Com álcool motor ganha 10 cavalos

Uma equipe do jornal O Globo fez teste com um motor a gasolina substituindo por álcool. Já que a taxa de compressão do Fiesta flexfuel (10,7:1) é um pouco mais alta que a do Fiesta 1.6 comum (9,5:1), fez-se de tudo para forçar o equipamento. Usou-se quinta marcha em subidas e retomadas de velocidade. Mas nada de “batidas de pino”: quando o sensor de detonação percebe que o fenômeno começa a ocorrer, vai atrasando o ponto de ignição.

Depois de percorrer alguns quilômetros, a equipe parou num posto e, com uma mangueira, esgotou-se toda a gasolina do tanque e da linha de combustível até o motor. Sob o olhar incrédulo do frentista, o abastecimento foi feito com álcool hidratado.

No uso normal, esta situação de mudança radical de combustível raramente acontecerá, uma vez que sempre haverá alguma mistura com o que sobrou no tanque. O carro pegou de primeira. O motorista não precisa fazer absolutamente nada – o sistema, mais uma vez, ajusta-se sozinho. Um técnico da Ford recomenda apenas manter o motor em marcha lenta por cerca de 30 segundos, para que o módulo de injeção e ignição reconheça o combustível queimado e se adapte.

O visor digital vai registrando a porcentagem de álcool que está sendo

queimada. Em menos de um minuto, o mostrador já indica os 100%. Se a

equipe sair antes do computador se ajustar, o carro pode queimar uma

mistura pobre demais e, inicialmente, não funcionar bem – quando se troca de álcool puro para gasolina pura, ocorre o inverso: o motor tende a afogar.

Na saída do posto, a agradável surpresa. Com álcool puro, o Fiesta mostra mais fôlego, já que trabalha com o ponto de ignição mais avançado. A potência do motor RoCam 1.6 flexfuel usando só álcool é de cerca de 105 cavalos, quase 10 cv a mais do que quando se usa apenas gasolina. Há também ganho de torque. Foram mais 45 quilômetros de diversão e o Fiesta passou a ter uma tocada quase esportiva.

Motoristas mais sensíveis notarão que o motor torna-se um pouco mais “áspero” ao queimar o derivado da cana. E, em dias muito frios, é

necessário um sistema de partida igual ao dos carros a álcool convencionais – aquele velho reservatório de gasolina.

Usando só álcool, perde-se autonomia e o consumo aumenta em cerca de 30%. Mas ainda há economia abastecendo com o derivado da cana: o litro deste combustível custa, em média, R$ 1,30 contra R$ 2,00 da gasolina comum.

O carro flexfuel é basicamente um modelo a álcool. As peças dos sistemas de alimentação, como bomba, bicos e regulador de pressão, são os mesmos dos carros a álcool, bem protegidos de oxidação. A diferença maior está na eletrônica: o módulo de injeção e ignição é mais versátil, com mapas diferentes para cada combustível e ajustes para misturas em todas as proporções.

Produzir um carro flexfuel custa quase o mesmo que fazer um a álcool. As peças extras são somente um catalisador diferente e um cânister (retentor de vapores de gasolina, inexistente nos carros a álcool). A maior dificuldade para a chegada da nova tecnologia às ruas é burocrática. Os critérios para medir emissões de poluentes e homologar os carros para venda ainda não foram decididos pelo governo.

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