Cortadores de cana trocam campo por indústrias e custos aumentam

A cena é incomum para os brasileiros. Uma mulher bem trajada, de sári, a típica vestimenta indiana, cortando cana-de-açúcar, rodeada por crianças e até por um cabrito pastando nas folhas da gramínea. Na Índia, no entanto, a paisagem é comum nas regiões canavieiras, onde as famílias trabalham juntas no corte da cana-de-açúcar e onde a legislação não tem nem de longe a rigidez da brasileira.

Prabhakar Ginapat Ghade, 29 anos, é o chefe de uma dessas milhares de famílias indianas que trabalham no campo. Ele, sua mulher e filhos, há dois anos saem de Maharashtra, onde têm 3 hectares plantados com algodão e milheto, para o Estado vizinho de Karnataka, onde está a cidade de Belgaum.

A razão para essa migração é que cada vez há menos corta dores de cana disponíveis na região, diz N.S. Mugalkhod, administrador geral de suprimento de cana da Shree Renuka Sugars em Belgaum. Ele conta que a disponibilidade de trabalhadores na região caiu 50% nos últimos dois anos, porque os antigos cortadores foram trabalhar em outras áreas, sobretudo na industrial.

“Com isso, nosso custo com o trabalhador ficou três vezes maior nos últimos anos. Estamos dando incentivos para que vem para cá”.

É de olho nessa remuneração maior que Ghade se desloca por seis meses de sua terra para Belgaum. Enquanto o valor mínimo fixado pelo governo é de US$ 1,30 por dia de trabalho no campo, em Belgaum, Ghade recebe US$ 1,50 diários, mais adicional de 17% se permanecer por seis meses.

Agora mais capitalizado, ele já começou a construir uma casa maior. Diz ainda conseguir poupar 30% dos seus ganhos para investir nos estudos e no casamento do primogênito, hoje com dez anos – na Índia, é comum, sobretudo na zona rural, os pais casarem s eus filhos com até 21 anos.

A mudança que segue curso na área rural da Índia também atinge os pequenos proprietários de terra, que plantam e cortam cana com suas famílias. Esse grupo também vem se deparando com a resistência das novas gerações em trabalhar com a terra.

Diferentemente de seus filhos, os netos do produtor de cana de Belgaum, Baluppa Adiveppa Metagud, não querem permanecer no cultivo e corte da cana. Com mais anos de estudo, estão buscando emprego em indústrias e empresas da região que, assim como todo o país, instalaram-se ao longo dos últimos dez anos, com a abertura da economia indiana. “Só tenho um neto que ainda trabalha conosco. Ele não gosta muito de estudar”, sorri Metagud.

Ele é um dos produtores mais prósperos de Belgaum. Sua propriedade, de 9 hectares, tem trator e implementos agrícolas, muitos incomuns na agricultura indiana.

Há onze anos, Metagud foi um dos produtores que apostaram suas rúpias na aquisição da primeira usina d a Shree Renuka Sugars, em parceria com Narendra Murkumbi e a mãe deste, Vydia. Conhecida pelo tino diplomático, ela mobilizou capital entre agricultores para ajudar o único filho a começar o negócio de açúcar. “Na época, compramos uma ação por 5 mil rúpias. Quando a Renuka abriu capital em bolsa, em 2009, vendemos por 700 mil rúpias”, lembra Metagud. (FB)

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