Com dólar a R$ 4, chega ao fim namoro entre o mercado e o BC

Após uma convivência respeitosa de quase oito anos, o Banco Central e o “mercado” chegam ao fim da era FHC como um casal em crise. O ápice desse desentendimento, que nos últimos meses oscilou entre quedas-de-braço e concessões momentâneas, veio ontem, quando o dólar rompeu a marca dos R$ 4, apesar das variadas tentativas do BC de conter a alta.

Antes de alcançar este patamar, que não condiz nem com os fundamentos da economia do país hoje nem com os prognósticos pós-sucessão, o câmbio foi bombardeado durante meses pela expectativa das eleições gerais e por crises externas -a Argentina, a onda de escândalos financeiros nos EUA e agora a iminência de uma nova guerra no Golfo Pérsico.

Não se pode culpar exclusivamente o “mercado” ou o BC ou a situação externa ou os candidatos à Presidência pelo salto estrondoso da moeda no ano, que agora já acumula valorização de 70,5%. Esse patamar só foi atingido ontem porque as coisas caminharam -ou degringolaram- juntas, e porque essa equação deixou uma dívida expressiva a ser saldada nos últimos meses de governo FHC.

O FolhaNews apurou que até dezembro, vencem US$ 12,86 bilhões em dívida cambial do governo com credores domésticos e outros US$ 4,71 bilhões, entre dívida e juros, com credores externos. O BC também terá que saldar ou alongar mais R$ 85 bilhões em títulos públicos pré e pós-fixados em outubro, novembro e dezembro.

A conta, se utilizada a cotação de ontem, soma nada menos do que R$ 154 bilhões a serem quitados, rolados ou renegociados pelo governo de hoje até 31 de dezembro. E as empresas brasileiras têm vencimentos de US$ 8,4 bilhões a liquidar no exterior nesse mesmo período.

A dívida cambial -entram aí tanto os títulos cambiais como os chamados “swap”, contratos que pagam ao investidor apenas a taxa de remuneração acrescida da variação do dólar- é a que mais estressa o mercado. Só neste mês são US$ 4,7 bilhões, US$ 3,6 bilhões dos quais vencem na próxima quinta-feira e outro US$ 1,1 bilhão, quatro dias antes do segundo turno.

Embora o BC afirme que há demanda por esses papéis no mercado, todas as operações recentemente realizadas pela autoridade monetária indicam que os investidores aguardam apenas o vencimento do que têm hoje em mãos para resgatá-los da melhor forma possível -e aí, quanto mais alto o dólar, maior o lucro. Para aceitar o alongamento do vencimento, o mercado tem cobrado taxas altíssimas, que o Banco Central se recusa a aceitar.

Essas taxas podem ser encaradas de duas formas, mas o mais provável é que representem uma mescla de percepções. Elas podem estar altas porque os investidores acreditam que o dólar cairá após a transição presidencial, e é preciso então cobrar uma remuneração gorda para garantir o lucro. Ou elas podem estar altas porque o risco é alto -e há um temor de que o país seja conduzido ao “default” (calote) no próximo ano.

Fato é que com a pressão sobre o câmbio, é detonada uma artilharia de cobranças sobre o Banco Central -que com a possibilidade de ter apenas mais três meses da gestão atual e a obrigação de tentar deixar a casa arrumada para o próximo presidente, tem espaço limitado para agir.

Fora do Brasil teme-se uma centralização cambial, que barraria a remessa de dinheiro e de dividendos de empresas multinacionais para o exterior -hipótese considerada pouco provável aqui dentro. Aqui, se fala em choque de juros, que melhoraria a remuneração dos títulos públicos e faria com que o mercado os aceitasse em troca dos títulos atrelados ao câmbio, mas estagnaria ainda mais a atividade econômica, e em aumento do compulsório. E também se teme -embora em muito menor escala- o calote.

O BC já tentou antecipar a liquidação da dívida. Também já tentou alongar para datas mais distantes, que vão do meio do ano que vem até o fim de 2005, tudo sem conseguir demandas expressivas.

Hoje o BC vai tentar, com uma operação de “swap”, alongar em apenas duas semanas o vencimento -e deve sair daí a resposta para a pergunta das taxas (se elas são uma aposta na queda do dólar ou medo de calote).

Uma opção para os investidores que querem se desfazer de seus papéis cambiais -o que tem efeito positivo sobre a dívida do governo, já que diminui a exposição ao dólar- e não recorrer à moeda estrangeira é comprar títulos remunerados pela inflação, as NTN-C (Notas do Tesouro Nacional, que embute à variação do IGP-M).

Só ontem o BC vendeu R$ 1,5 bilhão nesses papéis, que têm tido boa aceitação no mercado graças ao salto da inflação neste últimos trimestre, provocado exatamente pela pressão cambial.

E há expectativa ainda que a autoridade monetária tome novas medidas, já que a tendência é que a moeda norte-americana continue a subir desenfreadamente. Mas como acontece com todo casal em crise, frustrar as expectativas alheias tornou-se uma constante. (Folha Online)

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