Controle de custos

Na minha opinião, o maior problema para se realizar um controle de custos confiável é fazer com que os responsáveis pelo levantamento, entendam, que todo controle de custos só funciona quando cada um, independentemente do seu grau, ou posição, for igualmente importante na hora de gerar informações. Elementos que venham a desvendar e ajudar a eliminar os pequenos erros, vícios administrativos ou executivos, que tornam os serviços lentos, ineficazes e caros.

Costumo citar um exemplo, de quando trabalhei como engenheiro responsável pela ampliação dos escritórios da Mercedes Bens do Brasil, em São Bernardo do Campo SP.

Na época, tínhamos um numero considerado suficiente de operários trabalhando na obra, mas o serviço não rendia. Intrigado, resolvi observar melhor o comportamento de cada um dos envolvidos com a produção. Então resolvi distribuir capacetes de cores diferentes para cada setor. Por exemplo: O capacete vermelho era para os responsáveis pelo transporte de materiais, (carriolas), os de capacete branco com o numero 1, representavam os serventes do setor 1, que realizavam o trabalho de assentamento de piso, os de capacete branco Nº 2 do setor dois e assim por diante, cada cor demonstrava a sua qualificação, e a numeração o setor em que trabalhavam. Escolhi um funcionário e começamos a anotar tudo, da hora da entrada até a saída. Este apropriador passeava pelos setores da obra em horários desencontrados e ia anotando o que cada um estava fazendo naquele exato momento. Conseguimos chegar a uma trágica conclusão, que tínhamos mais de 40% da força de trabalho, sem produzir. Uma hora um estava acendendo o cigarro, cigarro este que estava sendo aceso pelas mãos de outro, outra hora outro se dirigia ao banheiro em passos iguais ao de um velho de 90 anos. Imaginem só, 5 minutos para ir, mais 10 dentro do banheiro e outros cinco para voltar ao setor que se encontrava, aí então ele acendia outro cigarro e a coisa era uma festa constante. Se esparramarmos esta experiência por todos os setores e somarmos a ela o cafezinho, a hora de almoço e outras ocasiões que estão sempre aparecendo, ficaremos realmente apavorados, com a perda de tempo.

Transportando este tema para o nosso setor agropecuário, com certeza ficaremos mais apavorados ainda. Mas vamos adaptar…

Quando pegamos uma única atividade, das inúmeras necessárias para o cultivo da cana de açúcar, fica muito mais evidenciado que os nossos custos estão furados.

Vou ignorar aqui a necessidade do acompanhamento do técnico na hora do preparo do solo, escolha da muda, adubação, aplicação de herbicidas etc. Procuro apenas alertar de uma maneira geral, a todos que estão envolvidos com os custos de produção.

Vamos pegar como exemplo o Corte, Transporte e o Carregamento de cana, (CCT). E dentro destes pegar somente alguns exemplos, com a única finalidade de despertar a atenção dos envolvidos.

Já no transporte de trabalhadores observa-se a péssima condição de manutenção dos veículos (ônibus), velhos, pneus careca, e sem segurança alguma. Estes veículos em sua maioria são lentos e nunca cumprem os seus horários, não são poucas as vezes que passamos por alguns quebrados nos acostamentos. O mais triste de tudo é , que quando apontamos tal situação aos mestres de serviços, engenheiros ou proprietários, a gente ouve, “não faz mal, o problema não é meu, pois se eles não cortam não recebem”.

Estes responsáveis deveriam ter a mínima noção de custos e perceberem, que todo atraso seja ele de quem for, acarretará em prejuízo.

Se acontecer um atraso de colheita de um dia, uma hora ou mesmo que este seja responsável pela redução de uma tonelada apenas, este atraso ou perda, será responsável por uma quantidade menor de cana na moenda e conseqüentemente, menos açúcar ou álcool produzido, comprometendo o custo final.

Esta formula não precisa ser aprendida em nenhuma cadeira de pós-graduação, é só observarmos mais tudo aquilo que esta à frente dos nossos olhos.

Citando exemplos no carregamento, poderemos apontar também as más condições mecânicas dos guinchos e o despreparo dos operadores, que na maioria dos casos, trabalham com esses equipamentos como se estivessem trabalhando em uma pedreira, esmagando com os pneus as soqueiras, desmanchando tudo e pisoteando a cana. Também na hora de colher a cana empilhada no chão, estes guinchos arrastam terra e detritos para dentro dos caminhões, detritos estes que irão danificar os equipamentos da usina. (cana suja).

No transporte, os caminhões trafegam na maioria das vezes em alta velocidade na tentativa de cumprir suas viagens e são inúmeras as vezes que assistimos pela TV, as conseqüências danosas, não só pela perda de vidas, mas também pela imagem do nosso setor, que na maioria das vezes fica comprometida. Com certeza estes custos nunca foram levantados.

É lógico que as condições das estradas também afetam diretamente estes custos, mas este é um problema que não depende só do setor.

Acho que já passou da hora de elegermos um apropriador igual aquele da obra da Mercedes. Uma pessoa que circularia constantemente por todos os setores, colhendo dados constantes e conversando com todos os envolvidos, na tentativa de antecipar problemas evitando custos.

Na era da informática e da informação veloz, temos que alimentar as nossas planilhas com dados e detalhes que muita formula não consegue capturar. Ouvir o mais humilde dos funcionários, transpor experiência de cada setor para o planejamento, com certeza nos tornará mais ágil e eficiente.

Ao longo desses meus 30 anos de engenharia, aprendi que não existe planejamento sem a experiência vivida dentro do que se pretende planejar, não existe planejamento sem conteúdo pratico de todos que irão trabalhar ou daqueles que trabalham no que se pretende.

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