Como deve ser a relação de confiança no ambiente corporativo

“A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio.”
— Carlos Drumond de Andrade

Numa era de perfis e padrões de comportamento comoditizados, fazer a diferença em alguns aspectos tem peso de ouro. Pena que isto ainda não esteja introjetado e estimulado de forma mais clara e intensa no circuito das visões hoje fomentadas dentro do discurso das boas práticas, do sucesso, da prosperidade, da empregabilidade.

Entre muitas posturas e virtudes tratadas hoje como peças importantes na composição de um perfil pessoal e profissional, o “inspirar confiança, gerando credibilidade” traz uma significância única nas jornadas de relacionamento, comunicação, negociações, parcerias de diversas naturezas e demais interações que hoje permeiam a dinâmica da vida. Diz-se hoje que esse é um item raro.

Eu sempre achei muito engraçado em todo esse tempo que trabalho na chamada área de RH, e não são poucos anos, a valorização sempre dada em momentos de contratação, promoção, valorização de cargos e pessoas, e outros, quanto à questão de buscar pessoas de confiança, ou valorizar cargos que precisam ter pessoas de confiança para que estas não lesem o negócio ou o código de conduta (exemplo a preocupação na contratação e profissionais da área de Compras), ou promover profissionais nem sempre dotados das melhores competências, por eles se mostrarem homens ou mulheres de confiança. Ressalto isto aqui, não porque eu dê peso pequeno a essa virtude, mas é que para mim isso deveria estar intrínseco às pessoas que se propõem a conceder “a sua pessoa” em prol de algo: de uma relação; de um trabalho; de uma prestação de serviço; de uma causa; de um emprego; de um compromisso; de uma relação sólida.

O que estou querendo dizer é que não deveríamos pagar ninguém a mais por isso. Para mim, no máximo, esse quesito tem que ser valorizado em outros aspectos: a empresa querer ter no seu quadro pessoas que gerem confiança ao seu público de interesse; que sejam exemplo disso no dia a dia, contribuindo com cenários mais saudáveis, transparentes e éticos; valorizar e reconhecer, junto com outras competências e resultados demonstrados, essa postura; contar com pessoas inspiradoras de confiança para posições-chave das empresas, mas não somente pelo tempo que elas estão ou por serem pessoas que os dirigentes e lideranças possam contar pra tudo, mas por serem pessoas que, sabem-se, estão na sua empresa com o melhor propósito do mundo, torcendo por ela, vestindo a sua cultura, multiplicando atos e posturas positivos, formando e estimulando pessoas a ter olhares construtivos e atitudes éticas, tratando tudo com muito respeito, como se o negócio e o patrimônio, na sua forma mais ampla (capital tangível e intangível), fossem seus. Isso, para mim, é ser alguém de confiança que traz, dentro de si, a melhor porção deste sentido genuinamente. Que contribui dessa forma por saber que esse é o seu papel. E nada diferente disto é esperado delas.

Ainda no tema da confiança, e trazendo outro elemento que me causa pesar, é o quanto posturas de boa intenção são hoje confundidas ou colocadas no mesmo patamar do modelo que chamei no início de relação comoditizada, onde até o ato de fé em confiar no outro está se esvaindo junto com um milhão de outras  coisas que tomaram rumos impensáveis ao longo dos anos. Pessoas não entram nas relações e nos lugares dando um voto antecipado de confiança. Muito pelo contrário. Já contam que com certeza não dará certo, que as pessoas serão diferentes daquilo que se mostram, que é muita coisa boa pra ser verdade, e adotam posturas defensivas, o que tem atrapalhado, e muito, a evolução das relações, e aqui vou destacar especialmente as de trabalho.

Confiança é um valor que todos prezamos, mas será que estamos buscando identificar, reconhecer, acolher, valorizar e disseminar isto da forma mais adequada, aquela que precisa de grande transformação?

Gostamos de tudo que é grátis, não é? Também deveríamos buscar e valorizar a confiança germinada de atitudes e posturas gratuitas e autênticas, aquelas que afloram, que são vistas de imediato.

Confiança não tem que ser explicada ou comprovada. Como disse o autor da frase citada, não precisamos, ou não deveríamos, gastar nossa massa cinzenta, nossa energia e nosso tempo, tentando justificá-la.

Ser alguém de confiança é uma posição de vida. Está no caráter. Nas escolhas. Devemos ser, por ser, e não somente para ter. O ter é uma consequência desse sentido, quando ele é legítimo.

 

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