Crise e queda do petróleo engavetam energia limpa

As perspectivas das empresas de energia renovável decolaram com a alta do petróleo, mas o aperto mundial do crédito e a queda do preço do barril as trouxeram de volta à terra numa pancada.

Com a relutância dos bancos em conceder empréstimos e uma queda em suas ações, muitas empresas de energia limpa estão enfrentando problemas para obter recursos de longo prazo de que precisam para expandirem-se dentro de um setor que precisa de muito capital.

Nos últimos três meses, ações de empresas de energia renovável em todo o mundo acompanhadas pela New Energy Finance, consultoria com sede em Londres, caíram cerca de 45%, em comparação ao recuo de 23% da Média Industrial Dow Jones no mesmo período.

Os problemas do setor cresceram com a redução do petróleo dos mais de US$ 147 o barril em julho para menos de US$ 70 na semana passada. Essa reversão eliminou – ao menos temporariamente – uma das principais razões para os investidores injetarem bilhões em combustíveis alternativos, dizem analistas do setor.

Resultado: ao menos no curto prazo, grande parte de projetos como fábricas de óleo de palma na Indonésia e Malásia e fazendas eólicas e de energia solar nos EUA e Europa, pode não conseguir fundos. Algumas empresas estão engavetando planos de abrir capital enquanto as bolsas permanecerem fracas e voláteis. A empresa alemã de energia solar Schott Solar AG, por exemplo, retirou uma oferta inicial de US$ 900 milhões, no começo do mês, alegando condições ruins de mercado.

Algumas empresas negociadas em bolsa, no entanto, têm pouca escolha além de lançar mais ações por causa da dificuldade em conseguir empréstimos bancários. As ações da fabricante indiana de turbinas eólicas Suzlon Energy Ltd. caíram mais de 40% desde o fim de setembro, quando ela anunciou planos de lançar US$ 380 milhões em direitos de subscrição, até o fim do ano, para levantar capital. Anteriormente, a empresa informou ter alinhavado financiamentos bancários em euro para financiar seus planos de expansão.

Empresas americanas de desenvolvimento de fazendas de vento, com compromisso de construir um número recorde de projetos em 2009, também estão lutando por fontes alternativas de crédito depois dos problemas do Lehman Brothers Holdings Inc. e da American International Group Inc., que eram grandes financiadores do setor de energia verde, diz Eric Silverman, sócio da firma de advocacia Milbank, Tweed, Hadley & McCloy LLP, de Nova York.

“O aperto no crédito desfere um golpe negativo em todo o setor [eólico] porque ele depende muito de financiamento”, diz ele.

A GE Energy Financial Services, da General Electric, outra grande investidora no desenvolvimento de fazendas eólicas nos EUA, está cortando seus aportes porque a crise tornou difícil avaliar os investimentos. “Este é um mercado muito duro para qualquer investidor”, diz Andrew Katell, porta-voz da GE Energy Financial Services. “Todo mundo é atingido.”

Muitos investidores, entre eles a GE, ainda vêem energia renovável como uma oportunidade de longo prazo para ganhar dinheiro por causa do aparente desejo dos EUA e da Europa de reduzir sua dependência do petróleo do Oriente Médio e cortar a emissão de gases do efeito estufa. O pacote de resgate financeiro aprovado pelo Congresso americano no começo do mês, por exemplo, também incluiu medidas para estender incentivos fiscais à energia eólica por um ano e à solar por oito anos.

Por enquanto, porém, muitos analistas dizem que a dificuldade de crédito deve forçar mais consolidação no setor, com grandes empresas estatais de serviços públicos e firmas de investimento em participações, que ainda têm acesso a crédito bancário ou têm reserva de caixa, adquirindo projetos de energia renovável de incorporadores com falta de dinheiro.

Isso aceleraria uma tendência vista recentemente nos EUA, em que grandes participantes europeus como a Iberdrola Renovables SA, da Espanha, a maior incorporadora mundial de fazendas de vento, e a Energias de Portugal SA compraram companhias americanas menores do ramo.

“Ao longo dos próximos 12 meses, grandes empresas de serviços têm uma vantagem competitiva”, diz Jonathan Johns, diretor de pesquisa sobre energia renovável da Ernst & Young em Londres.

No mês passado, a gigante energética alemã RWE AG concordou em pagar US$ 50 milhões à britânica Helius Energy PLC pelo controle de uma usina de biomassa de 65 megawatts no norte da Inglaterra. No total, a RWE vai investir US$ 380 milhões na usina que produz energia com celulose e que deve começar a operar em 2011.

No mês passado, a Hudson Clean Energy Partners, firma de investimento em participações com sede em Nova York, anunciou que estava comprando a Helium Energy, pequena empresa espanhola de desenvolvimento de projetos de energia eólica e solar, por até 100 milhões de euros (US$ 134,5 milhões). A Hudson, formada em 2006 por um ex-chefe da equipe de investimentos bancários em energia verde da Goldman Sachs Group Inc., está comprando os ativos da Hemeretik S.L., conglomerado espanhol de construção, hotelaria e outras atividades, que decidiu abrir mão de seus negócios de energia renovável por causa da queda na economia.

Alguns fundos globais de infra-estrutura também estão vendendo ativos de energia limpa para fortificar seus balanços. A firma australiana de investimento Babcock & Brown, cujas ações sofreram uma pancada por causa da apreensão provocada por sua grande dívida, planeja vender 2.000 megawatts de ativos em fazendas de vento na Europa este ano, para os quais as possíveis compradoras são empresas européias de serviços públicos.

Os investidores também devem ficar mais seletivos a respeito dos projetos ecologicamente corretos que financiam, com aqueles que não dependam de subsídios governamentais possivelmente atraindo mais fundos a curto prazo, dizem analistas. Isso pode desacelerar o desenvolvimento de tecnologias de energia alternativa mais avançadas, como a de biocombustíveis de celulose, que tem recebido financiamento de private-equity mas ainda está longe de ser comercialmente viável. Agora elas terão de competir por recurso com as de energia eólica e solar, diz Angus McCrone, editor-chefe de pesquisas da New Energy Finance.

As firmas de private-equity “agora também vão ter muitas empresas de muitos setores batendo à porta delas”, acrescenta ele, “principalmente enquanto a abertura de capital no mercado acionário está fora de questão”.

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