Cosan tem planos de investir em gasoduto

O Grupo Cosan ainda é um gigante na produção de açúcar e de etanol, mas a parceria com a Shell e a compra da rede de postos Esso e da distribuidora de gás Comgás abriu perspectivas antes impensáveis para Rubens Ometto, fundador e presidente do conselho de administração. Ele que é o único brasileiro entre os dez bilionários mais verdes do mundo, segundo a revista Forbes, estuda como ampliar a participação no mercado de gás e entrar no setor de petróleo. “Mas eu não vou sair atirando no que não conheço”, diz. “Estamos montando um núcleo com gente inteligente para estudar o petróleo.” Ometto, Marcos Lutz, diretor-presidente da Cosan, e Marcelo Martins, diretor financeiro, falam dos planos para o futuro da Cosan na entrevista a seguir.

Após o anúncio dos resultados, as ações caíram. Qual a leitura que vocês fazem da reação do mercado?

Marcos Lutz – Acredito que o mercado ainda não aprofundou a análise. Estamos cada vez mais consistentes, estruturados nos resultados e na geração de caixa. Isso se reflete no preço das ações e vai continuar se refletindo.

O que vocês destacam no balanço?

Marcelo Martins – O que mais chama a atenção é que tivemos uma melhora em todas as linhas de negócio, sem exceção.

Agora que há uma diversificação, quais são as prioridades?

Rubens Ometto – Somos focados em energia e infraestrutura. Foi isso que nos levou à associação com a Shell, à compra da Esso, à criação da Raízen e ao negócio da Comgás. Foi um aprendizado. Esses negócios abriram a cabeça da gente e mostraram que podemos nos consolidar ainda mais em energia, mas com uma estratégia diferente. Muita gente, como Eike (Eike Batista, controlador do Grupo EBX), tentou ir direto para o upstream (no jargão da indústria do petróleo, fase de extração do óleo). Nós fomos para o downstream (fase do transporte e comercialização de produtos). Mas, depois que você entende como o negócio funciona, a mente é desafiada. Você fica se perguntando até onde pode ir para dar rentabilidade aos negócios. A Comgás abriu uma série de possibilidades que podem nos levar ao midstream (fase do refino). Quando assumimos a Comgás havia uma campanha dos empresários para reduzir o preço do gás. Eles não entendiam como o setor funcionava e batiam na Comgás porque ela era controlada por uma empresa estrangeira que não tinha voz e reação. Na semana seguinte à compra, fui a uma reunião com a presidente Dilma. Lá estavam o pessoal da Fiesp e outros empresários. O José Roberto Ermírio de Moraes, nosso amigo, avisou na entrada: vamos falar de gás. Eu disse: fiquem à vontade. Eu sou passagem. Sou um distribuidor. Não tenho o upstream.

É a Petrobrás que tem…

Ometto – Exatamente. Explicamos como funcionava. Mas passamos a analisar qual seria a maneira inteligente e eficiente de reduzir o custo do gás. E a melhor maneira é ter alternativas de suprimento, como o pré-sal, e com uma logística em condições vantajosas. Não posso adiantar muito. Estamos passando o pente fino nos estudos técnicos e econômicos. Mas, em linha geral, a ideia é conectar o pré-sal aos dutos da Comgás que chegam a Santos. É investir em gasodutos.

Lutz – Até hoje a Petrobrás atuou sozinha nessa área. Nós podemos ajudar.

Ometto – É interessante que ela tenha um parceiro que queira investir. E nós estamos dispostos a fazer isso. A grande maioria do gás consumido pela Comgás vem da Bolívia. Seu preço é mais caro que o da Petrobrás.

Vão investir em petróleo também?

Ometto – Passo a passo, vamos chegar lá.

Lutz – Mas não agora.

