Congresso sobre solo ensina como conservá-lo

Enquanto a velocidade de desgaste do solo alcança uma média de 400 mil hectares por ano no mundo, até 2020 é preciso pelo menos duplicar a produção de grãos para alimentar a população, alerta o professor Ciro Antonio Rosolem, do Departamento de Produção Vegetal da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Botucatu (SP).

Como resolver esta equação, de elevar a produção sem provocar mais perdas de solo, será um dos temas do 29.º Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, entre 13 e 18 de julho, em Ribeirão Preto (SP). “O Brasil é o único país que pode dobrar a produção de grãos em pouco tempo”, aponta o professor, que é presidente do congresso.

Este ano, o evento terá como tema central “Solo: alicerce dos sistemas de produção” e debaterá o papel da ciência do solo na produção sustentada de alimentos e matérias-primas, a importância da agricultura na mitigação do efeito estufa e o uso dos solos de cerrado, considerados muito pobres em nutrientes, frágeis e bastante ácidos. “A alta produtividade alcançada nos solos do cerrado, com o uso em larga escala do plantio direto, é um bom exemplo do que pode ser conseguido com o tratamento adequado do solo”, destaca.

Entusiasmo – O pesquisador do Centro de Solos e Recursos Agroambientais do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Bernardo van Raij, que estará presente no congresso, ministrando a palestra “Solo e meio ambiente”, participou, recentemente, em Sorriso (MT), do 7.º Encontro do Plantio Direto no Cerrado, e voltou entusiasmado com o que viu em Mato Grosso. “Há alguns anos ninguém dava nada pelo solo da região, hoje cultivado com 550 mil hectares de soja só em Sorriso, com alta produtividade”, diz. Como especialista em solos, ele admira-se por que o latossolo amarelo do cerrado de MT alcança tão alta produtividade de soja, chegando a superar a produtividade dos Estados Unidos, onde há excelentes tipos de solo.

O Brasil tem de 22 milhões a 25 milhões de hectares de grãos cultivados em plantio direto, de um total de 45 milhões de hectares. O sistema foi introduzido no Paraná, nos anos 70, e daí espalhou-se pelo País e mudou a história da agricultura brasileira. Nesse período, houve uma grande evolução em novas tecnologias, que levaram ao aumento da produtividade, além de resultados positivos na preservação do ambiente.

Também promoveu o fortalecimento de vários setores, destacando o de máquinas e equipamentos agrícolas. Impulsionadas por esse crescimento, muitas empresas instalaram unidades produtivas no Brasil, que se tornou um exportador de tecnologia para o plantio direto. “O País tem um pacote, com máquinas, manejo e espécies indicadas para o sistema”, diz o gerente Aurélio Pavinato, do Departamento de Planejamento Agrícola e Pesquisa da SLC Agrícola, com sede em Porto Alegre (RS). “As máquinas, antes importadas, ficaram mais baratas”, diz. “Também conseguimos baixar os custos com dessecantes e adubos.”

“Com o plantio direto, cai por terra o paradigma que considera solos de regiões tropicais de alta pluviosidade impróprios para o cultivo de grãos, por não resistirem à erosão, que destrói o solo e provoca o assoreamento de rios e açudes”, diz o professor van Raij. Pelo não revolvimento do solo e pelo seu recobrimento permanente, a água não escorre, a erosão é reduzida e a infiltração favorecida. “Assim, o plantio direto também é uma maneira de produzir água, que vai para o aqüífero, e não para o rio”, observa van Raij. “Também aumenta a matéria orgânica, melhorando as propriedades físicas do solo e, como resultado, há mais aeração, menor temperatura do solo e maior retenção de água.” O aumento da matéria orgânica se dá por meio do seqüestro de carbono do ar, o que contribui para a redução do efeito estufa.

Van Raij aponta também como vantagem do plantio direto a economia de fertilizantes, por causa da reciclagem de nutrientes. “Uma grande vantagem da moderna agricultura do cerrado é a fixação do nitrogênio do ar pela soja, introduzindo no sistema o nutriente mais caro e mais usado mundo, o nitrogênio.” O pesquisador diz que o nitrogênio retirado pela soja do ar equivale a duas vezes a quantidade do produto comercializado no Brasil e fabricado usando gás natural. O nitrogênio é usado pela planta para produzir grãos de soja e ainda deixa resíduos para outras culturas.

Pneus mais largos – Não só com o plantio direto o Brasil já está fazendo sua “lição de casa” em relação a práticas conservacionistas do solo. A indústria de máquinas e equipamentos agrícolas tem sido uma aliada na conservação do meio ambiente. Um dos exemplos é o uso de pneus mais largos, de baixa pressão e alta flutuação, que reduzem a carga aplicada no solo, diminuindo a compactação.

Esse tipo de pneu é bastante útil no manejo de culturas como cana-de-açúcar e algodão, que têm tráfego intenso de máquinas pesadas. “Hoje, a parte industrial da usina pára depois de uma chuva, por causa da compactação do solo”, afirma o diretor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, câmpus de Botucatu, Carlos Antonio Gamero. No entanto, ele garante que as usinas só fazem isso por causa das perdas. “Antes, não se tinha noção do quanto se perdia, mas a pesquisa aprendeu a medir as perdas e o produtor se deu conta dos prejuízos.”

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