Complexo do etanol precisa de ações do governo

Fato: a crise de preços do setor sucroalcooleiro é anterior ao pânico generalizado pelo colapso financeiro das Bolsas de Valores do mundo. Tal preâmbulo é necessário para entender que o segmento produtivo vinha enfrentando problemas antes da turbulência que agora afeta mercados de todo planeta, o que faz com que o quadro possa se agravar mais com a atual escassez de crédito dos bancos.

O coordenador-executivo do Pólo Nacional de Biocombustíveis da Esalq, Edgar Gomes Ferreira de Beauclair, entende que este é um momento delicado para se pensar o mercado de biocombustíveis e as novas tecnologias. Ações governamentais são necessárias para garantir a sobrevivência do complexo produtivo e tecnológico do etanol a um médio prazo. “Precisará haver sensibilidade política por parte do presidente Lula para que uma das principais plataformas do seu governo continue forte”, explica.

A questão principal está relacionada à atual rentabilidade do setor para produtores e usinas, que está abaixo dos gastos embutidos na produção. A baixa do valor do barril de petróleo faz com que os preços do biocombustível precisem se manter igualmente baixos, embora os custos de produção sejam cada vez maiores. “O ideal seria um reajuste desses valores, de forma a garantir pelo menos a cobertura dos gastos na cadeia produtiva”, comenta.

Porém, Beauclair entende que um aumento expressivo nos preços do etanol é uma medida que agora se tornou inviável. A solução passa a ser, então, fornecer aos produtores linhas de crédito específicas que ajudem a formar um capital de giro expressivo e, assim, manter os níveis de produtividade.

“Fala-se bastante em meio ambiente e toda questão das queimadas que vem sendo incorporada pelas empresas do setor (até porque todos já perceberam que é mais lucrativo ter responsabilidade ambiental). Entretanto, a partir do momento em que uma usina precisa, por exemplo, comprar uma máquina que corte cana crua e esta máquina custa R$ 1,2 milhão, ela precisa ter crédito para realizar esta compra. Senão não há possibilidade de negócio”. O perigo fica maior ao se pensar que a falta de dinheiro das usinas faz com que elas interrompam a processo de expansão e, por conseqüência, deixam de realizar contratos com metalúrgicos, prestadores de serviços e afins. “Aí pode se ter o desemprego em maiores proporções”.

Uma linha de crédito governamental específica e direcionada, segundo Beauclair, não seria difícil de ser aprovada, já que o setor se caracteriza por cumprir os pagamentos a credores. “O passado recente mostra isso”, aponta. “Em 2007 e neste ano, os agricultores e usinas têm fechado no “vermelho” e não vão agüentar muito mais tempo esta situação”, continua. “Haverá com certeza queda na produção já no próximo ano e os efeitos desta crise vamos sentir com maior propriedade daqui a cinco anos”.

RECUPERAÇÃO. Diferente do cenário pessimista que se apresenta, Beauclair acredita que a cultura canavieira tem como um dos seus principais méritos a rápida recuperação econômica, fruto da capacidade tecnológica única que o Brasil abriga. “Eu me atrevo a dizer que não conheço outra economia no mundo que tenha este perfil”, avalia. “O país conta com um parque tecnológico voltado ao biocombustível de poder invejável, objeto de interesse de países do mundo todo e que ajudará o setor a despontar em um caminho de progresso”.

“Para isso, basta essa sensibilidade política aflorar e o Brasil se consolide efetivamente como a principal potência em bioenergia do planeta”. O risco, caso medidas não sejam adotadas com certa urgência, é observar todo o complexo tecnológico ser vendido para grupos estrangeiros. O país ficaria ironicamente refém de um sistema criada em solo nacional. “Assim como o petróleo, o álcool também é nosso. Precisamos defendê-lo”.

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