Ometto – Não no horizonte de dois ou três anos, mas vamos chegar lá. Eu gosto de brincar que vou escrever um livro de memórias e contar que eu imaginei tudo antes de realizar. Mentira. Você vai passo a passo. O importante é se manter focado e maximizar o resultado. Não vamos investir no trem-bala, em rodovias ou em aeroportos. Nosso negócio é energia e infraestrutura. O interessante na mente humana e do empreendedor é que buscamos ampliar os horizontes. Se tivermos sucesso com o gasoduto, o próximo passo é fazer uma associação, em busca de um negócio mais interessante, com uma empresa de petróleo. Mas eu não vou sair atirando no que não conheço. Estamos montando um núcleo com gente inteligente para estudar o petróleo.

Não vai ser uma ironia ir do etanol para o petróleo?

Ometto – Mas vai ser um petróleo limpo. Vamos estar sempre misturando (com etanol).

Lutz – É preciso deixar claro que investir em petróleo é uma visão de longo prazo. A gente só pisa em terreno que conhece. Sempre pelas beiradas. O gás é o primeiro passo que damos com base no conhecimento adquirido com o combustível – o primeiro fora da cadeia de etanol. Com base no conhecimento do gás, poderemos abrir os horizontes que o Rubens está colocando. Mas o foco de 90% do investimento da companhia neste momento está nos negócios que conhecemos bem: infraestrutura e logística ferroviária, distribuição de combustível, produção de açúcar e de etanol.

Um gasoduto demanda investimentos altos. Há uma estimativa do valor?

Ometto – Demanda altos investimentos, sim, mas nessa área é fácil fazer um projeto de financiamento. A receita é garantida e não faltam interessados em parceria. Ainda não sabemos o valor do investimento. Teremos uma fotografia mais clara nos próximos três meses. Esse negócio tem de sair, pois o Brasil precisa dele. E o melhor candidato é o maior consumidor. A Comgás tem 35% do consumo de gás do Brasil e está perto de Santos.

Vocês pretendem participar das concessões de portos e ferrovias?

Lutz – Avaliamos concessões portuárias sistematicamente que trabalham com granel. Se houver boas oportunidades, vamos participar. No setor ferroviário, não descartamos as concessões ao Norte, mas são projetos de longo prazo porque ainda não têm cargas. O iminente é a ALL.

O que emperra a negociação?

Martins – Neste momento, nada. O processo na ALL é complexo. Primeiro, porque há vários sócios. Segundo, porque é preciso construir um alinhamento entre esses vários sócios.

Os fundos de pensão ainda resistem?

A resistência foi forte no momento em que se discutia se vendia ou não. Já passou. A discussão agora é pragmática: como será a relação dos sócios, por quanto tempo e qual o impacto sobre a companhia. Vamos ter 49% do bloco. Até é possível aumentar essa participação ao longo do tempo, mas desde que se tenha um objetivo claro: colocar dinheiro na companhia para o seu desenvolvimento. Quando chegar a hora, vamos avaliar se podemos ou não ampliar a nossa participação. Mas essa é uma segunda etapa. Estamos caminhando bem agora. Em algum momento neste ano, finalizamos o acordo.

Como a ALL pode ajudar nos negócios da companhia?

Ometto – Desenvolvemos um conhecimento grande sobre o transporte de açúcar com a Rumo. A ALL é a coluna do agronegócio brasileiro. No longo prazo, poderemos transportar combustível e grãos com uma eficiência muito maior e maximizar nossos terminais. Com uma mudança no planejamento, a ALL também poderá entrar no negócio de terminais.

Lutz – Uma mudança importante é ampliar os investimentos.E de quanto seria o investimento?

Ometto – Um bom dinheiro.

Lutz – O investimento pode mudar o preço de ação. Seríamos levianos se falássemos em números.

O que a ALL poderia fazer de novo?

Ometto – Há uma enorme reclamação sobre o custo do transporte para levar o grão até o porto. Ela pode escoar a produção.

Hoje qual é o peso do etanol?

