para lidar com a necessidade de financiamento. A Tenda acabou absorvida pela Gafisa e a Brasil Brokers levou a Abyara.

Obviamente, todas essas novatas se apresentavam como grandes apostas de crescimento durante os road shows. Agora, caem no escrutínio de investidores muito menos afeitos ao risco. “Hoje há um desconforto internacional muito grande e os gestores não têm opção, precisam vender”, diz um administrador de recursos brasileiro, que passou os últimos dias acompanhando o desespero externo ao visitar clientes na Europa.

Como a liquidez desses papéis é menor, uma leve mexida é suficiente para provocar maremotos. Há empresas que já perderam 80% do seu valor desde o início do ano – caso da Positivo Informática e da Abyara. Outras como Açúcar Guarani, Minerva, Brascan, Cruzeiro do Sul e Daycoval acumulam perdas próximas a 50%.

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