CNI projeta redução da atividade industrial

Embora a Confederação Nacional da Indústria (CNI) projete um Natal gordo, pelo fato de a crise financeira ainda não ter afetado o salário e renda do brasileiro, mas acredita que as restrições ao crédito, seja para atender políticas monetárias (elevação dos juros) ou para aumentar o grau de segurança das operações (redução nos prazos de financiamento e maior rigor cadastral), vão afetar alguns setores produtivos no encerramento do ano. As expectativas da instituição foram apresentadas ontem, quando anunciou os dados da sondagem industrial relativa ao terceiro trimestre de 2008.

Os dados da pesquisa permitiram aos analistas da CNI projetarem que os impactos da crise sobre o mercado interno se tornarão mais nítidos em seis meses, embora já registrem aumento de incerteza em relação as conseqüências do aumento do dólar sobre o mercado doméstico.

– Os empresários industriais tornaram-se menos otimistas sobre suas expectativas de demanda e pretendem interromper o processo de aumento do número de empregados e de compras de matérias-primas – destaca o documento distribuído pela CNI.

Realizada entre 30 de setembro e 20 de outubro, com 1.443 empresas do país, a pesquisa da CNI identificou sinais de que a crise financeira global já afeta o segmento industrial de grande porte, do qual 80% são empresas exportadoras.

– Elas sofreram mais pela retração do mercado internacional – diagnosticou o gerente de Pesquisa da entidade de classe, Renato da Fonseca, que apresentou os resultados da sondagem.

Os dados da pesquisa revelam um período de transição entre a euforia do crescimento econômico e os primeiros sinais da crise, que entrou no Brasil silenciosamente a partir de julho, via acúmulo de estoques nas grandes empresas. O índice de estoques planejados subiu de 52,1 pontos para 55,3 pontos entre os dois últimos trimestres, o que, segundo os analistas, indica adiante uma retração da atividade.

– A falta de necessidade de reposição diminui o ritmo da indústria – acredita Fonseca.

Ao mesmo tempo, a pesquisa revela que o indicador de utilização da capacidade instalada da indústria está em alta, passou de 77% no segundo trimestre para 78% no terceiro. Também houve evolução no indicador do número de empregados, que foi de 54,4 pontos no terceiro trimestre, indicando tendência de crescimento do emprego industrial pelo nono trimestre consecutivo.

Produção aumentou

Dos 27 setores pesquisados, só os de couros e madeira registraram retração. Praticamente todos os demais aumentaram a produção e cinco deles se destacaram, com indicadores superiores a 60 pontos: refino de petróleo (71,4 pontos), equipamentos hospitalares e de precisão (64,3), álcool (63,2), bebidas (61,8) e máquinas e equipamentos (60,1). Abaixo de 50 pontos, os indicadores indicam tendência de queda e, acima, de expansão.

Além de avaliar o nível de atividade e os estoques de produtos, a pesquisa também procurou identificar as condições financeiras da indústria. O indicador de satisfação com a margem de lucro operacional ficou em 44,3 pontos no terceiro trimestre, contra 44,9 no segundo. – A insatisfação com a margem de lucro de pequenas e médias empresas está reduzindo ligeiramente desde início do ano, enquanto a insatisfação das grandes empresas aumentou, sobretudo no terceiro trimestre – afirmou Fonseca. Dos 27 setores, 24 estão insatisfeitos com a margem de lucros.

– A maior insatisfação é do setor de álcool (índice de 22,1 pontos), que tem problemas de preço.

Os técnicos da CNI condenaram uma eventual elevação da taxa de juros pelo Conselho de Política Monetária (Copom), na reunião da próxima semana.

– A alta na taxa é incompatível com as medidas para expansão do crédito e aumento da liquidez da economia que vêm sendo adotadas pelo governo – ponderou Flávio Castelo Branco, gerente de Política Econômica da entidade de classe, durante entrevista coletiva realizada em Brasília.

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