Ometto – O etanol está se consolidando de uma maneira diferente do que ocorreu até então: como um aditivo. Como combustível puro eu tenho minhas dúvidas. E acredito que isso vai ocorrer com as usinas que estão aí. Acho muito difícil que ocorram investimentos na construção de novas usinas. Todo mundo gosta de falar em sustentabilidade e energia limpa, mas quer que o outro pague por isso. Algo do tipo: eu sou a favor do imposto único, mas só o Antonio Ermírio paga. A única coisa que o consumidor faz é a conta do quilômetro rodado. Não quer saber se o ar melhorou, se o filho vai estar melhor no futuro. É frustrante. O governo, na gestão de Lula, incentivou o carro flex. Mas a crise de 2008 e a inflação fizeram o governo cortar o preço da gasolina e criar um problema de rentabilidade para o etanol. O que temos hoje é a Petrobrás fazendo dumping. Importar gasolina mais cara e vender mais barata é dumping.

O que a presidente Dilma Rousseff fala dessa questão?

Ometto – Ela nos dá razão. Mas a preocupação dela é com a inflação. Enquanto a equação não for resolvida, não vamos construir usinas.

O engraçado é que o setor era o mais promissor da economia.

Ometto – Isso na boca de quem não entendia do assunto. Nós paramos (de investir em usinas) antes.

Mas a sua marca é a inquietação…

Ometto – Sim, mas a gente não compra por comprar. Investimos para melhorar o que temos. Vamos atrás das oportunidades. Eu falo para o meu pessoal: não admito que um negócio saia e eu não tenha estudado. Eu posso não conseguir fazer o negócio, mas não admitido não participar.

Tem muita gente pessimista no Brasil. O sr. está cauteloso?

Ometto – Adoro o meu país e quero que o melhor aconteça aqui. Mas tenho de ser racional e frio como empresário. Quando o País vai às mil maravilhas, investidores de private equity do mundo inteiro entram em tudo. Passam a concorrer com você. Fazem um monte de bobagens porque não entendem dos negócios. Depois caem fora. Com a gente não é assim – é no longo prazo. Quando o cenário fica conturbado, empresas como a nossa – organizadas, bem administradas, com credibilidade – atraem investidores. Eles sabem que temos contatos, conhecemos o País, sabemos o que pode acontecer. Eles precisam de um especialista no País. Neste aspecto, o momento para nós é bom.

Vocês vão unir as ações da Cosan S.A. com as da Cosan Limited?

Martins – Temos falado nisso. A gente pensa em fazer isso, na hora certa e da maneira certa.

Como o sr. está vendo o governo de Dilma e as eleições do ano que vem?

Ometto – Eu me dou muito bem com a presidente. Ela é uma pessoa corretíssima e bem intencionada. Mas não é segredo para ninguém que ela é centralizadora. Eu interpreto isso como a ansiedade de querer fazer as coisas com uma rapidez que o sistema público não permite. Mas ela veio com certos conceitos que não funcionam – e não quero ser pretencioso e dizer que ela está aprendendo -, mas acho que ela percebeu. No começo, pensou que as empresas públicas poderiam ter a mesma eficiência das privadas. Hoje parece que está convencia de que isso não é verdade. Que o papel aceita tudo e o burocrata coloca uma coisa no papel e depois nada funciona por uma série de motivos, que vão desde problemas políticos até problemas de corrupção. Ela enxergou que era preciso fazer com a iniciativa privada, mas achou que os caras não poderiam ganhar muito. Ninguém acompanhou. Ninguém faz um projeto para ganhar 4%, 5% ao ano. Você tem alternativas mais eficientes. Tem aquela história de que nós brigamos. Eu briguei quando ela era ministra de Minas e Energia. Daí para a frente, a gente passou a se respeitar. Eu gosto muito dela. Ela viu que eu não falava as coisas para agradar. Tanto que houve aquele episódio, narrado numa revista, em que ela me chama e diz: ´Ometto, você está rico e não investe mais em açúcar e álcool?´ Eu respondo: ´Enquanto não houver regras definidas e eu não tiver o retorno para o meu capital, tenho outras alternativas´. A intervenção dela afugentou os investidores. Como eu disse, para o País não é bom, mas não nos atrapalha em nada.

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